a figueira não crescia
pairava
como certas decisões
apodrecendo intactas
havia frutos demais
e todos exigiam sua fome
um brilhava em ouro doméstico
mesa posta,
vidro limpo,
a poeira escolhendo os mesmos lugares
outro vinha com gosto de fuga
línguas de álcool,
um corpo sem endereço
vivendo rente ao pelo da febre
havia o fruto da escrita
que pesava o galho
e crescia
à custa do que ainda não tinha pele
um outro,
pálido,
escurecia primeiro
no centro
eu olhava todos
e nada caía
então veio o verão
as frutas começaram a ceder
irreversíveis
desde então
há um cheiro de coisa passada
subindo de mim
e às vezes,
quando alguém encosta no meu ombro,
ouço ramos partindo
em algum lugar
ainda vivo