Poemas : 

O Fracasso de Valentim

 
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Não sei exatamente em que dia comecei a morrer.

Há quem diga que foi quando ela foi embora,
há quem aposte nas drogas,
há quem culpe o álcool,
há quem aponte para os cigarros que acendo como quem acende pequenas fogueiras dentro do peito.

Todos estão errados.

Acho que comecei a morrer no dia em que perdi o Leandro.

Engraçado...

A palavra "melhor amigo" é pequena demais.

Melhor amigo é quem paga uma cerveja,
quem aparece no aniversário,
quem conhece sua mãe pelo nome,
quem sabe a senha do seu celular.

ele era outra coisa.

Ele conhecia o meu silêncio.

Existe uma intimidade maior do que conhecer o sorriso de alguém:
é conhecer o momento em que ele para de fingir.

Nós fomos irmãos de mães diferentes.

Dividimos cigarros como quem dividia promessas.

Dividimos garrafas como quem dividia o próprio sangue.

Dividimos drogas,
mulheres,
filmes ruins,
músicas eternas,
planos impossíveis,
e aquela certeza arrogante que só os jovens possuem:
a de que a morte sempre escolhe outro endereço.

Escolheu o dele.

Desde então descobri que o luto não acontece no enterro.

O luto acontece quando você encontra uma piada que só ele entenderia.

Quando escuta uma música e automaticamente procura alguém que não está mais ao seu lado.

Quando compra duas cervejas por costume
e lembra que agora só existe uma garganta para beber.

As pessoas dizem que o tempo cura.

Mentem com uma tranquilidade admirável.

O tempo não cura.

Ele apenas ensina a sangrar sem fazer barulho.

...

Depois perdi outras coisas.

Algumas tinham nome.

Outras não.

Perdi uma mulher.

E talvez a pior parte de perder alguém
não seja vê-la partir.

É continuar encontrando-a em lugares onde ela nunca mais esteve.

Existe uma rua.

Existe uma música.

Existe uma madrugada.

Existe um perfume qualquer atravessando a calçada.

E de repente meu coração corre para abraçar uma memória,
enquanto meu corpo continua parado.

Ela talvez não lembre do meu aniversário.

Mas eu lembro do dela.

A memória é injusta.

Ela escolhe permanecer justamente onde deveria ir embora.

E eu permaneço preso nela
como um relógio quebrado que insiste em marcar uma hora que nunca mais voltará.

...

Também perdi uma cachorrinha.

Alguns vão rir disso.

Porque existem pessoas que nunca entenderam
que certos animais ocupam lugares que muitos humanos jamais conseguiram ocupar.

Vivi.

Só esse nome já parece um verbo.

Talvez ela ainda reconhecesse meu cheiro.

Talvez não.

Os cães são melhores do que nós.

Eles não guardam orgulho.

Guardam amor.

Quem sabe ela ainda espere.

Quem sabe eu seja o único que continua esperando.

...

Moro sozinho.

O silêncio da minha casa faz mais barulho do que a cidade inteira.

À noite escuto a geladeira respirar.

Escuto o relógio caminhar.

Escuto meu coração tropeçar em lembranças.

Às vezes acendo um cigarro só para assistir alguma coisa desaparecer lentamente além de mim.

Cada tragada parece um calendário.

Fumo porque a fumaça é a única coisa que ainda sobe
quando todo o resto dentro de mim só desaba.

Bebo.

Não porque a bebida me faça feliz.

Mas porque durante alguns minutos
ela convence minha tristeza a falar mais baixo.

Depois ela vai embora.

E leva embora a coragem que havia emprestado.

As drogas...

As drogas nunca me abraçaram.

Elas apenas vestiram minhas dores com roupas bonitas.

Quando o efeito acaba,
a dor volta nua.

E eu continuo aqui.

Mais velho.

Mais cansado.

Mais vazio.

...

Tenho medo dos espelhos.

Eles conhecem um homem que eu ainda não tive coragem de conhecer.

Olho para meu reflexo
e vejo alguém que sonhava em ser escritor.

Engraçado.

Ainda sonho.

Talvez porque sonhar seja o último vício que não consegui abandonar.

Quero escrever livros.

Não livros para vender.

Livros para sobreviver.

Quero que alguém leia uma página minha
e pense:

"Quem escreveu isso estava sangrando."

Porque estava.

Escrevo para não enlouquecer completamente.

Cada frase é um tijolo tentando impedir que o teto da minha alma desabe.

...

E existe Maria.

Minha mãe.

Minha rainha.

Se eu fosse religioso,
diria que Deus mora nela.

Nunca apoiou meus erros.

Nunca disse que eu estava certo quando estava errado.

Nunca colocou fogo nos meus vícios.

Fez algo muito mais difícil:

continuou me amando.

Imagino seus joelhos cansados tocando o chão.

Imagino suas orações atravessando a madrugada.

Talvez ela peça para Deus aquilo que eu nunca consegui pedir por mim mesmo:

"Protege meu filho."

Ela não sabe,
mas talvez eu ainda esteja vivo
porque uma mãe cansada conversa diariamente com o céu.

...

Completei trinta anos.

Trinta.

Que palavra pesada.

Quando eu era criança,
achava que aos trinta teria uma casa cheia.

Uma mulher.

Filhos.

Um cachorro dormindo na sala.

Livros publicados.

Hoje tenho cinzeiros.

Silêncio.

Lembranças.

E um celular que talvez permaneça quieto.

Existe uma dor curiosa em esperar uma mensagem.

A cada vibração imaginária,
o coração corre para a porta
como um cachorro que acredita que o dono voltou.

Depois percebe que era apenas o vento.

...

Mas ainda não desisti.

Não porque eu seja forte.

Na verdade,
acho que fui covarde muitas vezes.

Só que existe uma mulher chamada Maria.

Existiu um homem chamado Leandro.

Existiu uma cachorrinha chamada Vivi.

Existiu um amor que ainda mora em mim.

E existe um menino escondido dentro deste corpo de quase trinta anos
que ainda acredita que algum dia alguém abrirá a porta,
sentará ao meu lado,
acenderá um cigarro sem dizer nada,
e fará aquilo que o mundo inteiro esqueceu de fazer:

ficar.

Se esse dia nunca chegar,
continuarei escrevendo.

Porque talvez eu não tenha aprendido a viver.

Mas aprendi uma coisa:

há dores que só encontram saída quando viram palavras.

E enquanto houver uma palavra dentro de mim,

eu ainda não terminei.



“O tempo é um espelho sujo.
Mas quem tem coragem de se olhar nele, enxerga a alma.”
- Kaique Nascimento


 
Autor
KaiiqueNascimentto
 
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