Para não variar, esta história desenrola-se entre dois solitários, rodeados por fados com quadras entristecidas pela vida.
João só teve uma relação, que durou sete anos, e terminara há um ano. Carolina ficara aprisionada à sua virgindade e à cultura antiga da família.
João era motorista do autocarro do hotel, onde Carolina trabalhava como empregada de andares.
Sabiam-se de cor: ela vestia a modéstia do hijab, ele trazia um terço visível sobre o peito.
Ele dizia “bom dia” com a alma na língua sempre que ela entrava; ela, baixinho, retribuía.
Parecia improvável nascer amor entre duas pessoas tão diferentes.
Um dia, o hotel promoveu uma formação sobre liderança e trabalho em equipa, na qual, por incrível que pareça, ficaram lado a lado. O pior foi quando as formadoras lançaram uma dinâmica em que os dois tinham de manter contacto visual durante três minutos, em silêncio, respirando de forma sincronizada e, depois, partilhar o que tinham sentido.
Talvez tenham sido três minutos longos, mas, ao mesmo tempo, o despertar de algo mais bonito…
Sensivelmente a meio, Carolina mareou uma lágrima, que encharcou João de afeição por ela.
No fim, confessou que nunca tinha estado tão perto de um homem e que tinha sentido muitas emoções, umas boas, outras nem tanto. João disse-lhe, por sua vez, que tinha sido libertador estar diante de um olhar tão bonito e meigo, tão desprendido do comum, que parecia estar diante de rubis e diamantes.
Saíram do auditório diferentes, sentindo que algo tinha mudado.
Continuaram a pensar um no outro, com o coração mais perto da roupa e a vontade acesa na boca de voltarem a falar com a mesma proximidade.
Será que conseguiram ultrapassar todas as barreiras para ficarem juntos?
Será que o amor vence tudo, até as crenças de mundos diferentes?
Talvez a nobreza de amar supere a mais rígida doutrina, deixando a nu a verdade de que somos iguais quando o amor nos arde.
Continua…