Prosas Poéticas : 

O choro do cosmos

 
Há manhãs em que a neblina não está na rua, está na forma como acordamos. Abro os olhos e sinto esse manto denso, cinzento e silencioso que se deita sobre os meus ombros sem pedir licença. As nuvens cobrem-me como a saudade, essa presença invisível que, de tão pesada, quase se torna tátil, ocupando todos os cantos do meu peito.

Olho para o céu e percebo que a natureza tem uma forma muito bonita, quase terapêutica, de nos explicar o que nos vai cá dentro. Há uma semelhança profunda, uma espécie de cumplicidade silenciosa, entre as nuvens e a saudade. Ambos são estados cíclicos de transição, mudam a cor dos nossos dias e alteram a paisagem da nossa alma.

Sentir saudades é viver sob um céu que teima em não se abrir. É o eco de uma gargalhada que já não aflora aos meus ouvidos, o perfume de um abraço que no tempo ficou, ou simplesmente a falta daquela versão de mim que existia quando ouvia a tua voz. A saudade tem essa capacidade exata das nuvens: tolde-nos a visão, faz o horizonte parecer mais curto e transforma o dia mais luminoso numa tarde de outono sombria.

Tanto as nuvens como a saudade carregam em si a promessa da transformação. A nuvem não quer tapar o sol para sempre, ela precisa de existir para que a chuva caia, limpe o ar e fertilize a terra. A saudade também é assim, não nasce para nos destruir, mas para nos lembrar do tamanho do nosso amor, o lado invisível de um laço que nunca se quebrou. Só tem saudades quem viveu algo que valeu a pena, então sento-me com ela, deixo-a falar e recordo as sensações lindas que vivi, e lembro-me que a névoa pode tapar o azul do céu por algum tempo, mas nunca, em momento algum, tem o poder de o apagar.


Escrito a 10/10/26
 
Autor
Liliana Jardim
 
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