Poemas : 

Autómato Paradoxal

 


Criei-te assim, com as qualidades de que precisava num homem:

meu amor, meu bardo, meu poeta, meu trovador de canções feitas só para mim.

Rio, claro.

Amei-te sem que fosses nada daquilo que eu queria. Daquilo de que precisava, desesperadamente.

Porque sim. E só.

Porque eras mesmo uma coisa qualquer, menos aquilo que eu precisava e desejava.

Talvez fosse isso: eu gostava de comer o que não me fazia bem. E, ainda que não conseguisse digerir a tua falta, comia.

Éramos como peças de Tetris que, emocionalmente, não se encaixavam.

Eu era assim: muito sensível.
Tu eras assim: muito intangível.

E, ainda assim, amava-te.

Ainda assim, porque sim. Sei lá eu o motivo.

Não era afeto fálico. Não era só isso.

Havia outras opções por aí. Aos montes, inclusive.

Mas eu não queria.

Queria aquela coisa ali, que era só tua e que tinha idade suficiente para ter passado por tantas casas.

Enfim. Queria aquela coisa.

Era grudada a ti. Ao teu corpo. Vinha da tua mente, crescia das tuas emoções.

Queria-te.

Porque sei lá.

Talvez por causa dos teus bichos.
Por causa dos teus sentimentos reprimidos.
Por causa de ti.

Do teu jeito estranho e, ao mesmo tempo, tão único. Daquele jeito que só tu tens.

Da maneira única como consegues foder com a minha mente e com aquilo que trago entre as coxas.

E talvez fosse isso que eu amava:

a coisa que não eras, mas que eu tinha inventado em ti.

O homem que criei para poder amar.

O autómato imaginário.

E tu, coitado, eras só tu.


Sta. Rochaaa.

 
Autor
rebecarocha
 
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