Há um país inteiro espremido dentro do peito,
e nós, com essa mania miserável de ter razão,
insistimos em dividi-lo ao meio,
como se fosse possível arrancar uma parte de nós
sem deixar o restante mancando.
Aprendemos cedo a escolher inimigos,
a vestir nossas certezas como armaduras
e a chamar de justiça a dor que nos favorece.
Cada um ergue sua verdade até o teto
e depois se espanta
quando já não consegue enxergar o vizinho.
Do lado de cá, ainda acredito
que uma palavra precisa valer alguma coisa,
que o trabalho não deveria ser uma sentença,
que o esforço de quem levanta antes do sol
não pode valer menos
que a promessa de quem aprendeu a discursar.
Acredito na liberdade sem coleira,
na responsabilidade sem espetáculo,
na dignidade de quem constrói a própria vida
sem precisar pisar na vida de ninguém.
Do lado de lá, há quem carregue outras urgências,
quem olhe para as mesmas ruas
e enxergue feridas que eu não conheço por inteiro.
Há mãos que se estendem para alcançar os esquecidos,
há esperanças que não cabem no meu bolso,
há desejos de justiça que, por vezes,
se perdem no peso das próprias promessas.
E há também o medo,
porque até as melhores intenções
podem tropeçar quando deixam de ouvir
aqueles que pretendiam ajudar.
Não preciso abandonar minhas convicções
para admitir que o mundo é maior que elas.
Não preciso vestir outra camisa
para reconhecer um ser humano dentro dela.
Eu continuo do meu lado.
Não por acreditar que nunca erro,
mas porque aprendi a desconfiar
de qualquer verdade que exija de mim
a humilhação de pensar.
Ainda acredito que a liberdade
não deveria depender da aprovação da maioria,
que o dever não pode ser terceirizado,
que nenhuma bandeira merece ser erguida
tão alto a ponto de esconder o país
que deveria representar.
Mas eu vi o outro lado correr.
Vi gente insistir quando a distância parecia impossível,
vi o fôlego resistir ao cansaço,
vi a chegada acontecer
onde muitos já haviam decretado a derrota.
E, por um instante, deixei de olhar
para a cor da camisa
e prestei atenção no movimento.
Correu.
Alcançou.
Chegou onde disseram que não chegaria.
E eu, que não compartilho todos os seus sonhos,
reconheci a força de não ter desistido.
Porque existe uma diferença
entre concordar com uma conquista
e reconhecer o esforço que a tornou possível.
Aplaudir alguém não significa entregar-lhe a razão,
assim como discordar
não me dá o direito de desejar sua ruína.
O problema deste país
é que transformamos qualquer vitória alheia
numa ofensa pessoal.
Se o outro avança, desconfiamos.
Se o outro conquista, procuramos defeitos.
Se o outro sorri, perguntamos quem está pagando a conta.
Parece que a felicidade perdeu o direito de ser simples
e passou a exigir uma justificativa ideológica.
Já não basta viver.
É preciso provar que se vive do lado certo.
E, enquanto discutimos quem merece o chão,
o chão continua rachando debaixo dos nossos pés.
A gente se acostumou a rasgar o outro
com a facilidade de quem amassa um papel
e o joga fora sem sequer ler.
Esquecemos que aquele papel também desenhava
as ruas pelas quais caminhávamos,
os lugares onde crescemos,
as casas onde alguém ainda espera
que a vida melhore um pouco.
Agora temos mapas diferentes,
heróis diferentes,
culpados diferentes,
e uma estranha incapacidade
de reconhecer a mesma paisagem.
O Brasil continua aqui,
mas parece que ninguém mais sabe
como chegar até ele.
E há dor deste lado também.
Há quem trabalhe até o corpo pedir descanso
e sinta que ninguém percebe.
Há quem tenha aprendido a economizar os sonhos
porque o dinheiro nunca chega inteiro ao fim do mês.
Há quem tenha apostado no próprio esforço
e se ressentido ao ouvir
que sua luta não vale tanto quanto deveria.
Há gente que não quer dominar ninguém,
não quer assistir à queda de ninguém,
não quer transformar o vizinho em adversário.
Quer apenas trabalhar, respirar,
cuidar dos seus e envelhecer
sem descobrir que passou a vida inteira
lutando por uma tranquilidade que nunca chegou.
E há dor do outro lado também,
ainda que eu nem sempre compreenda
o nome que dão a ela.
Talvez seja esse o nosso maior fracasso:
não a existência de diferenças,
mas a necessidade de decidir
qual sofrimento merece ser ouvido primeiro.
Como se a miséria de um diminuísse a de outro.
Como se a dificuldade de alguém
fosse uma afronta à dificuldade alheia.
Como se reconhecer a dor de um brasileiro
fosse uma forma de trair outro brasileiro.
Não é.
Um país não se torna justo
quando escolhe quem pode sofrer.
Torna-se menor
quando precisa negar a dor de alguém
para justificar a própria.
Por isso, que façam alguma coisa agora.
Não amanhã, quando a poeira baixar,
não depois do próximo discurso,
não quando o adversário finalmente se calar.
Agora, enquanto ainda há tempo
de transformar promessas em alguma coisa concreta,
de devolver ao trabalho a sua dignidade,
de fazer a liberdade valer para além dos cartazes
e de lembrar que governar não é vencer uma discussão,
mas responder pela vida de milhões de pessoas.
Que a conquista não embriague quem chegou,
que a vitória não se transforme em licença
para tratar o derrotado como um intruso.
Que ninguém confunda aplauso com submissão
nem silêncio com consentimento.
E que o lado que hoje celebra
não esqueça que amanhã também poderá precisar
da compreensão que agora talvez lhe falte.
Porque o poder muda de mãos.
As circunstâncias mudam de rosto.
O tempo desmonta certezas
que ontem pareciam construídas em pedra.
E o país continua sendo o mesmo lugar
onde todos teremos de acordar na manhã seguinte.
Eu não quero precisar esconder minhas convicções
para continuar chamando este lugar de meu.
Não quero que a discordância me obrigue
a tratar como inimigo quem divide comigo
a mesma rua, o mesmo ônibus,
a mesma fila, o mesmo medo de faltar dinheiro
antes que o mês termine.
Não quero uma paz comprada pela obrigação de concordar.
Quero a possibilidade de discordar
sem precisar desejar o desaparecimento de ninguém.
Porque democracia nenhuma deveria exigir
que um homem traísse a própria consciência
para reconhecer a humanidade do outro.
Aplaudir não é render-se.
Às vezes, é apenas admitir
que a realidade não nos deve obediência,
que nem toda conquista alheia é uma derrota nossa
e que a vida não cabe inteira
na moldura estreita das nossas certezas.
Hoje, eu bato palmas.
Não porque tenha deixado de acreditar
naquilo que me trouxe até aqui,
nem porque tenha encontrado no outro lado
todas as respostas que procuro.
Bato palmas porque vi alguém avançar
e não quero ser o tipo de homem
que precisa torcer pela queda de outro
para continuar de pé.
Há uma diferença enorme
entre permanecer fiel ao que se pensa
e transformar o próprio pensamento
numa prisão sem janelas.
Eu fico do meu lado, sim.
Mas não preciso fechar os olhos
para reconhecer o que acontece do outro.
E, se o Brasil ainda tem alguma chance,
talvez ela comece nesse gesto pequeno,
quase ridículo diante do tamanho dos nossos problemas:
alguém vencer sem precisar humilhar,
alguém perder sem precisar odiar,
alguém discordar sem transformar a diferença
numa sentença de morte para o diálogo.
O espelho continua diante de nós.
Não escolhe partido,
não levanta bandeira,
não pergunta em quem votamos
antes de devolver o nosso rosto.
E talvez seja isso que tanto nos incomoda:
diante dele, as desculpas perdem o brilho,
os discursos não escondem todas as rachaduras
e o inimigo que inventamos para explicar o mundo
não consegue ocupar o lugar
da responsabilidade que é nossa.
O Brasil não precisa que todos pensem igual.
Precisa que ninguém se considere tão certo
a ponto de esquecer que o outro também existe.
Precisa de mãos que construam
mais do que dedos apontados.
De gente disposta a fazer
mais do que comemorar a própria razão.
De homens e mulheres que entendam, finalmente,
que uma bandeira pode representar uma ideia,
mas não tem o direito de cobrir o rosto de um povo.
Eu continuo do meu lado.
Com minhas dúvidas, minhas convicções,
meus desacordos e tudo aquilo
que ainda não aprendi a compreender.
Mas, quando vejo alguém correr,
lutar e alcançar o que parecia distante,
não preciso perguntar primeiro
se essa pessoa pensa como eu.
Às vezes, basta reconhecer o esforço
e esperar que a conquista produza alguma coisa
que não termine no orgulho de quem venceu.
Porque, no fim,
não é suficiente chegar à frente
se, para isso, destruímos a estrada.
Não basta conquistar o amanhã
se deixamos o presente em ruínas.
E não há vitória que dure para sempre
quando o preço de celebrá-la
é condenar metade do país ao silêncio.
Que cada lado preserve suas ideias,
que cada pessoa defenda aquilo em que acredita,
mas que ninguém se esqueça,
no calor das disputas e na embriaguez das vitórias,
de que existe um país do lado de fora
das nossas certezas.
Um país de gente que trabalha,
que espera, que erra, que recomeça,
que enterra os seus mortos,
que alimenta os seus filhos
e que, apesar de tudo,
ainda procura um motivo para acreditar.
É por esse país que eu bato palmas.
Não por uma camisa.
Não por uma legenda.
Não pela ilusão de que um lado, sozinho,
possa carregar nas costas o destino de todos.
Bato palmas pelo esforço que merece ser reconhecido,
pela esperança que ainda não desistiu
e pela possibilidade, por menor que pareça,
de que a próxima vitória não precise
da derrota humana de ninguém.
Porque a dor de um brasileiro
não deveria servir de troféu a outro.
E, se ainda formos capazes de compreender isso,
talvez um dia possamos nos olhar no espelho
sem procurar no rosto refletido
um adversário para culpar.
Talvez consigamos, enfim,
deixar de disputar quem tem o direito de chamar
este país de seu
e começar a fazer alguma coisa
para que ele mereça pertencer a todos.
Sem exigir que sejamos iguais.
Sem fingir que pensamos da mesma maneira.
Sem transformar a diferença em inimizade.
Apenas entendendo que,
antes de qualquer lado,
existe um país.
E, antes de qualquer vitória,
existem pessoas.
Que o Brasil sobreviva às nossas certezas
e que, um dia,
a nossa humanidade seja maior
do que a nossa necessidade de vencer.