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A montanha e o vidente

 


Nem só de pão vive o homem. Há o deserto, as neves eternas do Kilimanjaro e embora não haja comprovação científica, as noites sempre são mais terríveis para quem está sozinho travando guerra elemental em torno de si mesmo observado do alto dos desfiladeiros e das montanhas íngremes à jusante do Volga. Lá, contemplando o início das estepes e do Baikal, posso ver as beterrabas e os rabanetes crescerem nas nuvens sem fazerem mal para a cabeça.
Nada do que ocorria ali era o resultado de uma grande inspiração. O cantor era amigo do mágico e poderia trazer um amigo como presente ao brilho celeste. Diante do arrebatamento e do fogo a alma restaria possuída em movimentos desordenados como as suaves notas da música entoada na lira triste. Todas as musas sorririam ao verem os sátiros dançando assim tão desengonçados como candidato flagrado com sobras de campanha em contas suíças.
- “Você deve me perdoar?” Foi um pecado inocente achar que se afastaria ou viria até mim. Apenas usei o carvão para desenhar nas paredes do céu lúdicas imagens de criaturas mitológicas, sem maldades. Quando retiro as algemas da minha imaginação, sou como uma borboleta livre brincado nas cores do arco íris” sussurrou a montanha.
Não pensem que foram dias fáceis aqueles. A canção ocasionou febre alta e a poderosa voz do poeta voava nas asas dos sonhos dos estudantes talentosos nos cálculos de artilharia. Porém, havia um lado mágico cuidando de todas as flores esquecidas, e isso consolou o vidente deixando-o dormir enquanto o destino não permitisse que desmaiasse deliciando-se e compartilhando com os amigos do facebook.
A montanha e o vidente tinham caminhos diferentes que de certa maneira se encontravam sempre no canteiro de obras da prestadora de serviços. De acordo com a pacífica jurisprudência que rege a matéria poderia relaxar com antecedência ao redor dele sem ter a necessidade de escolher abrigo, mas a sorte da montanha foi mais feliz. Não necessitou piscar com uma modesta pistola .45 no colo tricotando em silêncio.
“‘“ São acontecimentos indetectáveis da min há vida” disse o vidente “- O valor mais forte sempre será bem amado. Tudo vai ser estranho para você condenando assim o uso da espada de madeira para os atos de glória no acampamento militar. Deve tentar dormir sem essas visões inesperadas.”
Talvez tivesse razão. Ao mover as barracas em direção contrária ao galope da carga dos dragões provocou ebulição na multidão barulhenta e com sede de piedade sobre os amigos que se lembravam dele.
Nesse estado contemplativo, infelizmente fiquem sem ter aonde ir quando a tempestade se abateu sobre a cidade. Ali estatelado, não via nenhum refúgio ou abrigo protetor contra as faíscas da altura da lua cheia em seu apogeu.
- “Levante e ande. Não irei até você”, ordenou a montanha sem poder ver as réstias de luz graciosas. Contudo, o vidente deveria estar exaustos dos serviços da pesca rodeado por cães. Não se moveu sequer uma polegada. Na estepe de carvalhos, a floresta muda fazia ouvidos moucos ao poderoso arco formado no ombro direito.
Contudo, desprezando o trovão, acalentado pelo uivo tão familiar da tempestade deixou-se deitar na grama úmida, humildemente esperando no deserto pela chagada da montanha. Não se dissiparam porem as pesadas nuvens de ódio e exacerbação. Mais terríveis ainda troavam trovões embalados aos ventos fortes e uníssonos da formidável sombra daqueles choupais, deixando sobre os robes e camisolas respingos da cinza expelida através da cratera.
-“ E nunca mais ouviu a voz?” retorquiu o vidente esclarecendo a necessidade de se fazer a salga úmida antes da salga seca quando da produção do verdadeiro bacalhau. “- Cerque-se de amigos leais e salgue tudo, minha querida amiga. Mas não vá muito longe e nem caminhe pelo deserto para não sofrer.”
Na verdade, aquele era um fluxo das folhas de carvalho que ela jurou ter esmagado à noite, antes de escovar os dentes.
- “Nossas famílias são inimigas e só conhecem a vingança. Queria poder observar o vento em movimento e toda paz que ele traz. Conter o fluxo das cinzas do Kilaware. Já que não me obedece e eu não movo um centímetro, poderia ser meu amante?”.

 
Autor
FilamposKanoziro
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 21/09/2015 15:36  Atualizado: 21/09/2015 15:36
 Re: A montanha e o vidente
A felicidade é um estado de espírito.
Se a sua mente ainda estiver num estado
de confusão e agitação, os bens materiais
não vão lhe proporcionar felicidade.
Felicidade significa paz de espírito

Dalai Lama