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Fernando Pessoa : Não sei quantas almas tenho
em 10/07/2008 20:40:00 (28826 leituras)
Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.

Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.



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Enviado por Tópico
jessé barbosa de oli
Publicado: 16/07/2008 14:49  Atualizado: 16/07/2008 14:49
Da casa!
Usuário desde: 03/12/2007
Localidade: SALVADOR, Bahia
Mensagens: 334
 Re: Não sei quantas almas tenho
este auto-retrato poético
revela, para mim,
a força e o porquê do mister
dos heterônimos:
a necessidade de dar vazão
ao incomensurável oceano
da complexidade de sua personlidade,
personificada pela efusão da sua prolífica
verve poética.
em última análise,
pessoa quer mostrar,
por meio da sua obra,
o quão é intensa e lancinante
a latitude dos conflitos existenciais
que flagela o homem moderno.

Enviado por Tópico
Cláudia_Guerreiro
Publicado: 23/08/2008 12:18  Atualizado: 23/08/2008 12:18
Da casa!
Usuário desde: 11/05/2008
Localidade:
Mensagens: 337
 Re: Não sei quantas almas tenho
Este é um dos poemas que mais me fascina de Fernando Pessoa. A rima pontual e a busca do "eu" já fragmentado dão uma beleza única a este poema.

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