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Poemas, frases e mensagens de JANNUS

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de JANNUS

O VELHO PARTIU

 
Eu não vi o velho senhor nascer, você viu?
Sei que caminhou por estes lugares agrestes em dias tristonhos
Sei que desbravou as matas cerradas em cortes ousados
Sei que não soube esperar...
Eu não vi o velho senhor nascer, você viu?
Sei que procurou novos lugares no mundo vasto
Sei que pescou do rio o que o rio que tinha pra dar
Não caçou ursos,não viu ursos...pois ursos não havia
Eu não vi o velho senhor nascer, você viu?
Sei que entendia antigos idiomas de tribos reclusas
Sei que ouvia os animais como ninguém mais ouve
E ele cantava...o velho senhor cantava como ninguém mais canta...
Ninguém!
Eu não vi o velho senhor nascer,você viu?
Sei que andava pensativo em dias outonais
Sei que apreciava a chuva no telhado barulhento
Sei que aprendeu a viver com pouco...
Não soube dizer pra ninguém os segredos
Não soube expelir de si as mentiras
Não soube nada!
Eu não vi o velho senhor nascer,você viu?
Sei que entendia os mistérios mais que as verdades
Sei que amou em silêncio e odiou com reservas
Sei que desistiu sem suspiros
Sei que resistiu sem justiça
Sei que se foi...
Eu não vi o velho senhor nascer,você viu?
Ninguém ainda vivo deve ter visto...
Sei que não esta na sombra da arvore esta tarde...
Sei que não caminha na orla da mata como antes...
Sei que não voltou...
Eu não vi o velho senhor partir...você viu?
 
O VELHO PARTIU

TEM UM GATO NO MEU QUINTAL

 
Tem um gato no meu quintal!
Miserável vagabundo ousado
Anda por aqui como se fosse rei
Ordinário e metido bichano
Tem um gato no meu quintal!
Nem acredito quando o vejo espreitar entre as roseiras
Olhos amarelos estreitos em fenda
Cauda serpenteando na expectativa do bote...
Do próximo bote!
Tem um gato no meu quintal!
Como pode ser? Eu não entendo...
Temos dois cães aqui em casa
Barulhentos... aguerridos territorialistas...
Como pode o gato estar aqui?
Tem um gato no meu quintal!
Pelo sujo manchado amassado
Não é jovem o felino posso ver
Não é jovem não!
Quando surge o novo dia ele me espia junto a minha cerca
Desconfiado... desafiador...
Tem um gato no meu quintal!
Cretino malvado caçador de pássaros eu sempre penso
Mas...
Mas...
Hoje o vi como nunca antes
Mancando, cansado
Parece enfermo
E que marcas são aquelas em seu dorso?
Que estranha e longa cicatriz e esta quase cobrindo seu olho?
Oh felino que terríveis batalhas travastes?
Terá sido contra rivais?
Contra cães?
Contra homens?
Que força e esta que o impele a continuar vivendo?
Que teimosa e maravilhosa força e esta que o faz insistir em permanecer no mundo?
No meu quintal?
Já não é jovem eu disse!
Sim posso ver... já não é jovem!
Quanto tempo ainda tem?
Olho para os cães (guardiões falhos de meu lar?) e penso que talvez eles já soubessem do que ate então eu não sabia sobre o gato!
Afago a ambos sentados em meu alpendre vendo a forma fugidia do gato entre as flores
Tem um gato no meu quintal!
Afago os cães murmurando baixinho...
Deixem-no onde esta... apenas deixem.
 
TEM UM GATO NO MEU QUINTAL

EU ERA O DECIMO

 
Eu era o décimo...
Nove antes de mim...
Todos jovens e selvagens
Todos corajosos e indóceis
Todos melhores que eu
Eu fui o décimo...
Fiz o que fiz depois dos outros nove terem feito
Senti a terra entre meus dedos...
Senti o cheiro ocre do mato...
Meus ouvidos cheios das suplicas dela...
A meu redor burburinho indecifrável
No horizonte os clarões das bombas
E os estrondos...
Nenhuma piedade na minha cena
Éramos dez...
E eu fui o décimo...
Se saciei alguma fome naquele dia não foi a da carne
Não foi a da luxuria...
Foi apenas a selvageria
Fui apenas besta...
Animal sem amor só instintos...
A moça tremeu em meus braços...
A moça gemeu em meus braços...
A moça sofreu em meu domínio...
A moça chorou certamente...
Mas eu não vi
Não pude olhar-le o rosto
Era a guerra...
Eram dias de batalha e fúria
Momentos de chama e ódio
Só amigos ou inimigos a minha volta
Só o comando de meu capitão
Só a batalha a caça o caos e morte...
A moça era inimiga...
Assim disse o capitão
Assim concordaram meus companheiros
Era inimiga não merecia cuidados
Eu assisti os outros nove...
Um a um saciarem sua fome brutal no frágil corpo dela
Pensava em minha mãe que me criou pra ser honrado
Pensava em minha irmã que devia ter a idade da moça
Tudo em mim cada fibra cada sentimento em revolta contra aquele ato
Mas os nove se sucederam
Todos foram a ela e todos voltaram
Todos sorrindo e saciados
Todos me olhando...
Esperando...
Cheio de horror e nojo eu hesitei
Pensei mil coisas
Mil palavras...
Mas fui...
Fui o décimo.


Poema baseado num conto do livro A palavra nunca de Eric Nepomuceno
 
EU ERA O DECIMO

A SOMBRA NA SUA CABEÇA

 
Nas esquinas onde morrem os sonhos
Em pretéritos perfeitos e esquecidos
Eu vi você...
Saudosa de alguma dose antiga que "bateu" faz tempo
Louca na névoa sem lugar pra ir
Sem querer ir...
Existe acaso em tua loucura quando a noite vem?
Um declínio crepuscular e utópico a caminho...
E pode chover você sabe?
Sempre pode chover...
Entende a medida da força que lhe atrai?
A velha vontade rastejando na sombra da sua cabeça...
Um vicio antigo nunca vai embora...
Ele espera...não espera?
E dizem que "quem espera sempre alcança"...
E vai fugir agora garota?
O que você pensa?
Que existem carros velozes o bastante pra isso?
Que ha um refugio pra tuas dores?
Tola ilusão que o copo não vai apagar...
Abstração fugaz que a cerveja não faz perdurar...
Ouve agora o que vem com vento
A tempestade sabe onde você mora
E ela veio pra ficar...
Da pra entender?
Existem lugares melhores no mundo...
Mas a casa bonita não é um lar se não for sua...
A tempestade quer chover sobre você na cidade ignorante do sempre em frente...
Você pode correr,pode chorar,pode sofrer,pode parar...
ou...
PODE CHOVER DE VOLTA...
 
A SOMBRA NA SUA CABEÇA

PARTIU

 
Fugiu dos relatos estranhos
Desta primavera sem rosas
Destes lugares sem canto
Destas virtudes duvidosas

Terminou solitário no alto
Montanhas sem alma
Motivos sem logica
Foi...só foi!

Navegou em mares escuros
Naufragou em verdades incômodas
Sobreviveu em certezas bobas
Chorou ...dois traços nos olhos

Esperou pelos que nunca viriam
Atuou em cenas obscuras
Interpretou papéis que não lhe cabiam
Cansou...partiu...perdeu

Rogou a deuses que não ouviam
Rezou orações em que não podia crer
Fez seus próprios sacrifícios
Mudou...sentiu...mudou

Não é mais o mesmo sob o mesmo sol
Não caminha mais igual nos mesmos caminhos
Não vê mais as mesmas coisas com olhos de antes
Partiu...ninguém viu...

Partiu.
 
PARTIU

A BEIRADA DO MUNDO

 
Eu sofro do olhar calcinado de quem viu demais das sombras
Tantos cinzas manchando as paisagens do meu mundo
E eu precisando de algo
Alguma coisa minha que jaz perdida já há muito tempo
Nem sei bem o que
Eu deixo os olhos passearem no céu coalhado de estrelas
Deixar a Terra e vagar pelos astros
Há doce sonho
Desejo improvável que me mantém longe
Já não resta mais em mim nem mesmo uma pequena fagulha
A chama é agora mera lembrança
Só resta uma brasa extinta e dormida
Apagada de medo
Sou o sussurro sombrio e fraco
Anseio a mudança que não vem
E o alivio do peso que esmaga-me o peito cansado
E Deus como estou cansado
Tão farto destas batalhas sem glorias
Encharcadas de vitimas
Cansado de sonhar o sonho que se afasta deixando-me apenas a poeira da distancia
Quando é que a dor finalmente para?
Se é que para
Preciso de algo que abrevie o sofrimento
Alguma coisa qualquer pra apressar minha miséria no mundo
E que importa se e corda, bala ou faca o que põe fim a tortura?
Não careço do refinamento do método
Só da paz das trevas aconchegantes
Que não provocam lagrimas
Estou a um passo da beirada do mundo
E se pular... serei eterno.
 
A BEIRADA DO MUNDO

LA FORA EU SEI...

 
A janela me mostra a neblina
O jardim é só mistérios esta noite
Onde se esconde a minha rosa?
O mal humorado cacto ainda esta lá?
O vento sibila na palmeira
Nas pedrinhas eu ouço passos
Gato vadio?
Algum outro mistério?
Não vejo...
No céu a lua faz-se muda
O gramado esconde segredos
O que se esgueira agora no fundo do meu quintal?
La onde as sombras são maiores
La onde todo o movimento é furtivo
Microcosmo de minhas plantas
Macrocosmo em minha mente
A neblina só cresce e se adensa
Há coisinhas zombeteiras e alegres La fora eu sei...
Resignado vou para a cama
A noite meu jardim é deles
Amanhã...
Amanhã eu o tomo de volta.
 
LA FORA EU SEI...

UMA CANÇÃO ROUBADA DA IMUNDÍCIE

 
Já e tarde e o mundo todo ouve
Podemos cantar uma canção qualquer que não nos deixa
Todos tocam separados os seus instrumentos
As moçinhas com mochilas nas costas e uniformes escolares
Os velhos sentados nos bancos da praça pálidos de reumatismo
Cantarolando imperceptível uma canção
A canção do mundo
Uma canção roubada da imundície
Nas redações dos jornais ou nas celas sentados em caixotes de madeira
Os mendigos os bêbados e as crianças
Afogados e ungidos de indiferença ate aonde a canção lês alcança
A canção do mundo
Que fere os já derrotados
Que exalta os tiranos conquistadores
Que enterra seus mortos em valas
Uma canção que faz escravos
Que traz os loucos para as ruas, para a noite.
Que abre as portas do inferno
Uma canção cantada no silencio
Repetida pelas almas do porão
Recitada pelos antigos, por Aleister e outros.
A canção que cala as vozes gritantes
Que rouba corações ingênuos
Que mata bebes no sono
Que acha este mundo pequeno
Uma canção de fogo e de gelo
Que ri das piadas sem graça
Que passa a peste e as dores
Que faz da cura a doença
Uma canção rezada nas preces de altar
Que pos os pregos na carne e na cruz
Que viu o Cristo sofrendo
Que fugiu pro deserto sozinha
Uma canção irmã das pragas
Que trouxe o óleo aos oceanos
Que ensinou aos homens a arte da caça
Que trouxe os exércitos e a guerra
Uma canção pra contagem de corpos
Pros túmulos escancarados dos saques
Pros leitos lotados dos hospitais
Uma canção repleta de medo
Repetida pelas turbas de jovens loucos e selvagens
Atrelada aos cavalos noturnos da morte
Uma canção exaltando o ódio
Que e racista e idiota golpeando os asiáticos os judeus e os negros
Que lança mísseis que cortam os ares
Que explode minas que amputam membros
Uma canção roubada da imundície
Que segue em cortejos que repetem em coro
Que cria ladrões e assassinos
Que faz das prisões suas caixas de ódio
Uma canção pra resistir e seguir com o tempo
Pra não deixar a espada na bainha ou o revolver no coldre
Nem a lança parada e sem golpes
Uma canção pra sabermos o que somos
Pra enterrarmos nas carnes dos outros
Destruirmos suas vidas tão simples
Uma canção pra lançar contra a lua
Uma canção que apaga o sol
Um estribilho de brasa cinzenta
Uma canção que gosta de sangue e fogo
Uma canção roubada da imundície
Uma canção que o mundo canta
Atrelada ao homem desde sempre
Presos os cantores insanos do mundo
Uma canção que não morre com o tempo
Uma canção sussurrada aos ouvidos dos recém-nascidos
Uma canção que corre nas veias com o fluxo do sangue
Uma canção para os olhos estéreis dos mortos
A canção da foice e do capuz
Que não reconhece vitorias nem se importa com sonhos
Que mata os heróis e segue os vilões
Uma canção roubada da imundície
Que incendeia aldeias e estupra meninas
Que cala os poetas e acorda os vulcões
Uma canção pra ser latida por cães e rugida por feras
A melodia repetida nos tiros
Uma canção de espinhos e chicotes
Que explode com as bombas nos carros terroristas
Uma canção entoada no choro que leva bebes mortos pra ultima morada
Uma canção solta no mundo
Que uni as vitimas e as desampara
Que esta nos pratos vazios da fome e na terra seca sem chuvas
Uma canção de enxurradas que afoga os distraídos dentro das casas
Que carrega seus últimos valores pro lodo imprestável
Uma canção pros bordeis decadentes e pras veias picadas dos viciados
Uma canção de quem atira de longe e acerta o alvo
Daqueles que golpeiam de faca nas noites dos bares
Uma canção roubada da imundície
Que e muita que e todas e é única pra todos
Uma canção de horrores e sombras
De tragédias e guerras
Uma canção que não acaba e cresce
Uma canção tocada e tocando como a peste
Uma canção dos fracos dos trôpegos dos covardes dos humanos
A canção que o mundo canta
Uma canção roubada da imundície.
 
UMA CANÇÃO ROUBADA DA IMUNDÍCIE

UM CORAÇÃO NO RIO

 
As aguas deste rio são escuras
Da ponte posso ver sua extensão
Crespada é sua superfície de piche
Torturado esta meu coração
As aguas deste rio têm detritos
Restos falhos de imundície humana
Flutuam em caudalosa confusão arvores mortas
Como cadáveres que o rio transporta
As aguas deste rio tem destino
Descem encostas e atravessam vales rumo a um fim
Existe objetivo para esta jornada
A estória deste rio tem um fim
Meu coração quer descer com estas aguas
Quer navegar desesperançado rumo ao fim do rio
Meu coração que tem tantos detritos em seu amago
Quer ser mais um detrito neste rio impessoal
As aguas deste rio encontram o mar em derradeira comunhão
Beijam o mar...
O mar é poderoso e as recebe indiferente
As aguas deste mar são salgadas
Salgado é o gosto que minhas lagrimas tem
Meu coração quer seguir por este rio ate o mar
Quer ficar a deriva no oceano sem fim
Na gigantesca lagrima atlântica
Meu coração sabe que estará em casa outra vez
 
UM CORAÇÃO NO RIO

VEM VILÃO

 
Estou trazendo presentes
Ideias no álcool para os poetas que bebem
Por que se escondem assim?
Achando que terão visões nos fundos dos copos
Às vezes o mundo parece tão surdo quanto os tijolos das casas
E eu rezo quieto por nada
Estamos todos loucos
Enfiados em fantasmagóricos aventais brancos
Olhos mortiços
Como os dele naquela cadeira antiga
A porta de seu quarto no hospital
A que reflexões mortas ou antigas lembranças se entregava?
Talvez só estivesse com medo
Como todos os outros sentados nas fileiras desalinhadas das salas de aula
Sonhando senas eróticas e amorosas com a professora loira
Escrevendo poesia perdida durante as aulas
Só ela não liga o bastante
Melhor cheirar solvente e mentir para parecer rebelde
Falar de demônios e vozes sentir-se Aleister
Delirar
Eu também deliro e viajo preso as maquinas
Vida de operário
Um salário qualquer e dividas
Estou sofrendo
Mas trago presentes
Por que de alguma forma tocamos violão no quartinho dos fundos
De alguma forma isto nos parece arte
A se pudéssemos correr pelas avenidas com nossos carrões caríssimos
E recitar poemas pagos nos tele jornais do meio dia
Mas isso e só aqui
Sonhos de Porto Alegre só estão aqui comigo
Não posso alcansalos ainda
Talvez nunca possa
As coisas começam e vem carregadas no minuano
Pelo menos e o que esperamos
Aborrecidos manhãs a fora
Em direção ao ônibus ao trabalho a rotina
Sentindo nos presos
Há como e grande o desejo de ficar
Como urge a necessidade de mudanças
Mas não mudamos, não por fora.
Não para os outros pelo menos
Apenas para-nos mesmos, apenas por dentro.
Num labirinto no castelo da alma
Tentando desistir e falhando
Tentando uivar em papel xerocado
Tudo e tão irremediável
Para que tantas ideias?
Tantas criações?
Nossas mentes se perdendo, achando que seria bom se tocássemos em bares.
Ou em festas a cinquenta centavos no boné
Um couvert artístico
Achando que da pra viver de poesia
Um rosto qualquer na capa de um livro
Recitando para os outros, para os leigos.
Como ilhas cercadas, nos sufocando num mar idiotamente azul.
E mudo
Por que e só o que somos
Entregues aos longos banquetes da sanidade furtiva
Não temos medo da sombra
Somos o abismo
Comprando refrigerantes baratos em lanchonetes vazias
Escutando os ciganos vendo o tempo passar
Como pedra nas águas de um riu
Ouvindo musicas barulhentas de CDs emprestados
Uma vida de empréstimos compulsórios
Uma multidão de amigos viciados, carecendo de ritmo e magia.
Espalhando-se em fugas do atlântico, e do humor do jovem selvagem de hoje.
Jovem que nos somos, e escondemos no armário do quarto.
Por traz da pilha antiga de roupas
Só o que e bonito esta ai para mostrar
Só o que e bonito
Noites de outrora e jovens e belas promessas
Mostre a eles o que eles querem ver
Pode ser divertido fingir o tempo todo e enganar enquanto se espera a própria vez
O momento de ser enganado
Como se não pudéssemos fugir da noite
Ficando sempre a espera
Às vezes e fácil deixar para La
Ficar em casa olhando fotos velhas, reconhecendo rostos toda uma vida desfilando diante dos olhos.
Revendo antigos fantasmas
Espectros antigos, mas atuantes.
A garota gorda do colegial, com suas lentes grossas e coloridos desenhos.
Um horror nos punhos fechados de um inimigo maior
Medo, terra, chuva e vento como um presente indesejado.
Vem vilão que já não o tememos
Temos canetas e blocos e xícaras de café fumegante
Tem os o vinho e a poesia
Somos outros agora
Sim somos outros
Ainda que imolados em ódios disformes e lembranças
Pra podermos luzir nos caminhos da vida, na batalha sem trégua do dia a dia.
Você ainda acha que pode fugir?
Eu conheci alguém que tentou amigo
E ate hoje não conseguimos encontrar todos os seus pedaços
Pobre Queli onde andara perdendo pedaços seus agora?
Em quais bares estará esquecendo sua própria vida?
A que caralhos estará tentando agradar por mais uma dose?
Suas fugas nunca foram longas minha amiga, jamais foste a qualquer lugar.
Não e que estivesse errada, não e que não devesse ter tentado.
E só o seu caminho garota
Só o método e que te condena
Queli bebendo cerveja pra ficar alta e distante entre os vagabundos do bairro
Queli fungando carreiras perto das mesas de sinuca
O pó sobe rápido, eu a vejo pobre Queli você já esta longe, mas logo volta, logo cai pesada como chumbo.
E tudo ainda esta La
Tudo ainda esperando por ela
Silenciosa sentindo medo
Um gosto de morte na boca a má sorte grudada nela
Ela nunca mais será a mesma meu amigo
Nunca mais
Esta perdida
Agarre se a seus panfletos musicais e CDs
Você não pode fugir
Vem vilão por que não podemos fugir
Por que estamos cansados e tristes
Às vezes impacientes
Eu me pergunto
Quanto tempo mais?
E um ciclo que se fecha
Um grito que termina como devia terminar
Debatendo-nos no escuro
Debatendo-nos no escuro
Ate o fim
Futuro adentro
Debatendo-nos no escuro
No escuro.
 
VEM VILÃO

DIÁRIO DE AREIA

 
Já escrevi palavras na areia
Sabia que o mar viria busca-las
Já desejei delicias mundanas
Jamais foram minhas
Não conheci terras exóticas
Nenhum jardim inglês pra mim
Nada de índia misteriosa
Sem Nemo sem Nautilus
Mas cantei canções no escuro
La onde ninguém podia me ouvir
Onde a lagrima é só lagrima e sempre cai sozinha
Eu já encobri obscuros segredos
Medos exóticos
Medos inconfessáveis
Medos infantis
Só medos...
Sempre os medos
Eu já bradei em batalhas ferozes
Derrubei homens
Os vi derrotados
Os vi moribundos
Não chorei por eles
Em verdade... nunca chorei
Eu já deixei meu ódio pra traz
Eu o dei as flores
Enterrei fundo num canteiro de rosas
Mais tarde o vi voltar pra mim
Eu já fui zumbi sem alma e sem amor
Já fui bêbado, um ébrio errante gritando meu amor impossível pra lua.
Eu já sonhei com anjos
Já sonhei com pergaminhos
E livros que ninguém escreveu
Eu já perdoei ofensas imperdoáveis
E reagi com fúria diante de deslizes insignificantes
Já matei...
Já fui morto...
Caçei.
Fugi...
Eu já trouxe sabedoria de lugares místicos
Já espalhei tolices de metrópoles insípidas
Já fiz política
Já fiz amor
Já fiz... de tudo
Eu já quis que ela soubesse se do meu destino
Já escondi dela minha presença
Amor e dor... juntos em meu peito
Eu já afoguei velhos sentimentos em vinho barato
E narrei em poemas tão loucos que não pareciam meus
Já chovi sobre cidades que nunca me entenderam
Eu já parti
Já estive longe
Voltei e ninguém sabe
Escrevo palavras na areia
Olho o mar
Aguardo.
 
DIÁRIO DE AREIA

A CANÇÃO DA ESPADA

 
A noite da treva extrema chegou
O brandir das espadas não te desperta?
Num circulo de tochas desce a legião
Horror nos olhos...gosto de sangue na boca
E seus amigos onde estão?
Meu amigo é minha lâmina que a tudo corta sem perguntar por que...
A morte dança no campo esta noite
Sorriso bizarro em sua face nua
A morte sabe quantos irão com ela
A morte espera você também
Brandir de espadas e calor das chamas
Corte na carne gritos na garganta
Você pode ouvir a canção da espada?
Pode entender o que ela diz?
No fim de tudo só resta a lâmina
No fim de tudo é só silêncio
 
A CANÇÃO DA ESPADA

TAMBÉM OUVI O LEÃO !

 
A cidade acordou quando a verdade aprendeu a rugir...
E havia fugas nas avenidas vazias das periferias sujas pra onde ninguém foi
O fogo se espalhou nos prédios sem qualquer remorso
Queimaram como papel a própria luz da ruína e da morte
Eu sentia o fim chegando sem esperar demais
Sem ânsia alguma...
La embaixo alguém chorava suas tragedias pras sarjetas fedidas da cidade
E não consegui pensar em lugar mais adequado pra tragédias
E se houve um tempo mais escuro e selvagem antes deste eu não posso lembrar
Haviam multidões nas ruas caçando almas desavisadas de gente que não sabia que devia fugir
Havia solidão rondando na noite tal qual o leão faminto
Fedia a medo...
E desprezo...
Desci para as ruas certo de que caminhava de encontro a algum destino que me queria
Sem beijos apaixonados ,sem sexo,sem tesão
A noite era amarga e o fim jazia doce em algum beco a espera
Caminhei ereto e lívido pro fim de tudo
Assoviava alguma velha canção tão desconexa e sem sentido que fazia tudo valer a pena
Encontrei o que procurava numa esquina antiga em frente a decrépitos prédios carcomidos
Morri pro mundo que não me queria aquela noite
E fui feliz.
 
TAMBÉM OUVI O LEÃO !

MERETRIZES NÃO PRECISAM DE MEMÓRIA

 
A cidade é uma puta que vai cair
Cirrose,pra ela esta noite...e andar tropego na chuva
E chove medo...chove medo...
As esquinas e ladeiras,as pontes sujas e a merda no chão são suas marcas,suas cicatrizes...
Velhas meretrizes não precisam de memórias...
E o gemido longo e feminino que vem do puteiro vai te alertar
Vai querer viver esta noite garoto...
Vai querer viver...
Quem esta drogado é o Carlo? É o Jazz ?
É você?
Já pensou em procurar a verdade nos becos?
Imunda ela fica la onde ninguém precisa dela
Ninguém mais quer a verdade inconveniente
Ela é como aquele tio retardado que a família acolhe e ignora
A verdade agora bebe e fuma em bares...
Mas não sobe palanques...não não sobe...
A cidade vomita suas coisas nas noites mais negras...
São corpos em valas...
Soa a tiros...soa a lascas...e balas...
E cortes...e óbitos
A cidade é também cemitério
E você sabe...Não sabe?
Se a cidade canta é só distorção o que ela tem...
Nada de blues nas ruas...
Nada de poesia...
Obscena a cena...
Nenhum pudor nas praças
Só crack ,vinho ,maconha e cachaça
E que mal faz?
Tanta gente por ai juntando restos...
Deixando pedaços seus...
São como a sujeira nas unhas que tem...
São como o fedor que você quer mascarar...
Ma não ha pra onde fugir garoto...
Isto é você também...
A cidade é você também...
É sua mãe sua irmã e sua puta...
É uma velha louca e suja esperando num bar...
Vai beber com ela...
Vai beber com ela.
 
MERETRIZES NÃO PRECISAM DE MEMÓRIA

TINHA TETO DE ZINCO

 
Tinha teto de zinco
Ouviu a chuva no telhado
Tamborilar, tamborilar
Engolindo os sons da casa
Tinha teto de zinco
Ouviu o trovão La longe
Fechou os olhos assustada
Aguardou o raio...
O raio... não viu
Tinha teto de zinco
Perguntou-se se La fora agora era granizo?
Poc, poc o que seria?
Tinha teto de zinco
E paredes de madeira carcomida
Morava com os cupins que viviam nela
Dois gatos rajados na sala
Mas sem gaiolas
Nenhum pássaro
Tinha teto de zinco
E um quintal longo e estreito
Nos fundos bananeiras
Nos canteiros margaridas
Nenhuma rosa
Não tinha rosa
Queria a rosa
Tinha teto de zinco
Ouvia o vento na casa
O sentia nas frestas das paredes
O vento carregava detritos
Tinha teto de zinco
E uma enorme janela antiga
Perscrutava o céu assustada
Não via a lua
Não havia lua
Só tempestade
Tinha teto de zinco
E uma vela acesa embaixo da mesa
Como a mãe lhe ensinara
A tempestade caia La fora
Tinha teto de zinco
Ouvia o dilúvio no teto
Longa noite pra ela
Longa noite.
 
TINHA TETO DE ZINCO

UM ROMANCE NOS ASTROS

 
Oh lua eu vi teu olho
Ouço lobos te chamando
Você entende seus recados?
Seus apelos noite após noite?
A NASA diz coisas horríveis sobre você
Que és deserta seca e sem vida
Toda rochas areia e crateras
Nenhum dragão em teu seio
Nada de são Jorge e seu cavalo
I lua eu vi você indiscreta
Espiando amantes sobre a relva
Amantes sobre a cama...
Amantes num velho carro...
Sempre os amantes
Xi lua para onde foram teus segredos?
Todo mundo fala o que sabe de você
Todo mundo conta...
PÔ lua e os lobisomens?
Que droga de piada é esta que você nos traz?
Tem homens lobo por ai na noite agora?
E se tem é você que sabe?
É você quem traz?
Conta lua o que fazes quando a nuvem te esconde?
Coisinhas safadas que não queres que eu veja?
Que ninguém veja eu presumo...
Hei lua explica este boato
Tem um boato antigo, muito antigo solto no mundo.
Fala pra mim afinal o que você e o sol fazem juntos?
São só amigos?
Enamorados?
Amantes?
Não adianta lua durante o eclipse os paparazzi astrônomos flagraram vocês
Aos beijos no crepúsculo abreviado
Negar não adianta minha cara
O lua como vocês encontram tempo?
Agendas assim tão diferentes vocês tem
Ele sempre ocupado nas horas diurnas
Você tão diligente quando a noite vem
Haaa lua entendi teu segredo
A tardezinha vislumbro o crepúsculo nascer
Antes da partida dele por traz da angulosa montanha
Sol e lua trocam olhares e beijos que ninguém mais vê.
 
UM ROMANCE NOS ASTROS

OUTRORA BARBAROS

 
Pare com isto amiga ninguém se importa mais
Se teus exército derrubaram as muralhas do castelo
Ou se fracassaram...
Ninguém liga...
Pra que tantas perguntas formando-se em teus lábios rubros?
E este cenho franzido em mal disfarçada impaciência vai te levar aonde?
Não há novos lugares para ir querida
Todos os continentes já estão velhos... E já foram descobertos
As pessoas saciam sua sede de aventura no cinema
Os mais corajosos talvez ainda busquem um livro
O mundo mudou...
Aceite
O teu destino não é mais ser musa
Não podes mais impelir minha poesia por tuas curvas loucas
Ah doces e traiçoeiras curvas as tuas...
Ainda as amo...
Ainda as busco...
Mas não tenho mais versos pra elas
Ah distantes e misteriosas terras de outrora hoje já não estão mais tão distantes
Nem são tão misteriosas...
Querida o Google earth acabou de vez com os mistérios
A aviação comercial encarregou-se de tornar acessíveis nossos últimos rincões imaginários
O mundo ficou menor... mais funcional...mais simples
As descobertas estão a um clic de serem reveladas
As grandiosas e aventureiras jornadas não existem mais
Querida onde estão nossos velhos heróis?
O que o Sombra ainda sabe?
Com quem Conan da Cimeria ainda luta?
Será que o Zorro desistiu?
Eu sei que podes me apontar ainda à presença deles em pequenos bolsões de existência
Algum filme não tão antigo ou revista que ainda publica suas historias
Mas não é mais o mesmo você percebe?
Solomon Kane hoje parece tão perdido
O que são alguns fantasmas e lobisomens nestes dias em que tudo voa?
Em que a mídia esta cheia de garotinhos magos e vampiros adolescentes!
Em que tudo é super em uniformes coloridos!
Eu sei querida aqueles dias se foram...
Aceita...
Erga comigo sua taça de vinho
Brindemos ao nosso passado fantasioso e não vivido
Brindemos a nossas memórias irreais de dias mais simples
Vamos deixar a noite nos alcançar em alguma viela escura desta cidade
Só por hoje como fizemos outrora... Sejamos bárbaros.
 
OUTRORA BARBAROS

DAMA EM ESCARLATE

 
Vestido vermelho
Olhar abusado
Corpo sinuoso
Opulento decote
Será vinho em sua taça?
Para quem ela joga languidos olhares?
Quem já provou do mel de seus lábios?
Não ouso imaginar
Gestos largos e firmes
Mãos bem cuidadas
Unhas longas em esmalte escarlate
Madeixas de um negrume absoluto
Você tem medo dela...
Eu tenho medo dela...
Os homens tem medo dela...
Qual gata preguiçosa e ronronante ela se estica
Ela observa...
Seu sorriso é uma arma
Seu olhar um convite
Seu ardor uma armadilha
Ela chama e repele
Ela atrai e despreza
É senhora de sua sina
Dama da noite.
 
DAMA EM ESCARLATE

RUMO AO CAIS

 
Onde não havia mais becos eu deixei meu ódio
Segui pela cidade viciada rumo ao cais que estava sujo
Eu fedia ao dia inútil que ainda estava agarrado em mim mesmo naquela hora final
Eu caminhava pesado de todos os moribundos sentimentos e pesares que meu corpo insistia em ter
Apegado à maquinaria falha destas cidades eu seguia cego
Não via a luz do alvorecer
Não via a cor que tem o parque
Não via o mar
Em algum lugar a minha volta vozes bêbadas e vorazes gritavam maldiçoes
Homens sem rumo e sem coragem vagando na terra de ninguém
A calçada por onde eu seguia era pegajosa e enervante
Não tinha meu vinho na Mão
Nem um misero copo de cachaça que fosse
Mãos vazias na verdade
A não ser pelos calos
E pelo sangue
Eu vagava pela noite jovem recém-nascida fugindo da cena de meu próprio crime
Atrás de mim vozes aturdidas
Atrás de mim... La onde já nem se podia mais ver punhos em riste prometiam vinganças impossíveis
A minha frente às ruas dançavam abrindo e fechando esquinas sinuosas e sóbrias
A minha frente vielas e passadiços vazios a não ser pelos ratos e pelas putas
Eu vou em busca do cais
Com os ouvidos cheios dos ecos de um crime
Com a mente torpe de bebida barata
Com as mãos tingidas de sangue alheio
Vou em busca do cais
Cobrar dele o que não admito mais que me seja negado
Vou para o cais fétido desta metrópole doente
E vou afogar nas águas imundas um torpe criminoso
O criminoso que sou.
 
RUMO AO CAIS

TOLO BILY

 
Bily veio ver a ultima morada
Tao tolo é você Bily
Destroços ainda fumegantes em alguma calçada
E Bily sabe...
Só Bily sabe...
Uma noite destas ele vai contar também a você aquela estória
A estória dele...
Bily agora conhece cada antro da noite
Ele já não tem medo
O que o assustava Bily?
Tolo Bily...
Em algum lugar Bily deu sua ultima risada
Quem te ouviu Bily?
Bily deu sua ultima risada onde ninguém podia ouvir
Que tolo...
Tão tolo é você Bily
Bily diz que quer uma ultima canção
Quer jazz Bily?
Quer Bird?
Bily diz que sabe quando acabou
Quem te contou Bily?
Como você percebeu?
Bily odeia este terno tão azul
Rabugento Bily...
Tão tolo...
Não podemos mais falar daquela manhã
Por que Bily?
Manhãs do Bily...
Bily diz que sua poesia nunca rimou
E quem liga para isso Bily?
Bily diz que quer uma marcha simples
Tao formal o Bily
Tão tolo... tão tolo...
Bily diz que lembra de tudo agora
Veloz e furioso
Luz e concreto
Metal e sangue
Derrapagem e silencio
Freeway final?
Estrada que acabou?
Ah Bily beberrão
Tão tolo Bily
Agora Bily esta na morada final
Lapide para Bily
Nenhuma canção para Bily
Silencio... silencio eterno Bily
Tão tolo...
Tolo Bily.
 
TOLO BILY