Poemas : 

Muito ao Mar, pouco à Terra

 
Muito ao Mar, pouco à Terra
 
 
Deixei o meu corpo à margem de um rio.

Fiquei olhando de longe, esperando que viesses.
E chorei quando percebi que não vinhas.

Vinham todos.

Levavam um pedaço de mim
e deixavam, em troca,
pedaços deles.

Mas tu,
tu não vinhas.

Tu, que eu queria.
Tu, que eu amava.

Tu nunca vinhas.


Então comecei a desconfiar do tempo.

Talvez o meu relógio estivesse quebrado.
Talvez um dia, para mim, fosse uma eternidade.
Talvez a espera tivesse deformado todas as coisas.

Depois comecei a achar que a dor no peito era grande demais para caber dentro de um corpo.

E, por fim, comecei a não achar coisa alguma.

A vida foi se esvaindo devagar, como água por entre os dedos, e os meus sentidos foram embora com ela.

Até que, de repente, o mar invadiu o rio.

Sem pedir licença, tomou conta de tudo e me puxou para dentro.

Eu ainda tinha lágrimas nos olhos, mas elas já não eram só minhas.

Eram um oceano inteiro.

Senti o mar entrar em mim e arrancar, uma a uma, as roupas que tu deixavas sobre o meu corpo para esconder aquilo que te despertava desejo.

E, pela primeira vez, não me senti despida.

Senti-me coberta.

O mar me envolveu com um afeto que tu sempre te negaste a me dar.

Deixou que eu existisse inteira, sem precisar ser desejada para merecer ser tocada.

Então eu senti o mar.

E entendi.

Tu eras terra demais.

Ou talvez vento demais.

Estavas sempre perto o suficiente para eu te sentir, mas nunca perto o bastante para ficar.

Talvez um dia — quem sabe — eu volte às margens daquele rio.

Talvez eu ainda me sente ali e olhe para o horizonte.

Mas não para te esperar.

Agora eu fico aqui.

Com o oceano inteiro dentro de mim.

E, pela primeira vez, não preciso que venhas.


Sta. Rochaaa.

 
Autor
rebecarocha
 
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