Sentar-se olhando o mar é, uma forma de olhamos o horizonte não para ver onde a água termina, mas para tentar encontrar o lugar onde começam as coisas que perdemos. O oceano é este espelho líquido da nossa própria falta: imenso, fundo, e feito de uma água tão salgada como as lágrimas que teimamos em conter.
Dizem que a saudade é um sentimento exclusivamente nosso, moldado à beira das praias de onde outrora partiram as caravelas. Mas a verdade é que a saudade é, ela própria, um mar. Há dias em que é maré baixa, uma melancolia suave que apenas nos molha os pés e nos faz suspirar por um tempo passado.
Noutros dias, porém, ela vem como maré viva, uma onda gigante que rebenta no peito, que nos tira o chão e nos submerge na memória de um rosto, de uma voz ou de um abraço que o tempo levou para a outra margem.
O mar pode separar corpos, mas é também uma estrada que os pode voltar a unir. Por isso, enquanto a praia continuar vazia e a distância persistir, restará sempre ao coração o mesmo fado: olhar a espuma branca das ondas e aprender a flutuar na imensidão do que ficou por dizer. Porque ter saudade é isto: é ter um oceano inteiro a bater dentro de nós e, ainda assim, encontrar beleza no sal que nos ficou na pele.
Escrito a 4/10/26