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Vila Embratel - Praça Sete palmeiras - epilogo

 
IV








Às duas da tarde restava apenas Pezinho, curtindo uma pesada carraspana deitado no chão. Depois que secaram a garrafa, todos procuraram os seus destinos. Gato foi para a casa da mãe. Jamanta e Jorginho foram buscar os seus quase nada. Matraquinha cambaleante seguiu rumo à sua, dormiria a tarde inteira, nem almoçaria. Um cão dormia enrodilhado ao lado de Pezinho com as patas sobre os olhos.
Um caboco alto, escanzelado, rosto chupado com uma caixa numa das mãos andava devagar olhando para os lados, como se procurasse algo. Cuidadosamente colocou a caixa sobre o assento de um dos bancos, concentrou-se nos trens de Pezinho amontoados rente à parede debaixo das cadeiras. Eram as coisas que achava ou davam para ele, um prato rachado, uma colher sem cabo, roupas peidadas, sandálias gastas, uma garrafa térmica sem tampa, um despertador sem ponteiro e outras bugigangas sem valia, mas que aos olhos do caboco assumiam grande valor. Cauteloso como um gato, cercava-se dos trecos e sutilmente começou a vasculhar os poucos nada de Pezinho que ressonava. Então o cão abriu os olhos e empinou as orelhas, primeiro rosnou, sentou-se sobre o traseiro e latiu, despertando Pé, que sentou-se meio sem jeito e fechou o semblante ao ver o sujeito mexendo nas suas tralhas.
- O que tu quer aí, Agostinho? – gritou para o caboco cujas enormes mãos suadas reviravam as suas coisas. Levantou-se, sacando do cós a enorme faca de cabo branco e partindo para cima do mexilhão. – O que tu quer aí, larga as minhas coisas.
- Ei seu moço, tá vacilando, eu tava ajeitando que tava tudo revirado - respondeu cinicamente com a cara mais limpa do mundo, aprumando-se.
- Agostinho tu é ladrão sem vergonha e te afasta daí caralho! – Deu um empurrão no peito do magro velho que tombou para trás.
- O que é Pé, tá vacilando, seu moço? – Argumentou, andando de costas até sentar-se no banco.
- Agostinho, já te avisei, larga de tá mexendo nas minhas coisas.
- Grandes coisas – ironizou com um ar de mofa.
- É grande coisas mesmo, são minhas e tu quer roubar, safado. – Pé espumava de raiva com o filha da puta. E voltou para seu lugar.
Agostinho cruzou as suas longas pernas finas. Olhou para os lados. A sapataria Trindade fechada, apenas a loja Nordestina com seus vendedores na porta curiando e conversando entre si. Agostinho pegou a caixa, ergueu-se e saiu caminhando tranquilamente, como se nada tivesse acontecido, rumo à quadra de futebol de salão.
- Vai miserável – gritou Pezinho, fazendo um bico. – Tá é com sorte.
O cão aproximou-se dele, cheirou-lhe o pé defeituoso. O homem deu-lhe um safanão que quase acertava o focinho do bicho, que, espantado, correu e escondeu-se debaixo do banco.
Diziam que Agostinho não dormia, virava bicho à noite, andando e espreitando os quintais e terraços em busca de alguma coisa para pegar e correr para trocá-la nas bocas por uma pedra de crack. Nada passava batido, tudo lhe servia como moeda de troca. Na feira, quando entrava, os feirantes o vigiavam, pois sabiam que alguma coisa ia desaparecer. Era uma persona non grata. Ninguém cofiava nele, apenas dois lhe davam serviço: seu Bereta, o peixeiro, e Zé Barros, da sapataria Trindade da esquina. Era brabo e boca dura.
Ele fora pedreiro, diziam também que era latrocida.
Andara pelo Norte nos interiores do Pará e da Amazônia. Agora, velho e quebrado, vivia zanzando de um lado para outro, a família o desprezara. As vezes amanhecia dormindo nos bancos das praças. E sempre tinha alguém à sua captura para aplicar-lhe um corretivo, mas parecia que o homem tinha o corpo fechado, ninguém nunca o encontrava.
Pezinho foi à torneira, lavou o rosto, encheu o litro. Arrumou seus trecos dentro das sacolas e caixas e achou o bandeco debaixo das roupas. Agradeceu a consciência dos parceiros pela consideração. Sabia que o bandeco viria, quase todos os dias, o soldado de plantão no trailer trazia-lhes. Alegavam que não gostavam da comida, preferiam almoçar e jantar nos restaurantes próximos. Destampou a película de alumínio do bandeco e lambeu os beiços de contentamento.
O cão que estava deitado debaixo do banco levantou-se e veio como se não quisesse nada, foi chegando até sentar-se sobre o traseiro diante de Pezinho e o encarou arfando com a língua de fora, e com uma das patas dianteiras raspava sutilmente o joelho de Pé.
- Tá com fome? – Inquiriu Pezinho gentilmente.
E o sacana do cão, ardiloso como o diabo, balançou a cabeça e latiu baixinho.
- Pega – jogou o pedaço de osso da coxa de frango assado. – Come, miserável, mas presta atenção, da próxima vez que aquele filha da puta do Agostinho aparecer e mexer nas minhas coisas, morde ele. – O cão faminto esmagou com ferocidade o osso e assentiu, balançando o toco do rabo.
O cão tinha dono, era de um senhor da rua São Félix. Vasco (era assim que a moçada o chamava por causa do pelo branco encardido e uma mancha preta nas laterais) preferia a companhia deles, principalmente de Pé, que o acompanhava a todos os lugares e dormia ao seu lado. Às vezes passava dias sem aparecer, então o pessoal sabia que estava preso na casa do dono. Mas quando este dava uma bobeira e deixava a grade aberta, Vasco escapulia e vinha em disparada para a praça. Era um cão inteligente e solidário, se dava bem com todos. Pé acariciou-lhe a cabeça e ele deitou a seu lado e ambos cochilaram mais um pouco.
Morria a tarde e uma generosa sombra amenizava o calor. Uma réstia de luz solar bateu nos olhos fechados de Pé, que espantou-se e bicudo olhou para todos os lados. Levantou-se de supetão, era a hora de ir apanhar os apetrechos da barraca de CD de Goiaba no começo da ladeira do Piancó. Faria umas duas viagens no carro de mão, trazendo as armações de cano, as cadeiras e as caixas com produtos e depois voltaria para empurrar o carro de guaraná da Amazônia da esposa de Goiaba. Era o seu compromisso todas as tardes – concluída a tarefa, Goiaba dava-lhe um trocado e a esposa ofereceria um copo de guaraná feito na hora e um bom pastel. Então Pé, descontraído, sentaria no banco de pernas cruzadas como um lorde, saborearia sem nenhuma pressa. Vasco, malandramente, sentava-se sobre o traseiro e ficava atento a cada pedaço que ele jogava, apanhando-o no ar.
Um baixinho meio calvo todo ligeirinho achegou-se e sentou-se ao lado de Pé que comia pausadamente.
- E aí Pé, o que meu compadre tá fazendo?
- Estou merendando – disse ironicamente, olhando para o outro lado. -Por quê, tem alguma coisa? – Perguntou mastigando o ultimo pedaço e secando o resto do guaraná do copo.
- Vamos fazer um corre?
- Na hora, e o que é?
- Entregar um botijão que vendi ainda agorinha.
- Onde é?
- Na rua dezenove, na casa de um bacana, depois tu pega uma cabeça.
- Na hora. – Levantou-se e foi até as suas tralhas, ajuntou, arrumou e colocou tudo dentro da caixa e a deixou debaixo das cadeiras, onde estava antes.
Vasco quis lhe acompanhar.
- Não, tu fica aí e não deixa aquele miserável chegar perto – disse para o cão que o ouvia atentamente – Te deita lá perto.
E Vasco obediente deitou-se ao lado das coisas de Pé, farejou a caixa e espirrou.
- Quem foi o filha da puta? – inquiriu o baixinho de camisa desabotoada popularmente conhecido com Kisuqui, morador da rua dezenove, filho da saudosa dona Concita e irmão de Buriti.
- Não foi aquele miserável do Agostinho? Acordei com o latido de Vasco e o filha da puta não estava com a mão nas minhas coisas? Ainda vem dizer “Não Pé, eu estava apenas ajeitando que tava tudo fora do lugar” – fez uma cara de riso. – Cara, aquilo me deu uma raiva, levantei, dei um empurrão nele e puxei o ferro...
- E por que tu não deu umas duas cutucadas nele – falou rangendo os dentes. – Não gosto daquele bicho, tentou roubar as lâmpadas do terraço da casa do meu irmão. Ah se eu pego, não ia conversar, era tanta facada que nem os médicos do IML conseguiriam conferir. – Concluiu com seu passo leste e balançando para os lados. E desapareceram por trás dos bares.
O movimento recrudescia de transeuntes e de veículos. O barulho peculiar de motores e buzinas. O zoar de uma esmerilhadeira, faiscando fagulhas incandescente vermelhas e diminutas na porta da oficina do serralheiro Zé Filho em frente à quadra de futebol de salão, onde a rapaziada jogava e outros em pé, segurando no alambrado ou sentados na arquibancada esperavam o desafiado. No meio da praça, os guris improvisaram uma quadrinha com trave de caixa vazia de banana.
No canto da entrada da rua dezessete, ao lado do enorme poste de concreto de alta tensão, uma senhora branca e forte posicionava um carro de batata frita sobre a calçada, depois espalhava os mochos de plástico ao redor.
Os pombos revoavam sobre a praça, pousando em algum lugar e ficavam bicando restos no canteiro. O crepúsculo caia suavemente sobre a praça com sua grande manta negra. Raios alaranjados vinham do poente. As lâmpadas de mercúrios dos postes de concreto acendiam simultaneamente.
Na calçada em frente ao antigo Adolescentro, os passageiros desciam estafados dos ônibus lotados que vinham do centro, onde os vendedores com seus carros de mão cheios de produtos apregoavam as mercadorias expostas nos tabuleiros improvisados.
- Olha o peixe fresquinho, madame – gritava um mais afoito a cada passante.
- Banana fresca senhora, cinco reais a dúzia - e para rematar jogava uma pilha. – Mulher bonita não paga, mas também não leva.
Alguns armavam suas barracas com dificuldade para vender espetinhos de carne assada na hora num enorme fogareiro. Do outro lado da avenida, a fumaceira da galeteria empestava a rua com o cheiro de galinha assada. A buzina dos automóveis num longo engarrafamento, todos agoniados... Numa mesa mais afastada a vendedora de salgadinho sentada numa cadeira de plástico, imune ao barulho circundante, tricotava tranquilamente com a netinha ao lado.
A noite na praça era outro clima. Goiaba e família já recolheram os seus trens, alguns casais espalhados e abraçados pelos bancos.
Os rapazes jogando na quadra em frente à oficina do serralheiro Zé Filho.
Alguns remanescentes da rapaziada ainda insistiam em secar uma garrafa sentados no banco em frente à avenida e conversando amenidades do dia a dia.
- Ele pelou foi uma porca, o cara ia dar uma garrafada nele - comentou Gatinho piscando bastante.
- Era bem feito, ele é muito saliente, quer tomar gosto com mulher casada, eu que não iria me meter – rebateu Jamanta, olhando para Jorginho que cochilava sentado, balançando pra frente e pra trás.
Pezinho ainda se arrumava sacolejando-se puxando sua mochila cor de rosa com rodinha que ganhara de uma garotinha, pela frente dos bares, procurando alguém para filar uma dose. Os casais espalhados no escurinho. Jamanta e Jorginho deitados sobre o papelão apertavam uma cabeça de crack.

Vila Embratel, 2019



 
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efemero25
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