Poemas : 

Sob os Arcos

 
São janelas fechadas,
Ao tempo que não sabe,
Que é tempo.

Hoje,
São janelas abertas,
Para quartos de luxo,
Onde dormem pessoas,
Que nunca saberão,
Quem olhou por elas,
Há muitos anos.

São lustres embaciados,
Pelo vapor da respiração,
De fantasmas que deambulam,
Por salas que se perderam,
Também no tempo.

Nos anos setenta,
Eu passei por aqui.

Tinha quinze anos,
Quase dezasseis.

E ela… dezoito.

Não sabíamos ainda,
Que há vidas que começam,
Quando outras começam a acabar.

São pratos,
Que já não conhecem mãos,
Nem bocas,
Nem o som das conversas,
À mesa.

Comensais que partiram,
E já não podem voltar.

Que tal como ela.

São fantasmas que gritam,
Aprisionados na sua própria voz.

E há vozes,
Que o tempo não consegue calar.

São pessoas cercadas,
Por pedaços de árvores,
Dependurados nas paredes,
Que também já aprenderam a falar.

Falam de quem passou.

Falam de quem ficou.

Falam daqueles,
Que partiram cedo demais.

Até mesmo aquele piano,
Encostado hoje a um canto,
Perdeu o seu encanto.

Já não conhece os dedos,
Que lhe arrancavam melodias,
Nem os corações,
Que por elas disparavam.

Hoje,
Guarda apenas o silêncio,
Daquilo que um dia tocou.

Cadeiras soturnas,
Por todos os lados.

Mobílias envernizadas,
Que escondem o caruncho.

Como escondemos nós,
Aquilo que o tempo,
Não conseguiu destruir.

Hoje,
Tudo parece novo.

As paredes,
As portas,
Os lustres.

Até o silêncio,
Parece ter sido polido.

Mas há coisas,
Que nem o luxo,
Consegue esconder.

São portas que se abrem,
Mas que não deixam passar o futuro.

Apenas o passado.

E eu entro…

Não entro no hotel…

Entro na memória.

Procuro os passos dela,
A sua voz,
O seu olhar,
O seu sorriso,
Escondido pela ombreira de uma porta.

Procuro,
Na memória,
O seu cabelo comprido,
Esvoaçante nas suaves brisas,
Nascidas das suas corridas pelos corredores.

Procuro aquele tempo,
Em que ainda não sabíamos,
Que o tempo também fere,
O tempo também diluí,
As memórias.

É o silêncio que,
Se afoga a si próprio.

São Arcos…

Majestosos.

Intemporais.

Pedras que aprenderam,
A permanecer,
Quando quase todo o resto,
Aprendeu a desaparecer.

E quase ninguém,
Se atreve a passar sob eles.

Não porque tenham medo,
Que desabem a qualquer momento.

Mas porque,
Há lugares que não se atravessam,
Sem levar alguma coisa consigo.

E há memórias,
Que não perdoam,
A quem passa por elas,
Sem as reconhecer.

Eu passei.

Ela também.

E talvez seja por isso,
Que ainda hoje,
Quando passo sob eles,
Não procuro o hotel.

Procuro-a.

Porque há lugares,
Que deixam de ser lugares.

Passam a ser pessoas.

E há pessoas,
Que deixam de estar connosco.

Mas que nunca,
Perderam o seu lugar.

Nunca deixam,
De estar em nós.

Podem transformar tudo.

Podem substituir tudo.

Podem restaurar paredes,
Trocar portas,
Acender novos lustres.

Podem devolver brilho,
À madeira envelhecida,
Um silêncio novo,
Às salas antigas.

Podem até apagar,
As marcas dos passos,
De quem por cá passou.

Mas não podem devolver,
Os passos.

Podem até mesmo,
Dar outro nome às salas,
Mas não mudar o nome,
De quem por cá passou.

Podemos até chamar Luxo,
Ao que um dia foi memória.

Podemos restaurar o lugar.

Podemos mudar-lhe o rosto.

Podemos até convencer os olhos,
De que nada aconteceu aqui.

Mas nunca…
Nunca convenceremos a memória.

Porque há memórias,
Que não pertencem aos lugares.

Pertencem a quem os viveu.

E algumas delas,
Nem a morte,
Conseguiu levar.



Diogo Cosmo ∞
Palácio dos Arcos, Paço de Arcos
22:30 03-09-2026


DIOGO Cosmo ♾


 
Autor
DiogoCosmo∞
 
Texto
Data
Leituras
11
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
0 pontos
0
0
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Links patrocinados