É como uma pedra na ribeira. Às vezes se afoga. Sonha com a estiagem e sobrevive de pequenos momentos em que a turbulência e fluxo da água a descobrem temporariamente... um lampejo de sol, um vislumbre do que seria a vida sob brisa suave do vento e o calor acolhedor das manhãs ensolaradas.
Ela não se resigna, sofre intempéries da água, se desfaz em seu fluxo, afunda, emerge momentaneamente, impotente num turbilhão implacável, indiferente e sem remorsos. Se desgasta aos poucos, continuamente perde a forma.
Impassível, todo dia é remodelada. Não se lembra mais de quem era... Apenas sabe, no âmago de seu interior rochoso: “esse polido não sou eu”. Como pode a água deformar as pedras?
Ela não se move. Está presa. Apenas um destino implacável a libertaria. Um terremoto, talvez. Quem sabe até uma tempestade violenta a moveria dali.
Mas para onde? E se sucumbisse ainda mais nas águas? Se fosse arrastada a um mergulho nas profundezas do oceano, perdendo de vez seus breves e preciosos momentos de sol e brisa? Pior! E se fosse quebrada durante o processo? Conseguiria viver partida? É possível existir em pedaços?
Dessas introspecções, surge pensamentos contenciosos mimetizando clareza mental. A pedra não se mistura à água. Não é sua amiga. Isso é certo! Mas é conhecida. Uma velha inimiga, que se não fosse a relação conflituosa consigo, certamente seria admirada.
A água é antagonizada porque sua natureza fluida não combina com a natureza estática, inerte, rígida da pedra. A resiliência sempre será inimiga natural da dureza. A solidez traz confiança.
Já a água se deixa levar, contorna, se ajusta a formas externas. Se infiltra onde não deveria, transborda quando menos esperamos. É tão imprevisível. Não é confiável. Sempre passa, nunca permanece. É traiçoeira, te atrai, mata tua sede, lava tua pele, mas te afoga se te descuidares.
Não! Não há negociação ou conciliação. Vai permanecer ali, vivendo de sonhos e pequenos momentos de sol e brisa, mas está convicta consigo: Pedra é pedra. Água é água.