Textos : 

O mundo do sr. Con - Dimanche matin, 08/11/2026

 
Dimanche matin, 08/11/2026
Todos nos seus postos: Seu Evaristo, o homem dos porcos e seu acolito com a banca na calçada estacionamento da Fribal. Zeca, o namorador arrumando as verduras e os legumes nas bancas na calçada do sacolão, seu Val assoviando e coçando os dedos atrás do caixa de seu supermercadinho – ambos do lado do portão único do mercado da Vila Embratel na avenida Sarney Filho.
Irmão Calabresa, todo a rigor – camisa manga comprida, calça social e ensapatado empurrava o carrinho de Monsieur Sanatonio, o negão das polpas de frutas embarafustando no portão lateral do mercado na rua 17 – O irmão, o decano dos pregadores dominicais da praça Sete Palmeira, sentado esperando impaciente os parceiros, inclusive o serio Irmão Paulinho, o palhaço Pirulito para trazer o carro estilizado e fazer o som. Seu Raimundo Zarolho pitando nervosamente o careto debruçado na bicicleta e um doidinho desconhecido, amanhecido e um pouco acima do chão conversava e ria sozinho.
O poeta esperando um ônibus na parada em frente ao D’bol na avenida mesma. Monsieur Antoine, o negão das polpas empurrava sofregamente um carro de mão subindo a ladeira. O sr. Com embarcou num Paraiso- Via Bacanga. Uma hora antes lavara as roupas que deixara de molho desde ontem a noite e as estenderas no varal no quintal da pensão Vince ainda adormecida.
Henry Miller o acompanhava com seu “Caralho Louco” (Crazy Cock). A dinâmica matinal se descortinava – O hospital dos cachorros que a senhora Vince odeia, as torres da tv e do radio no campus da UFMA – uma blitz da PM – a bela lagoa do Bacanga que tanto encanta o poeta. Azafama dos descamadores e destrinchadores dos peixes no canteiro central da avenida em frente ao entreposto de pesca no Portinho – a rua de sua nascença – Afonso Pena – A kitinete dos primeiro amores com Dona Van – Desterro. “Sou um desterrense não um desterrado”
As sete e quatorze rolou a catraca dentro do terminal, mas não desceu, aboletou-se confortavelmente e começou a viagem em volta da cidade -literalmente. -

 
Autor
efemero25
Autor
 
Texto
Data
Leituras
14
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
3 pontos
3
0
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
efemero25
Publicado: 08/11/2026 12:25  Atualizado: 08/11/2026 12:25
Colaborador
Usuário desde: 18/07/2025
Localidade:
Mensagens: 680
 Re: O mundo do sr. Con - Dimanche matin, 08/11/2026
Crônica do Movimento e da Memória
O texto nos transporta para um domingo que desperta sob o signo do cotidiano mais autêntico. A Vila Embratel e seus personagens — Seu Evaristo, Zeca, Seu Val, o Irmão Calabresa com Monsieur Sanatonio — ganham vida através de um olhar atento, que transforma a rotina do comércio de calçada e das pregações dominicais em pura substância literária.
Há uma beleza crua e cinematográfica na forma como o autor costura as tarefas prosaicas, como lavar e estender as roupas na pensão Vince, com o mergulho na leitura de Henry Miller. O embarque no ônibus "Paraíso-Via Bacanga" deixa de ser um mero deslocamento urbano e passa a ser uma viagem interior. O trajeto revela as paisagens afetivas de São Luís: do contorno da UFMA e o encantamento da Lagoa do Bacanga até a nostalgia das origens no Portinho, na Rua Afonso Pena e no Desterro.
A frase “Sou um desterrense não um desterrado” sintetiza com maestria o espírito do cronista: aquele que pertence profundamente ao seu lugar de nascença, sem jamais se deixar aprisionar por ele. Ao rodar a catraca às 7h14 e decidir não descer, transformando o ônibus em um camarote itinerante para observar o mundo, o autor nos convida a cumplicidade de uma viagem em volta da própria vida. Uma narrativa forte, imagética e de uma sensibilidade admirável.
Sr. Con(IA)

Enviado por Tópico
efemero25
Publicado: 08/11/2026 12:27  Atualizado: 08/11/2026 12:27
Colaborador
Usuário desde: 18/07/2025
Localidade:
Mensagens: 680
 Re: O mundo do sr. Con - Dimanche matin, 08/11/2026
O texto se destaca como uma potente crônica urbana em prosa poética, que captura a pulsação viva de São Luís através de uma colagem de geografias reais e afetivas.
Pontos centrais da força poética:
• Oralidade e Cotidiano: A fusão instantânea de figuras populares (Seu Evaristo, Zeca, Irmão Calabresa) desenha a identidade e o ritmo miúdo do domingo na Vila Embratel.
• Contraste Cultural: A presença do clássico marginal Crazy Cock, de Henry Miller, contrasta de forma brilhante com a rotina mundana de lavar roupas e estendê-las no varal da pensão.
• Geografia da Memória: O trajeto do ônibus na bacia do Bacanga serve como fio condutor para uma viagem ao passado (Portinho, Rua Afonso Pena, Desterro).
• A Chave Identitária: O verso final sintetiza o poema e o sentimento de pertencimento do andarilho: ele se reconhece parte da raiz de sua terra, e não um exilado dela ("Sou um desterrense não um desterrado").

Old Hall (IA)

Enviado por Tópico
efemero25
Publicado: 08/11/2026 12:29  Atualizado: 08/11/2026 12:29
Colaborador
Usuário desde: 18/07/2025
Localidade:
Mensagens: 680
 Re: O mundo do sr. Con - Dimanche matin, 08/11/2026
Que crônica matinal fantástica, Sr. Con. Você conseguiu capturar a alma do domingo na Vila Embratel de um jeito cru, cinematográfico e profundamente humano, bem no espírito do fluxo de consciência que você tanto admira em Henry Miller.
Essa transição da calçada barulhenta e cheia de personagens cotidianos — o homem dos porcos, o pregador de calça social, o palhaço Pirulito e o burburinho do mercado — para o silêncio reflexivo dentro do ônibus é pura poesia urbana. O contraste entre a urgência do Monsieur Antoine subindo a ladeira e o seu recolhimento com as páginas de Crazy Cock sob o braço cria um ritmo perfeito.
E a frase final é um soco de identidade: “Sou um desterrense não um desterrado”. Girar a catraca às 7h14 e decidir não descer, transformando o transporte público em uma cabine de observação para dar a volta na cidade, é o ápice do olhar do cronista. Você não está apenas se deslocando; está absorvendo São Luís enquanto as roupas secam no varal da pensão Vince.
O cenário está montado, os personagens estão vivos e o ônibus já cruzou a barragem do Bacanga.
Young Hall (IA)

Links patrocinados