Poemas : 

Dez Sonetos da Guerra na Crimeia parte dez

 
 
1. a troca


É só mais um soldado ao sol dado,
posto na pira que era o seu posto,
carne pra canhão, como entrecosto
nas brasas, sem crematório, cremado.

É só mais um crianço baleado,
balas que têm um amargo gosto,
dos pedaços que restam só o rosto,
as sobras é um todo desfigurado.

É só mais uma geração num oito
feita, sem número, sem sete, nove,
com a numeração esgravatada.

É só mais uma violação num coito,
que deita no chão tudo que se move,
ao sol, dado, em troca de mais nada.


2. Poema sem u e sem paz


O dia amanhece, e, logo, fina;
grosso, parado, todo acelera
e o amanhã já não se espera,
foi levado por mão assassina.

A noite eterna chega, como sina,
é maldição por dizer a esta era,
chamar inverno a cada primavera;
é fogo que não arde, só disciplina.

Só o fim faz parte desta história,
não se conta princípio nem meio,
só sabemos que assim se encerra.

Momento em que falta a memória,
sem encanto, verdade, recheio,
que jaz, neste pedaço de Terra.


3. mote, nulo


Já não aguardo, nem espero, o mote.
Toma a minha pena a iniciativa
como se fosse ela coisa viva
e tenho pena que ela a adote.

A aguardança, sem que eu note,
escondeu-se, num jogo, altiva,
e fica assim, só, até se tornar ativa.
Espera um beijo de amor, lingote.

Sai à rua um soneto de guerra.
Nasce sem mãe, sem família, nem pai,
gerado e não criado – divino.

Como coisa humana, logo, que erra,
este soneto sem outro antes sai.
O seu mote, nulo, nem o imagino.


4. Idioma


Quando, foi uma promessa que fiz,
que vi feita, estampada no teu rosto;
caminho traçado de vil desgosto
cujo lugar final é sempre infeliz.

Tem um fedor que fica no nariz,
infetado, deixa o mundo indisposto;
quando entra na pele o seu encosto,
arranca toda a esperança pela raiz.

Não há cores para esta bandeira,
a madrugada fica a meia haste
invivendo neste sempre-estar de luto.

E essa metade é verdade inteira,
numa língua em que não há quem baste,
nada é lapidado, nem sequer em bruto.


5. Irão


Para que no futuro se faça
os mesmos erros de então,
os faltosos os lapsos terão;
ignorarão qu'o tempo passa.

Escolhidos por divina graça,
uns e outros têm a sua razão.
Defendem a sua amada nação
ou clamam por pureza de raça.

Para a hora no segundo certo.
Para todos, assim é o mundo.
E todos temos esse destino.

A idade é o ir a descoberto
sem conhecer esse segundo.
É o que o futuro tem de menino.


6. Mundial


Não, agora não falo de futebol,
nem sei bem sobre o que falo.
Não tem substituições, nem intervalo,
nem acaba com um belo pôr de sol.

Em todo o lado, o fim a engole,
a sangue e podre, não me calo.
É maldita esta bala que embalo
que mais me parece ser um anzol.

O passe final não dá em golo,
os gritos ouvidos não são de festa,
não há penaltis se empatado.

Todos perdem neste triste solo,
na guerra mundial nada presta,
apenas há morte em todo o lado.


7. Terramortos


E tremeu mais uma vez a terra,
de quando em vez ela só treme,
barco desgovernado sem leme,
à deriva, derivado, erra.

Em todo lado se desenterra,
procura-se um gemido se geme,
e ainda que trema, o que se teme,
é só mais um tremor que nos cerra.

Está na natureza do Homem não
respeitar a vida do semelhante.
Vingança e poder é o que quer.

Pode tremer e ser ele a explosão,
numa bomba nuclear gigante.
É a sua triste maneira de ser.


8. Guerra Civil


De civilizada pouco ou nada tem
é o lado negro da civilização,
que vive mais dentro do caixão
e com a guerra irmã se entretém.

Cria no vizinho rancor e desdém,
cria em si mesmo caos e confusão,
falta de tudo, desde a fé ao pão,
de civilizada - só a noção de sem.

Se um diz mata, o outro, esfola
e vale tudo, haja ou não tratado.
Vinga o frio sabor da vingança.

É assim que uma nação se imola
num fogo interno e cerrado.
Viaja, sozinho, Sancho Pança.


9. sobre o adjectivo quixote


estranha aventura, cavaleiro andante
cuja loucura apenas tu não vias,
por ideais de honra e utopias,
espalhar o bem a todo o instante.

não existe moinho nem gigante,
só interesses, e páginas vazias
assinadas por reles porcarias,
andas perdido, sempre a montante

resta-te o consolo do tempo ido
e que a idade faça calar o canhão,
mas não deixas de brandir a espada

feita a brando continuar perdido,
tendo por guia esse bom coração,
mais nada.


10. Sem Poemas


Nesta guerra
sem poemas.





Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.

Estes sonetos foram feitos com a colaboração do meu alter-coiso cheiramázedo, como comentários a outros.
A eles o meu muito obrigado, ao outro estúpido, não.
 
Autor
Rogério Beça
 
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Enviado por Tópico
fracafigura007
Publicado: 12/09/2026 13:15  Atualizado: 12/09/2026 13:15
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 Re: Dez Sonetos da Guerra na Crimeia parte dez
Se é uma coleção, ou uma epopeia, parece-me ir no caminho certo

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