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Poemas : 

o hálito da espera

 
tem o peso do que é leve
a nuvem, a pluma, o sorriso

o ar do ar preso

tem o corpo do arvoredo
por podar
e o toque liso dum abraço
prenhe de mãos e dedos

alcance

o hálito da espera...


Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

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Autor
Rogério Beça
 
Texto
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 01/05/2020 13:34  Atualizado: 01/05/2020 15:33
 Re: o hálito da espera
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No livro do Génesis, o hálito divino é a origem do Homem: "Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente."
Mais tarde, entre os gregos, a alma era vista como uma porção de ar, que partira do éter e a ele regressaria na hora da morte. Há até relatos de quem conseguiu ver o ar expelido pela boca dos mortos no momento do óbito.
A associação do hálito à vida é, portanto, algo quase natural e comum a várias civilizações humanas.

Neste poema, essa ligação começa por residir em três metáforas: a nuvem, a pluma e o sorriso. As três combinam-se numa imagem comum: a de algo que pode nascer vívido e fulgurante para, mais tarde, se revelar frágil e transitório.
A nuvem, que pode tomar todas as formas dos sonhos e que depois desaparece com a brisa...
A pluma, que representa a beleza das aves e que se converte em algo tão fútil quanto a pena de um chapéu ou um marcador esquecido num livro...
O sorriso, símbolo ambivalente da alegria/tristeza/escárnio...

A meu ver, no verso seguinte -- "o ar do ar preso" -- começa a segunda parte do texto, em que a ideia de prisão vem introduzir a mais bela estrofe do poema: "tem o corpo do arvoredo / por podar / e o toque liso dum abraço / prenhe de mãos e dedos".
Como interpretar estas duas ideias que aparecem ligadas pela copulativa? Algo que cresce e que precisa de ser cortado e um abraço de "toque liso"?
A minha leitura leva-me à insurreição dos corpos que não se deixam cercear pelos constrangimentos da sua frágil condição e que procuram ligações, cheias de sonhos e anseios, mesmo que tenham de se cingir ao "toque liso", a uma verticalidade das relações, que se desejariam circulares como um abraço.

Reflexos de um mundo em confinamento? Não sei. Talvez seja demasiado literal.
Independentemente de qual tenha sido o móbil da escrita, há aqui algo que encontro em outros poemas do Rogério: a presença constante de elementos primordiais (ar, fogo, terra, água -- a que juntaria a luz) que são a chave de leitura para o lado mais desconhecido e encantatório dos sentimentos humanos.

Um grande abraço, meu irmão.