Às vezes o amor não sofre por ausência,
Mas por excesso de pergunta.
Ele existe — e, ainda assim, duvida de si.
Há amores que caminham
Como sombras ao entardecer:
Estão ali, alongados no chão da alma,
Mas qualquer mudança de luz os faz desaparecer.
E então o coração se pergunta
Se ama alguém
Ou se ama apenas a ideia de não estar sozinho.
O amor incerto não grita,
Ele cochicha.
Não promete,
Adianta-se em silêncios.
É um sentimento que pede provas
Do mesmo modo que a fé pede milagres:
Com medo de não resistir à resposta.
Há dias em que ele pulsa,
Outros em que se esconde,
Como se tivesse vergonha de existir sem garantias.
Ama, mas teme estar enganado.
Deseja, mas suspeita que o desejo
Seja apenas um eco
Batendo nas paredes da própria carência.
Talvez o amor mais frágil
Seja aquele que olha para dentro
E não encontra certeza suficiente para permanecer.
Não por falta de sentimento,
Mas por medo de descobrir
Que tudo o que sente
Não passa de um ensaio para a perda.
E ainda assim, mesmo duvidando,
Ele fica.
Porque até a incerteza
É uma forma de amor
Quando o coração prefere questionar
A simplesmente partir.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense