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INQUIETUDE

 
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INQUIETUDE

Inclino-me para a ternura que ascende na direção do desapego

Inclino-me para o silêncio porque há um ruído preso na garganta

Há um espanto amarelo que leva ao abismo no asfalto dos sonhos,
há o clamor que sucumbiu na arquitetura da fome.

Belmiro Mouzinho
Poeta

Belmiro Mouzinho, poeta de Moçambique. O poema inquietude espelha o desiquilíbrio social na sociedade a volta do poeta e também a que observa no mundo.
 
Autor
Belmiro Mouzinho
 
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Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 11/12/2023 09:50  Atualizado: 11/12/2023 09:50
Membro de honra
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 3100
 Re: INQUIETUDE p/ Belmiro Mouzinho
A imagem tem dois aspectos contrastantes que se encaixam na perfeição das realidades que descreve, vejo Moçambique a quem se tenta roubar a pureza da terra e das suas gentes, o grito que se quer livre e que está acorrentado aos interesses maiores de alguns, o "espanto amarelo" que me parece um medo envolto na coragem de sonhar e o lado negro da humanidade a que alguém chamou de pedido de socorro.
Em tão pouco, tanto se diz.

Enviado por Tópico
HorrorisCausa
Publicado: 11/12/2023 17:36  Atualizado: 11/12/2023 17:36
Administrador
Usuário desde: 15/02/2007
Localidade: Porto
Mensagens: 3594
 Re: INQUIETUDE /Belmiro Mouzinho
olá Belmiro Mouzinho

a imagem de " há o clamor que sucumbiu na arquitetura da fome", é inquietante e na minha leitura retrata bem que a fome é arquitetada por interesses vis.
o poema no seu todo é intenso, emocionante e certeiro.
obrigada pela partilha

atenciosamente
HC

Enviado por Tópico
Paulo-Galvão
Publicado: 11/12/2023 20:56  Atualizado: 11/12/2023 20:56
Usuário desde: 12/12/2011
Localidade: Lagos
Mensagens: 1176
 Re: INQUIETUDE
Olá Belmiro,
Poema in tenso e tenso que expõe a face de uma realidade dura; ao colocar-nos assim, cara-a-cara é impossível desviarmos o olhar sem perguntar, Porquê?
Paulo

Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 14/12/2023 19:53  Atualizado: 14/12/2023 19:53
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1934
 Re: INQUIETUDE
Há algo na expressão inglesa “to be quiet” que me leva para o estar em silêncio. Essa impressão afasta-se um pouco da original e que usamos em português, o estar quiet(o), ou imóvel.
Afinal, há movimento no som. Nas ondas sonoras.
Mas o título vai na direcção contrária ao quieto, uma vez estar escrito na negativa.
Ora, deve haver algum tipo de som neste poema.

Formalmente, tem três versos. O terceiro, extremamente longo, transforma-se, por isso, quase, mais num pedaço de prosa.
Os primeiros dois começam da mesma maneira, com o mesmo verbo reflexo.

No primeiro, esse “Inclino-me...” (de volta o movimento), essa tendência é tranquila, uma vez associarmos a “...ternura...” a algo sem violência.
Mas não é feito sem esforço, porque é a subir, já que “...ascende...”.
No mesmo verso, a palavra que mais me interessa é mesmo o “...desapego...”. Parece-me ser uma certa caraterística de santidade, de caminho espiritual. Ou se quisermos, anti-material. Precisamente por associar ao desinteresse, pelo material, pelo ter. Um oposto da ambição.
Acho tudo isso muito bonito e tal, mas desde que fui pai, foi um caminho que nem comecei (sou muito apegado aos meus miúdos)...
A ligação “...ternura...”-”...desapego...” parece-me fazer todo o sentido e parte do mesmo grupo vocabular.

No segundo verso o ambiente espiritual perde-se.
E coloca o sujeito poético numa esfera mais humana, com várias facetas, e tornando-se mais complexo.
O “...ruído preso na garganta...” é uma boa expressão de angústia.
O tal som que me sugere o título, surge áspero. A “lei do ruído” em Portugal é todo aquele, ilegal, que excede os 80 decibéis. Não é a “lei da melodia” ...
Este lado a tender para o desagradável, este nó “...preso na garganta...”, além de ser na “...garganta...” (há algo de prosaico e visceral nessa anatomia que não sei explicar), está “...preso...”, isto é, está privado de liberdade, um dos maiores valores que podem existir.
Para lidar com tal, é escolhido o silêncio.
Dizem ser de ouro.
Mas essa inclinação, neste caso, parece mais resignada do que a primeira.

Haverá “...ternura...” no “...silêncio...”, ou antes, haverá “...silêncio...” na “...ternura...”?
Gosto de “...espanto...”. Essa surpresa que (nos) maravilha.
Contudo, no início do terceiro verso, o adjectivo corta o efeito.
Os haveres com que somos brindados na terceira pessoa têm um quê de maldição, que tem o seu expoente na última frase, que é a mais brilhante de todo o poema e que me trouxe ao comentário e passo a transcrever:

“...há o clamor que sucumbiu na arquitetura da fome.”

Este “...silêncio...”, assim escrito, é amargo e quase definitivo.
“...o clamor...” é uma grande escolha de palavra para designar “grito de revolta”.
Mas a “...arquitetura da fome.” coloca bem mais o dedo na ferida.
Por muito corajosos que sejamos, há um limite mínimo que permite essa coragem, e que, infelizmente, destrói toda a vontade.
A “...fome.” na sua forma mais séria e destruidora condiciona, inclusivamente a liberdade.
Não é à toa que a miséria a ela associada, é encontrada em todos os regimes ditatoriais e assola uma percentagem dominante dum povo a ele sujeito.
Essa “...arquitetura...” espelha o planeamento frio, quase artístico (há cidades bem bonitas) e que nos submete também a um arquitecto (ou equipa de arquitectos), alguém por trás, que nas sombras a planeia e lucra.
Que edifício horroroso, neste caso, contudo...

Obviamente, o som (a Inquitude) foi encontrado.

Gosto de poemas curtos e contundentes. Como este.
Ainda não dá para definir um estilo neste autor, mas este texto deixou-me o apetite aberto.
Bom, também, o apelo para autores africanos publicarem entre nós (Luso-Poemas) estar e ter respostas como esta.

Obrigado pela partilha.