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Outros Autores : Primeiros cem anos de uma eternidade
em 28/02/2012 22:40:37 (1566 leituras)
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A semana passada, fomos largamente informados, por todos os meios de comunicação, do centenário do nascimento de Charlie Chaplin. A Rádio Televisão Portuguesa levou a todas as casas o eco da sua homenagem, transmitindo uma pequena série dos primeiros e difíceis passos do querido Charlot e repondo um dos seus filmes mais celebrados – AS LUZES DA RIBALTA. Não exagero se lhes disser que senti todas as manifestações de carinho e homenagem como se fossem feitas a uma pessoa de família. É que… o meu espírito jamais se desligou de Charlie Chaplin desde que, em pequenino, os meus olhos se alegraram e a minha boca se encheu de riso à sua custa. Ao longo da vida, fui vendo todos os seus filmes e lendo todas as suas biografias. E nunca no meu sentir foi menos luminosa a sua figura de artista inigualável. Tenho dele um grande poster ao fundo do corredor. É uma espécie de ícone dessa estranha religião que é o humor universal. O riso é a mais inequívoca expressão de felicidade. Enquanto o homem ri, nada lhe pode enegrecer a alma e o espírito. Nunca dois homens se odiaram, ao rir do mesmo riso. Mais do que a política ou a religião o riso é capaz de irmanar os homens, ainda que por uns segundos… Charlie Chaplin foi o maior e mais completo artista cómico da história do cinema. Do gesto mais simples à mais complicada montagem, tudo nele é intenção de fazer rir. Mas nunca é alvar o riso ou o sorriso que nos liberta, por momentos, do peso da vida. No riso de Charlot há sempre conteúdo humano. Por vezes tão humano que a comoção chega primeiro que o riso. Tantas, tantas cenas em que nos fica no peito uma estranha sensação de alegre sofrimento… Durante dezenas de anos Charlie Chaplin fez rir as crianças de todo o mundo. As crianças e os adultos. Adulto que não ri com Charlot só cresceu por fora. Vamos fechar as luzes e passar uma fita de Charlot. É bem capaz de partir quando estiver no melhor da fita. Mas não faz mal. Vale sempre a pena! Charlot aparece com aquele cão esbranquiçado que às vezes o acompanha. A rua é escura, sórdida e deserta… Diante da porta iluminada de um cabaret Charlot hesita entre seguir ou entrar. Dois passinhos à frente… dois passinhos atrás… Depois de uns segundos de reflexão, toma um ar resoluto e tenta atravessar a porta. Mas o porteiro, que é uma abantesma, faz-lhe ver que não pode entrar com o cão. Charlot parece compreender e afasta-se. De repente pára de rosto iluminado por uma ideia. A ideia foi meter o cão no fole das calças e voltar ao cabaret com um ar muito digno. O porteiro, assim, sem cão, deixa-o entrar, embora intrigado com tão rápida mudança… Ao passar por entre as mesas, Charlot puxa as calças acima, mas tem tanto azar que o rabo do cão lhe sai pela braguilha, muito teso… Já com muita gente a rir e a morrer de espanto, Charlot quer salvar a situação, tentando meter o rabo para dentro, com ar pudico e circunspecto de quem acaba de urinar. A mão esquerda metida no fole das calças faz festas ao cão para o sossegar. Foi pior! O cão, com as festas, desata a dar ao rabo, tornando ainda mais insólito o que se passa na braguilha… Tomado de pânico, Charlot corre para a orquestra e tenta esconder-se atrás do bombo. Consegue ali sossegar um pouco, mas logo tudo se agita porque o cão volta a dar ao rabo e a bater no bombo… pom!... pom!... pom!... A fita parte, acendem-se as luzes e Charlot regressa em passinhos curtos de botas cambadas ao cantinho da nossa memória.”

“Crónicas do meu vagar”
de Camilo de Araújo Correia


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