quando eu nasci,
entregaram a minha alma.
ao desprezo de uma mãe,
sobre o descaso de um pai.
eu lembro de coisas
que eu não quero lembrar.
o sofrimento foi a minha primeira dose.
eu viajava em minha solidão,
acordava e dormia na violência.
sonhos eram como policiais
metendo o pé na porta.
eu acordava de joelhos,
com minhas mãos levantadas,
a única oração que eu conheço.
quando eu nasci,
entregaram a minha alma,
sobre o descaso de um pai,
ao desprezo de uma mãe.
o sofrimento foi a minha primeira dose.
eu me lembro apenas de coisas
que eu não quero lembrar.
o sofrimento é a minha única dose.
a violência foi meu parque de diversão.
quando eu nasci,
entregaram a minha alma.
a minha alma.
a minha alma.
foi a minha primeira dose.
meu primeiro crime
foi chorar por ter fome,
pelo frio,
por dormir sujo
com minhas próprias fezes.
o nome que me chamavam
era moleque.
depois me chamavam
de pisante,
sapato,
pivete
e menor.
hoje me chamam
de trinta e três.
quando eu nasci,
entregaram a minha alma,
ao desprezo de uma mãe,
sobre o descaso de um pai.
o sofrimento foi a minha primeira dose.
eu me alimento da dor,
e ela me da
um enorme vazio na alma.
o sofrimento
foi a minha primeira dose.