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Dois Irmãos

 
Tags:  fantasia  
 
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(Foto de: HUNG TON)

Decorria o ano de 2000 e as pessoas recompunham-se do susto do proclamado bum da mudança de século em que muitas vozes gritavam horrores que terminavam quase sempre em que o Mundo iria acabar…

Entre quimeras, (eram 12/13 de seu propósito), vivia Letapatim, homem de vastos recursos mentais que compensavam a sua falta de destreza física, provocada por um problema que nascera consigo, que já se tinha habituado a combater, ultrapassando-o com alguma mestria.

As suas fantasias, outrora misturadas com algumas visões iluminadas, passavam por ser uma pessoa com uma vida normal, se possível, completamente dedicadas as letras, e em especial a literatura.
Sonhara escrever um livro que fosse um best-seller e criava, dentro da sua cabeça, um mundo próprio.
Arranjara uns heterónimos para fluir as suas necessidades da escrita. Ele era o Litaipe numa escrita mais em contos, o Luspub na poesia e o Lokoisopot nas crónicas da vida real…

Escrevia sempre. Entre mundos, onde o seu se movia, criava personagens nas quais mandava, e onde fazia as suas justiças, organizava planos bem estruturados para exercitar a sua mente e assim vivia escondido no “bunker” da sua casa. Tudo era feito através da Internet. Movia-se muito bem nesse mundo, compensando assim as outras faltas…

Envolvido que estava na sua condição, por vezes, e de forma dissimulada, extrapolava a sua função e sentia-se um polícia da net, onde passeava dia e noite.

Numa dessas viagens, numa cidade distante, encontrou a casa de Tapeli. Visitava-o sempre que podia, para ler o que, quase diariamente, escrevia. Havia algo que o atrai-a. Também por ser um leitor compulsivo, viaja entre as cidades da net, tornando-o num passageiro do tempo.

Certo dia, na casa de Tapeli, deixou um presente envenenado. Não tinha gostado da cor das ameixas que Tapeli tinha pintado o seu quadro vanguardista. Sem que se identificasse, deixou a sua marca de revolta, não contra o quadro ou a escrita, mas contra o autor…

Voltava sempre aquela cidade, e em especial, àquela casa de gente de bem para relembrar a sua argúcia, infundamentada, mas que lhe dava um prazer absoluto comparado ao jogo em que apenas ele jogava e ganhava…

Foram meses nesta mestria! Sem que, do outro lado, houvesse reacção, até que, um dia, Tapeli reagiu, sem saber de quem se tratava. A paciência tinha-se acercado da fronteira dos limites…

Tapeli procurou a sensatez para que os seus passos não fossem em falso. Mais que tudo, queria entender o que levava alguém a agir daquela forma, aberrante e ilustrada… Queria pensar de igual forma…

Começara o verdadeiro jogo! Agora já não era um só jogador a fazer jogadas ao seu belo prazer. Havia ataques e contra-ataques estratégicos, cravadas por plenas manobras de diversão.

Jogava-se com total liberdade, excepto na demonstração da peça inicial, que, por alguma vez assumira a sua verdadeira identidade…

E o jogo foi longe demais! Foram usados todos os recursos para que o jogo finalizasse. Tapeli apostava tudo. Já era uma questão pessoal muito para além do jogo inicial.

Até que um dia a falha aconteceu.

Luspub, Litaipe e Lokoisopot foram descobertos num corpo só e muito exposto. Estava a caminho de outro país quando foi interceptado pela CIA (Camaradas Investigadores e Amigos) que, numa operação conjunta de longo tempo, vinham seguindo pistas.

Afinal, Litoskyps, seu verdadeiro nome de baptismo fora descoberto. Tinha em seu poder uma colecção de passaportes de vários países e várias identidades. Multifacetado. Era apanhado por causa de um jogo simples que insistia em prosseguir.

A sua detenção foi manchete internacional. Era a mesma pessoa que liderava uma enorme seita através da Internet. O Guru mais procurado de sempre!
Tinha, sobre sua alçada, imensos crentes espalhados pelo mundo. Estavam a premeditar um genocídio através da Internet para breve… seria dentro de dois dias…

A CIA foi premiada com a medalha de mérito pelos bons serviços prestados em prol da sociedade.

Krupslap, o mentor das investigações e amigo pessoal de Tapeli, foi também condecorado pelo estado.

Já decorria o julgamento quando outra bomba estoirou…

A verdadeira história de Litoskups, era difundida por toda a comunicação social internacional. Ainda recém-nascido tinha sido entregue a uma família de adopção com quem vivia actualmente. Nessas mesmas investigações, descobriram que os verdadeiros pais já haviam falecido, mas que, ainda vivo existia um irmão…

Litoskyps e Krupslap eram irmãos de sangue. Uma fuga de informação originara outra bomba…

Ouvido pela comunicação social, as únicas palavras de Krupslap, sobre essa mais recente bomba foram: “Se pudesse voltar atrás, teria trilhado o mesmo caminho!”

Krupslap reformou-se dois anos depois. E Litoskups, condenado a prisão perpétua, é hoje um colaborador especial da Polícia Federal para o crime organizado, em especial através da Internet.





Escrevo…para libertar as personagens que não consigo Ser!
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http://catalogoluademarfim.blogspot.pt/

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Autor
Paulo Afonso Ramos
 
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Enviado por Tópico
Pedra Filosofal
Publicado: 09/04/2008 09:33  Atualizado: 09/04/2008 09:33
Colaborador
Usuário desde: 17/09/2007
Localidade: Barreiro
Mensagens: 1279
 Re: Dois Irmãos
A internet permite isso mesmo - a criação de múltiplas personalidades para a mesma pessoa.

Muito bem!!! actual! perfeito! etc e tal!

Enviado por Tópico
Vera Sousa
Publicado: 09/04/2008 22:34  Atualizado: 09/04/2008 22:34
Membro de honra
Usuário desde: 04/10/2006
Localidade: Amadora
Mensagens: 4100
 Re: Dois Irmãos
Um conto bem escrito, onde o autor desenvolve bem a escrita e prende a atenção do leitor do início ao fim!
Muito bem Paulo

Beijo

Enviado por Tópico
Luz&Sombra
Publicado: 10/04/2008 22:15  Atualizado: 10/04/2008 22:15
Da casa!
Usuário desde: 02/10/2007
Localidade: Cantinho à Beira Mar Plantado
Mensagens: 410
 Re: Dois Irmãos
A internet é um mundo e tem coisas boas e más. Entre as más, é o perigo, das pessoas deixarem de ser elas próprias, para passarem a ser, personagens de ficção!

A internet aproxima, mas também isola!

"(...) Entre mundos, onde o seu se movia, criava personagens nas quais mandava, e onde fazia as suas justiças, organizava planos bem estruturados para exercitar a sua mente e assim vivia escondido no “bunker” da sua casa. Tudo era feito através da Internet. Movia-se muito bem nesse mundo, compensando assim as outras faltas…"

Um conto, que conta, a realidade de muitas vidas.

Beijo.