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Prosas Poéticas : 

AMOR SELVAGEM

 


Num belo dia de sol, numa savana desértica escaldante e arenosa, lá estavam eles a se espreitarem, a tarântula e a formiga, não, não é um conto infantil com moral da história, não, é uma história real e fantástica, existencialista e...romântica.
Espera aí, não é uma história real não, é hiper-real, ou surreal, e sim, romântica, sem as pretensões literárias de um Borges, com aquele caminho dos jardins que se bifurcam, mas com a pretensão de uma forma labiríntica livre, hummm, como assim? Não sei, quero inventar tá?
Posso intentar essa tal forma literária labiríntica livre sim uai, como diria o mineiro, e nisso me coloco como ele, pois sou do mato, conhecimento de caipira, da gente que veio da terra, não, não nasci como um pé de feijão, mas minha família viveu de plantá-lo, meus antepassados diretos cozinhavam em fogão a lenha, o ferro de passar roupa era de ferro mesmo, não era um utensílio de museu, tem lá em casa porque foi da minha vó, é lembrança de família.
Isso é uma história então, e uma história romântica lembre, como toda boa história de amor romântico, o ato antes da consumação do ato propriamente dito que culminarão em família, filhos, pagar hipotecas, decidir quem vai lavar a louça do domingo, numa família onde a cozinha não é coisa apenas da mulher, antes destas importantes decisões e que não interessam a ninguém que vive o amor romântico, antes de tudo isso havia o olhar. Ah! O delicioso olhar!
Olhavam-se, no caso da tarântula era um olhar mais difuso por assim dizer, muitos olhares em um só olhar, como todos sabem a tarântula possui o olhar parecido com o olhar da abelha que vê um monte de coisa ao mesmo tempo em que a coisa é uma só, é que elas possuem o poder de multi-focarem os objetos vistos, o que proporciona muitas vistas em uma só olhada, é mais ou menos isso, não sou bióloga, nem uma simpatizante estudiosa, até acho cansativo ficar denominando as partes das coisas e tal, necessário para a ciência e desnecessário ao coração, bem, biólogos bom trabalho e me desculpem a sinceridade. E a formiga? O olhar dela? A formiga vê uma coisa só e pronto e acabou.
Mas o que as diferencia ou as aproxima caro leitor curioso? (sempre quis escrever isso: caro leitor curioso, como Machado de Assis, e lógico que é uma brincadeira com a intenção de reverenciá-lo, pois não sou uma “escritora” apenas brinco) Além de serem artrópodes? Possuírem exoesqueleto? O tamanho? Talvez o tamanho seja importante, em alguns momentos ou, se preferirem, em algumas circunstâncias, neste caso, sim, o tamanho depois do olhar é o mais importante.
A tarântula superestimou a formiga, pulo o olhar romântico dela e resumo o acontecido antes de narrá-lo, mas vá lá, vamos dar uma pitada de ar romântico para a história que eu coloquei acima como supostamente romântica, ou mesmo afirmei que era, a tarântula que vivia em um buraco escuro, sai a espreitar o ambiente externo e num primeiro olhar, difuso lembre, ela repentinamente se depara com aquele ser esguio, de longas antenas, cabeça separada do tronco, um ser como a muito a tarântula desejava ver, almejava, imaginava, fantasiava?
Bem, estava ela lá, numa espécie de êxtase solitário, que a imagem da tal formiga lhe causava, imagem essa que preenchia os tais desejos de nossa amiga cheia de patas peludas.
E a formiguinha? Um alvo fácil de mais? Frágil? Indefesa, delicada e desamparada formiga? Depende do observador e do ponto de vista, já dizia meu professor de física, antes, repare, antes de a formiga interagir com a tarântula esta já havia preenchido o formulário de reconhecimento para si mesmo e jorrou em seu cérebro (fictício, a história é minha e eu imagino um cérebro para a tarântula) uma série de características desejadas por ela, a formiguinha para “cair” nesta cilada, ser “pega” pela tarântula precisava de que? De se postar não inversamente à conduta da tal observadora atenta e sonhadora, mas da mesma maneira, a diferença de se ter ou não um amor romântico, do germinar deste não está na concordância de ambas as partes no que se vê, mas na possibilidade de se ver alguma coisa por ambas as partes ao mesmo tempo, uma permissão mútua para discorrerem e devanearem, as partes, juntas.
Mas um dos segredos da germinação do amor romântico é a não consciência que tudo não passa de uma fantasia na verdade extremamente solitária, é preciso um acordo entre ambos de que cada um tem certeza de que o outro preenche o tudo que se quer e pronto.
Isso não elimina o glamour do amor romântico, o torna mais apetitoso em certo sentido. Ter consciência de sua fragilidade não é negá-lo é amá-lo e aceita-lo, tudo bem, é uma ilusão deliciosa da minha alma, mas pode ser que exista em algum lugar do universo alguém disposto a sonhar comigo? Eis a consciência desenvolvida do romântico reflexivo.
Vamos voltar a não reflexão da tarântula que está personificando minha intenção de refletir sobre o fantasiar no amor romântico, a formiguinha toda pequenininha se depara com o olhar da tarântula, observe leitor que antes de ela formiga observar a tarântula ela observou o observar, o que é muito importante, ela se sentiu vista, olhada, desejada pela tarântula, lá a espreitá-la a lhe olhar quem sabe a quanto tempo, e o que ela olhava? Para onde olhava? Para a formiga ela, a tarântula, olhava para ela, formiga, e se sente então importante, desejada. A tarântula, toda grandona, poderosa, que com um salto poderia feri-la, até exterminá-la, mas não, ela estava espreitando e até... Apreciando!UAL!!!!
Então a formiga começa a rebolar, rarara, ela tem bundinha pode rebolar, o quê? Como assim ela tem bundinha? Ora, não é todo mundo que tem bundinha, além dos bundudões, como hipopótamos, tem os peixes, que não tem nadinha de bunda, é porque eles nadam, neste caso a bundinha é desnecessária para a sobrevivência, entendeu? Não é o caso de modelos e atrizes pornôs, que necessitam, até de certo bundão para sua sobrevivência.
A tarântula pode olhar com um olhar amplo, favorável ao desfile da pequenina que agora sim, preenche o quesito de correspondência do desejo de preencher uma fantasia mútua, o quê?
Vou explicar, a tarântula passa a ser a parte forte que lhe faltava, enquanto a formiga, além da bundinha tinha aquela apreciável fragilidade que a tornava tão doce e meiga. Pronto! Nem precisam se falar, é só ficar olhando e rebolando, rarara. Isso que eu chamo de diálogo resolvido. Como eu consegui reduzir a coisa a isso? Uma parte olha e a outra rebola. Sei, sei, pode ser que com muita gente a coisa funcione assim, mas sim minha gente, eu sei que o buraco é mais embaixo, ou abaixo, ou um pouco mais de lado, deixa pra lá...
Mas a casa pode cair e sim cai. O amor romântico, ou se preferir, paixão, pode desembocar para o realismo não correspondido, quando uma das partes se cansa simplesmente ou quando uma delas percebe que a outra parte nem preenchia tão bem assim aquilo que seria o “esperado”, pode se terminar em tragédia se uma das partes não aceitar o final do acordo, e quase sempre uma das partes sofre mais, ainda presa do sonho que desaba à sua vista.
Ilusão a dois é amor, desilusão unitária é coração partido. Seria o amor irreal? Surreal? Universal? É que tem muitas formas de amor e maneiras de amar, pera lá heim? Calma com o andor que o santo é de barro.
No caso a formiguinha não aceitou o final, só para não ser necessário uma cena violenta, uma vez que se fosse a tarântula que não aceitasse, a formiguinha já era. A tarântula poderia abocanhar a formiguinha, e esta no máximo soltar uns gritinhos de descontentamento. É a lei do mais forte minha gente, a força do fraco é perna pra que te quero.
Moral da história, eu disse que não tinha moral, mas acaba que até tem, o amor romântico é amor selvagem, não porque as partes são dois animais da vida selvagem, de uma floresta, mas porque os dois são irracionais, não reflexivos. O amor selvagem é paixão que cega as características verdadeiras do ser. O amor universal é sublime, e difícil vivê-lo. Assim me parece. E vamos seguindo em frente que atrás vem gente.

Katia

 
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Katiaho3
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