Há no ar que respiro esta vertigem
que me enche e extravasa-me do peito
contemplo o avesso de tudo o que sinto
e descubro que a paixão não é um destino
mas um espelho nítido onde me perco
para depois, inteira, voltar a encontrar-me.
Tu és a memória de um entardecer longínquo
a inquietação nas minhas mãos despidas
e o desassossego em que habita
todos os nossos silêncios.
Sou o eco, a busca e a própria dádiva
um tempo onde o amor pulsa sem amarras
e onde o meu próprio ser se sente abençoado
Não há pressa no modo como me habitas
apenas uma claridade que rasga o nevoeiro
e me devolve à nudez dos meus dias
olho para dentro e vejo-me sublime
como se a tua presença em mim
fosse o rastilho para que eu enfim
me pudesse escutar.
Escrito a 3/11/26