Poemas : 

Mecânica do abandono

 


Haverá
talvez
um avesso
depois da boca.


Não um nome. Nem a sua cinza.


Apenas o rumor de qualquer coisa
que continuou a cair
quando a queda já não tinha onde acontecer.


Os mortos conhecem pequenos mecanismos do escuro.
Engrenagens de pó. Corredores sem espécie.
Ferragens antigas
trabalhando dentro da ausência.


E nós
distraídos pelo sangue
chamamos vida
ao intervalo entre dois esquecimentos.


Mas às vezes uma vibração atravessa a matéria.
Não vem de fora. Não vem de ninguém.
É o resto dos passos que perderam o corpo
e continuam.


Como se o silêncio procurasse ainda
uma forma de ruído.






 
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idália
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