Poemas : 

Estado de Conserva

 
a figueira não crescia

pairava

como certas decisões
apodrecendo intactas

havia frutos demais
e todos exigiam sua fome

um brilhava em ouro doméstico
mesa posta,
vidro limpo,
a poeira escolhendo os mesmos lugares

outro vinha com gosto de fuga
línguas de álcool,
um corpo sem endereço
vivendo rente ao pelo da febre

havia o fruto da escrita
que pesava o galho
e crescia
à custa do que ainda não tinha pele

um outro,
pálido,
escurecia primeiro
no centro

eu olhava todos
e nada caía

então veio o verão

as frutas começaram a ceder

irreversíveis

desde então
há um cheiro de coisa passada
subindo de mim

e às vezes,
quando alguém encosta no meu ombro,
ouço ramos partindo
em algum lugar
ainda vivo


 
Autor
Aline Lima
 
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