
Deixei o meu corpo à margem de um rio.
Fiquei olhando de longe, esperando que viesses.
E chorei quando percebi que não vinhas.
Vinham todos.
Levavam um pedaço de mim
e deixavam, em troca,
pedaços deles.
Mas tu,
tu não vinhas.
Tu, que eu queria.
Tu, que eu amava.
Tu nunca vinhas.
Então comecei a desconfiar do tempo.
Talvez o meu relógio estivesse quebrado.
Talvez um dia, para mim, fosse uma eternidade.
Talvez a espera tivesse deformado todas as coisas.
Depois comecei a achar que a dor no peito era grande demais para caber dentro de um corpo.
E, por fim, comecei a não achar coisa alguma.
A vida foi se esvaindo devagar, como água por entre os dedos, e os meus sentidos foram embora com ela.
Até que, de repente, o mar invadiu o rio.
Sem pedir licença, tomou conta de tudo e me puxou para dentro.
Eu ainda tinha lágrimas nos olhos, mas elas já não eram só minhas.
Eram um oceano inteiro.
Senti o mar entrar em mim e arrancar, uma a uma, as roupas que tu deixavas sobre o meu corpo para esconder aquilo que te despertava desejo.
E, pela primeira vez, não me senti despida.
Senti-me coberta.
O mar me envolveu com um afeto que tu sempre te negaste a me dar.
Deixou que eu existisse inteira, sem precisar ser desejada para merecer ser tocada.
Então eu senti o mar.
E entendi.
Tu eras terra demais.
Ou talvez vento demais.
Estavas sempre perto o suficiente para eu te sentir, mas nunca perto o bastante para ficar.
Talvez um dia — quem sabe — eu volte às margens daquele rio.
Talvez eu ainda me sente ali e olhe para o horizonte.
Mas não para te esperar.
Agora eu fico aqui.
Com o oceano inteiro dentro de mim.
E, pela primeira vez, não preciso que venhas.
Sta. Rochaaa.