Quinta-feira,06 de maio
Dormi pesadamente sob o efeito do álcool que ingeri ontem a noite.
Na Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel, uma visão ultra-poetica de uma manada de bovinos = vacas, bois e bezerros todos ajoelhados ou deitados no canteiro ruminando pacificamente o tempo e observando a bucólica fauna humana desfilando, o cheiro dos excrementos perfumando o ar. Seu Raimundo Zarolho debruçado sobre a sua quinquagenária Monarch relembrava sua infância nos baixios de São Bento.
O cheiro forte de alho queimava suas narinas, vindo da cozinha do Posto Medico da Vila Embratel. Aguardava a sua agente de saúde para encaixar lhe na lista de consulta da doutora Ana Beatrice para mostrar-lhe o exame de sangue.
- Cheirou, Dona Esmeralda! – exclamou uma das medicas descendo da escadaria e passando em frente ao sr. Con e nem lhe deu um bom-dia.
O zelador moreno passa discretamente o rodo no lajotão do Hall e lhe olha de esguelha. Um doutorzinho empertigado como um boneco dentro de um branquíssimo jaleco. Duas jovens estagiarias acompanham a medica.
- Hoje ela tá cachimbada – disse o zelador moreno para seu Raimundo, o homem das palavras cruzadas e do sudoku que veio fazer um curativo na rotula do joelho esquerdo, vitima de um escorregão no domingo passado quando ia para casa com um carro de mão.
Para acalentar essa insensata espera sem fim lia as memorias do grande mestre peruano de Arequipa, Mario Vargas Llosa “Peixe na agua” – ganhou o Nobel de literatura aos 75 anos – tatuando na alma do poeta a esperança que ainda pode ser agraciado com tal honraria – a famosa rodinha das funcionárias após no final do expediente conversando amenidades – no seu tempo de Juizado, ele não participava, enfurnava na sua sala para ler até um dia seu chefe imediato chamou-lhe a atenção, ele deu uma desculpa e continuou no seu refúgio. As onze e meia, sem a presença da sua agente, ele capou o gato e foi molhar a garganta no mestre Lasierra, sempre agoniado como todo bom louco – Tó doido pra matar um e não tenho um revólver – disse para o recém chegado, que lhe contou uma história de um amigo que morreu – Ele deu um tapa na cara de Babão, por que tomou gosto com sua companheira presa. – Respeita mulher de ladrão! – disse e virou as costa. Babão passou a mão no rosto e falou para um parceiro: -Seu tivesse uma faca eu matava esse miserável. O colega olhou pra ele: Bem se o problema e este, pega a minha – e estendeu-lhe uma vistosa peixeira – Pronto . Babão correu atrás do meu amigo e o esfaqueou nos rins – mortal na manhã de 29 de junho de 1990 na rua 28 de julho– nesse tempo eu e Sra. Van morávamos numa porta e janela na Rua da Saude. Fomos ao velório e ao enterro. Foi triste.