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Noite de ontem e manhã de hoje

 
Noite na praça do Bacurizeiro
Do lado da rua 17, atrás do mercado, da lixeira e do bodum de peixe podre e de carniça que emanava dela. Podaram alguns galhos da sexagenária mangueira da Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel – aguardo Cad, já fui no Ed, o taverneiro e nada e com uma lata de Brahma me refugiei aqui. As vodkas do Ed e do finado Bispo que mamei pela manhã (La Sierra não abriu a bodega) me deixaram ruim, bem ruim mesmo – o movimento final do Comercial Antônio no seu imponente prédio. A canção brega e sofrença no bar do Popó atrás de mim. Um rapazito segurando uma chuteira numa bicicleta, ainda pouco sentado solitário no outro banco, aproximou-se de mim:
- O senhor é escritor?
- Estou tentando ser.
- E o senhor escreve sobre o quê?
- Sobre nós
- Legal – e se afastou na direção da quadra iluminada.
O chamei e digo-lhe para me ler no Luso-Poemas com o codinome Efemero25 – ele pede-me para anotar. Ok!
De volta a taverna do Ed e nenhuma novidade e o poeta observava o calipígio acentuado da Dona Dudamel sendo cortejada pelo Carteirinho um pouco acima do chão – o tempo urgia e nada e nem a resposta do mestre Cad, deixando o poeta apreensivo, será que aconteceu alguma coisa fora do contexto? Os improváveis ocorrem sem aviso a qualquer momento, principalmente nos dias turbulentos de hoje. Sr. Con com esses pensamentos negativos, mamou três latas de Skol e retornou para o berço, assistir os vídeos engraçados do Fala Brasil do eclético Alex Lima, um cabra da peste, bom prá dédeu. Ceou uma sopa com carene de sol frita, banhou-se no quintal sob uma enuviada, ouviu a Vox do Brasil e capotou.
Friday, 07
As quatro e meia despertou para urinar, pensou no filhote distante, também se preparando para encarar o batente as cinco horas da manhã na linha de produção do frigorifico bovino no interior do Parazão. Que Deus o abençoasse e o protegesse de qualquer mal. Colocou os fones nos ouvidos e as cinco sintonizou no Marcial Lima na Mirante News e ouviu o primeiro coletivo 314 passar na Avenida Sarney Filho. As seis levantou-se da rede e escancarou as duas folhas da janela e um sol amarelado surgia ainda frio no horizonte – mudou para a Jovem Pan, ouvir as primeiras noticias nacionais banhando-se no quintal, depois de urinar atrás da ex-casinha – De volta aos seus humildes aposentos, enxugou violentamente as frieiras nos pés – envergou a farda cotidiana – a camisa desbotada do Batman – de preta ficou cinza. Genuflexiou-se para rezar o Pai Nosso e uma Ave Maria e pedir proteção para todos, principalmente para o filhote distante.
Na Praça das Sete Palmeiras, os burros e as mulas faziam a festa pastejando a grama dos canteiros e os passageiros ansiosos aguardavam o ônibus do Piancó.
- Bom dia, seu Robert Cohen! – saudou o dono da Padaria Renascer e apanhou a sacola com os pães na mão da afetuosa gordinha atenciosa.
Uma lua pálida e translucida regurgitava-se de um esquálido ceu azul.
Aleluia! Aleluia! Mestre Bardaux, o serralheiro trouxe um recurso, minutos depois o mestre Cad também com o saldo restante e o melhor pintou uma gambiarra, soldar uma escada para Paul, filho do saudoso João Preto. 180 bacuraus. Aleluia!
Termino da manhã na agencia dos Correios da São Pantaleão – o velho atendente, da época aurea dos Correios na sede central da João Lisboa, o último dos remanescentes vai urinar.
- Estou quase espocando – disse.
Seu Joaquim entrou por concurso em 1980, e aposentado, mas continua na ativa. Três cartas para Europa, uma para a Francesa editora Anacoena e duas para a Italia – Feltrelle e Edizione C/O – Firense ou Roma, quase duzentos reais. Bem, tarefa cumprida com uma cerveja na mercearia de Dona Esmeralda na Madre Deus – dos 500 resta apenas 120 – deu cem para a Sra. Vince comprar o uritinga, pagou o mestre Salomas pelas impressões, quitou-se com a aniversariante, o pre candidato a senador Jose Lacerda, que teve ontem um dia cão, perdendo a carteira dentro do ônibus, mas uma boa alma achou e lhe devolveu na casa de Mama Grande no Turu. Dez reais por um churrasco cibariano, não sabia que a Sra. Vince havia preparado o suculento uritinga. E depois uma lata e bode.





 
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efemero25
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