Poemas, frases e mensagens de Mandruvachá

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Mandruvachá

FESTA DOS PARDAIS

 
FESTA DOS PARDAIS
 
A revoada
entremeio a neblina
no céu
uma poesia.
Na volta
o pouso
Bel'harmonia!
En'canto
enche árvores
pende galhos
Orquestra sem maestro
festa dos pardais.

Foto: Google imagens.
 
FESTA DOS PARDAIS

71 degraus

 
Quando subias a escadaria
em zigue zague
71 degraus
trançando
pra lá e pra cá
Observava
logo atrás
seus passos
cabelos lançados
Naquele
vai e vem
viajei
Lembrei
da fazenda
vi a vaca malhada
de orelhas esparramadas
Subindo
ora sim
ora não
pasto acima
nos fins de tarde
em busca
de satisfação
capim gordura
pra ruminar
saciar o leão.
 
71 degraus

A RUA DA MINHA INFÂNCIA

 
A RUA DA MINHA INFÂNCIA
 
A rua da minha infância
não tinha asfalto
nem calçada na frente das casas
era de terra, terra batida
empoeirada
chovendo, tinha barro
ficava enlameada.
A rua da minha infancia
tinha crianças
muitas crianças
era uma festança
por demais animada.
Tinha brincadeiras
pique-bandeira, pega-pega,
perna de pau, esconde-esconde,
carrinho de rolimã, caí no poço,
passa-anel, roda pião e birosca,
peteca, cantiga de roda,
jogo de queimada e de bola;
empinava pipa e papagaio
ignorando o perigo e a fiação
não existia internet
poucos rádios e televisão
a chegada dum parque
era grande atração.
Se faltasse luz, passasse um doido
um boi ou uma boiada
era uma farra só
a maior "gritaiada"
Ainda sonho e tenho saudades
da minha pouca idade
daquele tempo
tempo que não volta mais,
tempo de criança
na rua da minha infância
onde também dei
o primeiro beijo na minha amada.

http://www.recantodasletras.com.br/audios/prosapoetica/63635
 
A RUA DA MINHA INFÂNCIA

URUTU OFENDEU-ELA

 
O vergão na cana da perna
lembra chicote de trêis corda trançado
...cipó, cabresto, tala -
mardade de homi infeitiçado.

O danado na tocaia só isperô ela passar;
Invenenado do rabo inté na batata do zói
peçonhento e traiçoeiro - deu o bote...
nem chuquae prestô pra balangar.

Bicho ruim, demôniado
se tivesse avisado
ela sartava de lado
ou inté mesmo ivitado
pagode pur -aquelas bandas cassar!!!
 
URUTU OFENDEU-ELA

SUSSURRE

 
Num romance...
Versos susssurram.
Carinho e caricias
que delicia ouvir a fala mansa.
Ouvir bem pertinho...
Juntinho...
Inspira...
Suspira...
Afogueia e arranca risos... Motivados.
Move as mãos, coração, respiração, olhares
treme os lábios...
Faz sonhar, viajar, no ar
Faz amar!
Não fale, NUNCA grite
- machuca.
Em cochichos e deslizes
sopre baixinho
de mansinho, sussurre.
 
SUSSURRE

BOAS FESTAS

 
O desejo dumeu coração
équio seu finar diano
seja tão bão conto ómió quio meu!
Quincasa é ansim
Nóis celebra natale dizói nu-didiano
No natale come pão dorado
Didiano leitoassada
Uma fartura das maió
Na gamela, pão-dorado
Na travessa, leitoassada
Siocê pegá ca-mão lambusa
lambusa
mai -pó-lambê cabêdudedo
Sifô pão dorado o cardo é doce
Já leitoassada é sargadin
- Melado e untadin -
Lambusano ocê pega e chupa
chupa o cardin da cabêdudedo
dizói regaladin na fuiinha
na mairca duanquivém
pru repeteco das festança
mode nóisortá fuguete
lambenacabêdudedo.

DESDE JÁ - BOAS FESTAS PROCÊIS AÍ
E PRANÓIS QUINCASA!!!
 
BOAS FESTAS

AME...

 
Ame...

Ame os beijos meu beijos, nosso desejoso - ame...

Ame...

Ame a vida vivida, nossas vidas, com amor - com calor...

Ame...

Ame sim, assim, comigo, eu contigo - sigo...

Ame...

Ame meu amor, minha flor, sou seu - ser minha...

Ame...

Ame com ternura, com fartura - me atura...

Ame...

Ame, não se inflame, derrame-se de amor - sem dor...

Ame...

Ame, me ame - minha, sempre minha - rainha - rainha minha, LIDIANE!!!
 
AME...

LIVRO OLHA PROCE VÊ - LEITURA DE TEXTOS (EM CAIPIRÊS)

 
LIVRO OLHA PROCE VÊ - LEITURA DE TEXTOS (EM CAIPIRÊS)
 
 
ESTÉTICA INTERIORANA - INSTITUTO AVIVA
LIVRO OLHA PROCE VÊ, RETRATANDO A BELEZA DA CULTURA DO VALE DO JEQUITINHONHA MINEIRO EM VERSOS E PROSA POÉTICAS.
FOTOS DE ELIAS RODRIGUES DE OLIVEIRA

TEXTO E VOZ VALORIZANDO O SOTAQUE DA FALA CAIPIRA
- O CAIPIRÊS: MANDRUVACHÁ.
 
LIVRO OLHA PROCE VÊ - LEITURA DE TEXTOS (EM CAIPIRÊS)

Cachorro vai lamber sua boca - (Texto e áudio em caipirês)

 
Mané Beiçola, um pinguço da rua do canto, arrumado - daquele jeito - já bem-qui-intortado, dano guinada prus lado e com uma nota de dois conto de réis apenas na cartêra chega nu butiquin da isquina, qui dá acesso ao cemitério de Entrifoia, e arresorve de todo invisti a dinhêrama qui dispunha naquilo qui mais apriciava: Uma meiota da ingasga gato (e se num tivesse, sirvia arcoo mémo - tinha qui pô um trem quarquer na cabeça - dizia qui bibia pa -controlá a trimura).

" Continue acompanhando essa prosa "CAIPIRÊS", agora em áudio, acessando o link abaixo":

http://www.recantodasletras.com.br/audios/humor/60794
 
Cachorro vai lamber sua boca -  (Texto e áudio em caipirês)

O Saci e o Cachorro zangado

 
Antigamente quem fazia cachorro ficá zangado era Saci. Na época em qui us Saci aparicia mais a miúdo era comum a gente topá cum cachorro zangado pras -istrada a fora, na roça. Ês andava di-galope, sem distino certo, cum zói vremêi iguále fogo - e ca- cabeça baxa, sem oiá prus lado, babano us canto da boca.
E num latia tamém mais não!

Divinin, pru morá na redondeza onde us Saci intocava, di tanto perdê cachorro disanimô ca -criação. Passô pissuí ganso nu lugá di cachorro pa -vigiá a casa e dá sinár inredó dus terrêro. - Mais\'ê-quitava certo, ca- razão; Dava dó mémo vê saci judiá di cachorro. - Eu cá, num gosto nem lembrá!

Lá du artin, na divisa du terrenin on -nóis morava vi um indemuniado dum Saci muchado atrais do cachorrão du Armiro pega qui-num pega. E, oia qui -era um bitelo dum cachorro quais tamãe dum bizerro. Se fosse miúdo inda inha, mais era grande. Esse cachorro sofreu munto. Curria inté agachado... ele na frente e o Saci na cola, pregado, na maió doidêra. E, vai daqui e vai dali; corre pra lá e corre pra cá; desce correno e vai inté a tronquêra. O cachorro vorta dususperado, sobe inriba - passa pruditrais das bananêra na grota - compôco brotô traveiz inredó do paiole; deu nele o nóle inredó da horta e dispontô no terrêro ca –boca aberta e língua quebrada dibanda... e o Saci fincado atrais.

- Corrê cum pé só daquê -jeito nunca tinha vido inhantes.

Condo o cachorro tava bem frôxo quais infartano di aperto, o saci, rapaiz, cruiz credo naquilo, pegô e virô um ridimuín - rudupiano banava nu rabo du cachorro aí o trem ficô feio divera. O tilzin num guentô e caiu pru morto nu chão. Daí o saci garrô e lairgô da mão; trepô num cupim e ficô di lá agachado ispiano di longe cum zói ruim pareceno um arubú vigiano u armoço.
O cachorro chêi de raiva e medo levantô dalí só zangado. Zangadin de tudo; doido, e pronto pra mordê niquem mexêsse qü’ele. Já u Saci cum sintimento térrive du devê cumprido quietin alí ficô di cóqui e cabeça baxa oiano u cachorrão ir simbora, como se num tivesse acunticido nada. Foi direto pra –casa; entrô pa –porta da cuzinha, passô in –meio u povo e foi ino inté vará lá na sala on -tava Armiro... mordeu ele e saiu pra –istrada a fora traveiz sem rumo.

Foi aí qui discubrí qui - quem zanga cachorro é Saci, e qui tudo inconto é cachorro, condo zanga, prêmero parti pramode mordê seu dono. ispia só qui coisa.

\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\"Se você gostou, convido a ouvir também, no MINEIRÊS, acessando o link abaixo:

http://www.recantodasletras.com.br/audios/contos/62474
 
O Saci e o Cachorro zangado

O CANARINHO E O TIZIU

 
O CANARINHO E O TIZIU
 
Ti-ti-ti-tiziu...ti-ti-ti-tiziu
ti-ti-ti-tiziu...ti-ti-ti-tiziu
ti-ti-ti-tiziu...ti-ti-ti-tiziu

No alto do pé da goiaba
piava fino o tiziu
dava um pulo e três piados
acompanhado dum cantado
Seguia afoito, muito animado
pulando, cantando e balançando
as folhas da goiabeira
De repente
um canário admirado
pousou bem do seu lado
Calado
espiando ali ficou
até que no pé do ouvido
do tiziu sussurrou:
Fique o sinhô sabendo
seu tiziu
não enjeito briga
nem sequer um desafio
É bem verdade
que como ocê
não sei pular
mas tenho meus recursos
hoje vou te afinar
Se você não acredita
então tente me acompanhar!

Estufando o peito amarelinho
passou a replicar:
Ti Ti Ti Ti Ti Ti Té Té Te Té Té Té Ti Ti Ti Ti Ti Ti Té Té Té Té Té Té Ti Ti Ti Ti Ti Ti Té Té Té Té Té Té Ti Ti Ti Ti Ti.
 
O CANARINHO E O TIZIU

MEXERICA CANDONGUEIRA

 
MEXERICA CANDONGUEIRA
 
Na roça de coiêta feita sortaro us boi pra apruveitá a paiada seca. O miio quebrado foi puxado nus burro carguêro pru terrêro da fazenda.

Os boi entrô quebrano, fazeno a dirrubada e pastano o qui tinha pela frente; massô e cumeu tudo dexano o resto das cana de miio deitada.

Sobrô numei da siquidão, do limpo pisado, parmiano uma pedra, um frondoso pé da mixiriquinha fedorenta, - carregadinzin.

Ê-tava bunitin, virdin, das fôia miúda, muntas fôia e da copa ridundinha. Entrimêi as fôiage, têia de aranha -, uma caxa de marimbondo na-ban-di-lá; e na-ban-di-cá, iscundidin, um nin c\'uma rulinha dentro.

- Ah lá ó... uma madurinha, lá na grimpa - vai tá ducinha !

Zezé, cum\'água na boca puxô a gaia, - entrô numêi cum sacrifiço ranhano nus ispim, mais pegô.

Huummm... qui coisa sô!!!

... da ôtra banda dela um buracão. O fédamanha du marimbondo tava cumeno e quais firruô ele na mão!

Mais tinha muntas: piquena, grandinha e das bitela ... virdinha, marela e marilinha.

Chupô um tantão; encheu a camisa, pra levar pra casa, e saiu chupano pru camin.

Dalí, Zezé partiu saciado... chêi e chêroso da mixiriquinha fedorenta, da mixirica candonguêra.

Ouça essa e outras prosas CAIPIRAS, acessando o link abaixo:

http://www.recantodasletras.com.br/audios/prosapoetica/63888
 
MEXERICA CANDONGUEIRA

Fogo na sarça

 
No impacto
dos corpos celestes
urge atritos

Fagulhas, centelhas

Uma explosão
incendeia
queima por dentro

O curso em labaredas

Chamas inflamam
brasas fumegam
ardentemente

O fogo aceso

No vasto leito
consome a sarça
sem aceiro.
 
Fogo na sarça

ZÉ NO GALINHEIRO (Texto em Caipirês)

 
Zé Pinto, sujeito brabo do zói ruim, bão de bóia feito ele só... Dispois de se impanturrá de tanto cumê farofa e frango com macarrão no casamento do amigo Argimiro, sintiu male e foi simbora mais cedo... Tamém pudera, abusô dismanteladamente da fartura que tinha na festa, bebeno ainda vinho-doce no bico do garrafão... - Ansim, cabô ficano mei -zonzo. Chegô in-casa foi direto pru quarto, dismaiano num tombo só pru-riba da cama, feito um porcão na lama. Nem rezá rezô.
Condo acordô sintiu bem mais leve... Oiô pá-frente e viu um camarada barbudo, munto istranho.

Quem é ocê? - pringuntô ele - cismado.

Ieu sô São Pedro... E ocê tá nu céu, meu fio!!!

Ai meu Deus, mai nu céuuu?! Ah, não... num aquirdito nisso.
Antão quer dizer meu São Pedo qui-eu murri e to no céu? - Mais num pode ser, eu num posso morrer, tenho conta pá-pagá, vaca pá –apartar - me faiz vortar pel’amor de Deuso, ajuda ieu meu São Pedo!

Hummm, ocê qué vortár Zé!? Ocê pode inté vortar “Zé”, mais tem qui ser como galinha - gente num dá não!

Galinha? Prigunta ele, pensativo. Éh, galinha!

Fazê o quê, né(...) Já qui num tem ôtro ricurso pó-fazê o sirviço São Pedo... Vô virá galinha antão!

E como num passe de mágica ele apareceu no meio do galinhêro... e o galão carijó qui num era mais o galão de vinho, já ispixô o pescoço, agachô, e airmô partir pru incontro - pá –biliscar o Zé na cabeça.

Nó-sinhora! (có) cramô ele ripiado e arripindido da dicisão, oiano pru galo com zói cheio d’agua.
...e num é qui virei galinha mémo (có)!

O galo foi chegano pru perto, e foi chegano... e arresorveu galupiá o Zé galinha.

Ele mais qui dipressa correu e subiu no pulêro di-galope - o galo muntado atrais criscano as-asinha vuô e iscorô du ladim, e priguntô:
Ocê é nova no galinhêro, certo? (có)

...Sô sim sinhô! (có) - Respondeu “Zé galinha”, morreno de medo do galão impurrá ele do pulêro abaxo, quereno marquerença - judiá dele.

- Aqui no galinhêro é bão qui-ocê fique sabeno: ocê ó é riprudutora ou botadêra!
- O qui ocê vai iscoiêr?
- Oia Sô galo (có)... Vejo qui num vô ter munta iscoia, mai-riprudutora eu num quero ser não - mais tamém num sei botar ovo!? (có)

- Antão, grita o galo: Gertruuudes! Vem cá Gertrurdes, insina esta galinha disastrada a botar ovo! (có)
Sim sinhô, tô ino... Obedeceu de imidiato a galinha veterana, e já foi vino e falano pra galinha “Zé”: Oia só - pres’tenção! - Ocê deve levantar as -asinha duas veiz e fazê "cócócóóó" e ispremer!
“Zé” obedece e sai um ovo... Antão ripitiu a operação e, proft, ôtro ovo, e vai e vai...

Que legal! comemora “Zé”... - Tô começano a gostar desse negócio de ser galinha.

Condo ele vai botar o tercêro ovo iscuita um grito. Era a voiz da muié:
Mais “Zé”!!! - Acorda aí Zé!! Conhinfeito, Ocê tá cagando a cama toda, Izé!

"... é quéla assustô condo viu a testa du jaracuçú apontano e dislizano mansin na forga daquele carção froxo."

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ZÉ NO GALINHEIRO (Texto em Caipirês)

Ôh Fabuloso Sô Cabo

 
Lá pelos idos dos anos 90, e lá vai pedrada... conheci um “sordado”, mais tarde promovido a Cabo, “tijolão”; "minino bão”. Esbelto infante - sem defeito de fabricação, se não fosse a farta falta de cabelo na parte frontal do côco. O famoso testa lisa.

Vindo lá das bandas do “córgo” do Inhapim, da borda das -unhas do gato; sovaco de cobra. Toca desconhecida por gente civilizada onde cabrito selvagem esconde de chuva e tiro de relépa. Saiu de lá pirralho, mocorongo e franzino. Carregando consigo, impregnado, a fragrância indígena que ainda hoje viaja em suas veias, no seu DNA. Sangue silvestre. E, isso o tornaria no futuro em um homem disposto.

Mudou-se para cidade... e não demorou para se sentir evoluído. Esqueceu ou fingia não se lembrar de sua origem, da sua legitima identidade. Bastou subir na vida um pouquinho e já não aceitava mais ser chamado de homem do campo, de matuto, semeador de grãos ou lavrador. Exigia que o chamassem em alto e bom tom, de empresário! Afinal de contas era dono de uma padariazinha.

À medida que o empreendimento se desenvolvia ele também tratou de se projetar intelectualmente; cursou faculdade de psicologia, pois queria realizar outro sonho: Ser chamado de Doutor! Passando no vestibular o futuro Cabo já se sentia como o tal, ou seja, um especialista em aconselhamentos.
- O ex-mocorongo, agora é conselheiro dos necessitados, homem de línguas, letrado e amigos dos urbanos. Vivia uma forte discrepância entre sua personalidade tornando-se o opróbrio dos humildes, dos seus conterrâneos.

Contudo, convencido de que o ramo da psicologia não lhe garantiria o retorno desejado, o futuro miliciano como sempre, muito batalhador, de espirito aguerrido, não baixou a guarda e ingressou-se pouco depois na gloriosa corporação Alferes Tiradentes; onde se tornaria um exímio combatente.

Desde os seus primeiros dias de recruta se apresentava impecável na alameda principal, esticadinho, literalmente engomadinho. Exemplo a ser seguido. Formando praça comprou seu óculos ray-ban, bem mais largo do que os buracos das vistas, e ficou parecido com um Coronel ROTAM; correu e credenciou como motorista de viatura já ambicionando ser contemplado breve breve pela administração como motorista padrão; destaque no seio da tropa.

De pouca bajulação conseguiu fácil a confiança dos seus comandantes e, administrativamente, galgou novos horizontes dentro da instituição, sendo reconhecido como Cabo multifuncional... e o melhor: Encostou nos homens de estrelas nos ombros! Isso era tudo o que queria, estar no topo, junto à elite.

Nas instruções semanais sempre estava presente e atuante. Dentro das quatro linhas, no gramado, debaixo dos três paus, sem querer ser modesto ele era uma parede um gigante personificado. Com o espírito de liderança aflorado o Cabo atuava como um Capitão; estufava o peitinho - aos berros gritava com o time e passava sabão nos zagueiros quando frangavam.

Assim, o Sô Cabo levava a vida e a vida o levava. Puxava tropa - aqui, de soldados; viajava como motorista durante as supervisões; e, por último fez a viagem que ficaria cravada eternamente em sua memória. Quando foi levar seu Comandante regional para participar de uma solenidade na região norte do Estado, no Vale de Terras secas. Região quente. A poeira fina e alta levantava sem esforço. Depois da segurança e do bem estar do comandante Geral a poeira era a grande preocupação de todos, menos para o Sô Cabo, que nem havia atinado pra isso.

O Coronel Comandante Geral da Policia Militar, o manda-chuva maior, o cabeçudo que, além de tudo, atuava ainda a nível federal como representante de todas as policias do País não estava ali à toa. Ele participaria de um ato solene durante inauguração de mais uma unidade da corporação bicentenária; e se não bastasse estar acompanhado de tantas autoridades Militares e civis sua digníssima esposa estava ali ao lado. Todos trajados à rigor. Todos elegantes; como exigia o protocolo.

Ao término do ato cerimonioso, o Sô Cabo, motorista, motorista padrão, lembrou que tinha que abastecer o veículo para seguir viagem, e o pior: o posto ficava há vinte quilômetros dali e ele tinha apenas vinte minutos para fazer o deslocamento e retornar. Pediu permissão ao seu comandante direto, entrou na patrulha oficial e acelerou fundo como gosta para ouvir o roncar do motor e fazer o percurso à tempo.

Disparado no trajeto percebeu que outra viatura tentava o acompanhar e que o motorista da RAPA, apavorado, piscava o farol, ligava o giroflex e dava sinais incontinentemente para que parasse. Assim, diminuiu a velocidade permitindo que a tal viatura o alcançasse; o praça velha, patrulheiro, então assumiu a parlamentação:

Ôh Cabo... é procê vortá lá e panhá o Coronér!
- Que Coronel? - respondeu.
- Uai Cabo... o Cmt Geral!
- Sê besta, rapaiz... Eu saí de lá inda’gorinha e o Cmt Regional seus me disse que ele mesmo vai levar o homem! ... e mais: o meu Comandante sabe oncotô meu fii!!!
- A orde é procê vortá Cabo... se é que ocê tem costa lairga pra agüentá uma puada do bichão antão continua e vai abastecê; us-homi já tão lá numêi -da -rua te isperano. O recado foi dado Sô Cabo... passá bem!!!

A ira subiu e correu, pra veia a riba, esquentando o corpo do Cabo; num segundo lembrou do lugar on’nasceu e teve vontade de destratar o companheiro que trouxe o recado atrevido. Virou o carro e saiu em desabalada correria para buscar os biteluscos; voltou cantando pneu. Quando lá chegou de fato os homens graúdos estavam esperando ele ali, do lado de fora; naquela rua empoeirada.

O Sô Cabo chegou dando uma meia-virada no carro e já chorou nele o ré. Aflito com horário, vai ver que perdeu a noção do nível dos presentes, ou aprontou isso de propósito mesmo. Fez de raiva. Chamou o bicho no bão acelerando baixo. Daí a pouco escutou uns tapa na lataria da RAPA. Soco, chute, quase saiu tiro. Assustado, o Sô Cabo espichou o pescocin pra conferir no retrovisor, momento que viu o Cmt Geral, viu os comandantes regionais e todos os demais que acompanhavam a comitiva; todos. - Meio que embaçado mas os viu!
Envoltos em uma nuvem de densa poeira vermelha.

O ray-ban escuro e a poeira que se levantava dificultou a visualização; mesmo assim não teve dúvidas: – Huuuuunnn... aquele dando braçadas é o meu comandante!!!

E era ele mesmo. O Comandante regional do fabuloso pracinha com os dois braços levantados e boina na mão “balangava” pra cima e pra baixo, - desesperado com o desastre que o subordinado promovia, e com sua prometida nomeação a chefia do Estado Maior que agora estava ficando comprometida. Afobado, o Comandante tentava impedir ora a poeira na cara do maioral, do Curinga, - ora sinalizava para que o Sô Cabo parasse de acelerar aquela giringonça.

Já a primeira dama militar, muito educada e serena, apesar de sentir o gosto da poeira na boca e ver sua roupa empoeirada, soprava e esfregava os olhos reclamando ao seu esposo em tom hilário e caçoador: - Meu bem me ajuda pel’amor de Deus... assim eu vou cuspir tijolo!!!

Um silêncio pairou no ar; até o Comandante Geral entrar no clima criado por sua esposa e baforejar: - Isso só pode ser coisa de CABO!
Entremeio a um sorriso amarelado pela poeira o Comandante segredou no ouvido da esposa: - Se você cuspir um tijolo ele já tem dono. - vou dar uma tijolada nesse Cabo!

Tomado de dores e arrepiado, o Assessor do Ajudante de Ordem entrou afoito no carro, assentou-se no banco do carona e sem cumprimentar foi logo dizendo: - Ocê viu a merda, a cagada quiocê feiz lá atrais cabo!?

O Sô Cabo, motorista padrão há cerca de vinte anos, pessoa íntegra e de comportamento ilibado nunca imaginou que ouviria algo assim; tão de perto. Que atrevimento!!! E o queixo do cabra estava ali empinado em sua direção no alcance da sua canhota. Pensou melhor, refletiu, engoliu seco... tremulou que nem bandeira hasteada; chegou a perder a voz; ficou cego atrás do ray-ban e não sabia no quê pensar, - mas deixou ficar. Só teve força pra uma perguntinha:
- O quê qu’eu fiz???

O quê quiocê fêeiz!!???!! - Ocê empoeirou o Comandante Geral, sua esposa, os Comandantes regionais... ocê empoeirou todo mundo, CABO! Inda pergunta o quê qui feiz?!

Nem o curso de psicologia o salvou daquela adversidade; mas ajudou sim, a tolerar calado as afrontas do graduado que fustigou su'alma. Depois disso sentiu muita dificuldade para continuar sua missão na direção da viatura, porém, como cabo-sempre-é-cabo-pra-valer, é “otoridade” em tempos de guerra - insistiu e venceu a labuta rogando à Deus baixo em murmúrios no seu intimo, que afastasse da sua frente todo perigo e livrasse-o de todo mal’amém. E mais, que se Deus tivesse que mandar mais provação que não fosse mais empoeirada do que essa última.

Durante a viagem de regresso o Comandante regional temendo pela sua segurança e que sinistros ainda piores viessem a ocorrer, tentava tranqüilizar o Cabo, dizendo assim: Não fica abafado não Cabo; acidente acontece mesmo - amanhã você já se esqueceu disto. Porém, como essas histórias nunca acabam ao sair da viatura o Comandante, agora são e salvo, deu uma olhadinha e viu uma nuvem escura no céu e disse: - Será que chove Cabo? Pra acalmar aquela poeira térrivel? Já que estamos por baixo vamos esperar pra ver se desce água benta lá de cima para apagar aquilo tudo!

O Cabo sem entender, ou fingindo isso, não conseguiu abrir aquele sorriso faustoso; sorriu muchurucamente e tocou o carro levando a frase do Comandante entalada na garganta seca. Então começa o martírio: - Ele falou pagar ou apagar!? Pagar ou apagar!? Pagar ou apagar!? – Se for pagar, sou eu. Se for apagar, é a poeira. E estendenderam-se os dias e esta dúvida o massacrava aos poucos. O Miliciano só pensava em puada e das grandes. Uma transferência, quem sabe, pra região onde o fato aconteceu. E as dúvidas matavam o Lendário aos poucos.


Cabisbaixo, dirigiu-se pra casa e por meses foi atormentado, viu coisas: vultos, vozes e teve infinitos pesadelos.
Em um desses pesadelos se viu vestido com uniforme zebrado recolhido em um presídio de segurança máxima e o Comandante Geral que chegando no corredor do pavilhão, de cabeça alta, marchando e apresentando armas, - com as batatas dos "zói" regalados - e aos berros gritava: - Todo mundo deitado! Eu só quero o último!! É no rolamento muxiba, pelancão!!! - ...Cadê o Cabo?
Nisso o Sô Cabo corria e se escondia debaixo da cama pra se proteger.
 
Ôh Fabuloso Sô Cabo

A faísca que te incendiou !!!

 
Eu sou o último pingo da pingueira,
Seu dia nublado, frio sem cobertor...
A marca da última lágrima do seu pranto,
A faísca que te incendiou,
O mal que te faz bem!!!
 
A faísca que te incendiou !!!

Menina travessa

 
Sopra vento norte, sopra. Sopra meus cabelos, meus cabelos crespos de pixaim... Eu sou negra, sou rústica e forte. Meu olhar firme diz o que quero, o que posso, o que faço... Sou menina travessa - criança sabida e decidida, então sopra vento norte.
 
Menina travessa

BONECA ASSOMBRADA

 
BONECA ASSOMBRADA
 
(Não deixe de ouvir o áudio deste causo)

Assombração tem de todo tipe - acridite quem quisé.
A netinha da bisavó da minha muié conta que sua vizinha, Dasdor, na vrespa da quaresma ganhô uma bunicrinha deferente que mais paricia ser gente. Coisa feita cas-tecnulugia da cidade grande... De incabulá inté vigário. E só num era gente pruquê num rispirava - isso munta gente falô: - Dasdore minha fiia, mai– num -é qui parece ser de verldade!? - Ôtros condo inha chegano tapava a boca ca –mão digalope, e dizia: - Fala nada não Dasdor, fala nada não... Ocê arrumô mais minino, muié!?

Causa disso ela zelava dessa bunicrinha com capricho e cuidado. Ficava guardada nu arto da istante, infeitano a sala; Dimanêra qui quem chegasse via, mais criança ninhuma pegava. Toda veiz que dexava as minina brincá qüela, ficava pru di-perto ispiano, pramode num dexá istragá. Cabano a brincadêra pegava e guardava no mémo lugá. Já Bertulino, chefe da casa, homi das Dasdor, só oiava pr’ela prus canto; Discunfiado num incarava ela denduzói não... Num gostava da parecença dela com gente.

Certo dia, Bertulino, que era munto sistemático, notano as recramação da muié, qui disconfiô ditudocuntuá, menos da bindita bunicriquinha, tratô de agi; Pois veneno pra rato e morreu gambá, gato, pato, galinha... Pur derradêro se foi inté o cachorro campêro; Iscapô só as galinha chóca qui tava presa dibaxo do balaio - den-du-pintêro.

Terrêro limpo - restô as criança, os dois véi e essa bunicrinha. Contudo a danação continuava amolano e fazeno os véi perdê noite de sono. Condo dava dinoitizinha as panilinha era distapada e pôsto têia de aranha, areia, cabelo nu mei das coisinha de cumê. Pirtubado cum- aquilo, Bertulino ficô mêis e mais mêis tucaiano atrais da porta isperano o bicho aprontá, e nada; Inté que um dia arresorveu deitá, mais propois de num drumí. Dispois dumas trêis hora qui tava deitado, isso berano a meia noite, nu silênço profundo da viração, iscuitô um baruín vino da cuzinha, e era du fugão; Mais qui dipressa ca- fuicinha na mão correu lá pra cunfirí a disordi. Num viu nada. Mais a panilinha de arroiz foi distapada e tava quaiadinha de têia de aranha. Imbrafustado e arripiado de medo ascendeu logo a lamparina e viu qui a bunicrinha num tava na partilerinha, on-di-custume; Oiô tradaporta, den-da-caxa de rôpa, e nada. Correu no quarto e grito ca-muié: - Venânça!!!
- É a bunicrinha mês quitá infernizano nóis muié, corre cá –proce vê a teia de aranha na panela de arroiz... e ela num tá na partilêra! A iscumungada correu sem dexá rasto; Deve ter saído pru têiado, causdiquê as porta e jinela ta tu- fechada.

Venança garrô e levantô assustada, e foi vê o acunticido. Ricibiada pisava dileve atrais du homi condo viu qui a bunicrinha tava quietinhazinha no mémo lugá; Bertulino ainda mais incabulado, zói regalado e língua colada no cér da boca seca, rispirava curto di –aperto... Oiô pr’ela com zói de morte, e falô ca –muié: Aqui dentro hoje eu num drumo! - Saiu pra fora e isperô o dia crariá.

Inhantis dus minino acordá pra bebê café e saí pa- iscola, preparô um bambu cumprido cum gancho na ponta e fisgô o piscucin dessa bunicrinha - cuns braço istigado - pr’ela ficá bem longe dele; Arrastô ela pa- bandifora, apoiô ela dicacunda num pau de lenha e cumeu a bunicrinha no machado... Na premêra machadada essa bunicrinha arrumô um berrêro - danô chorá. O sujeito zói puro indoidô ca –quilo e cumeçô corrê, sem oiá patrais... Já a muié qui aquirditava munto nele dususperô veno ele na disparada e muchô atrais tamém, nem minino lembrô socorrê.

Ês num sabia. Quem deu pur certo num avisô - ó nem sabia tamém - quéssa bunicrinha tinha uma campanhinha na cacunda, e foi essa campanhinha a disgramêra qui feiz ês corrê légua.
Inté na hora da morte os dois afirmaro qui a bunicrinha era mémo assombrada, e quéla disinquietô ês inté êis mudá.

Abra o link abaixo e ouça também esta prosa no dialeto CAIPIRA... bom de se ouvir!!!

http://www.recantodasletras.com.br/audios/contos/58074

Foto via Google: Tudo interessante
 
BONECA ASSOMBRADA

PETECA

 
Peteca apanha, tháaaaaaa... Joga pru Teco!
Teco, thunnnnn... Voa pra Teca!
Teca tháaaaaa... Voa pru Teco!

Teca ré-pru-Teco, tháaaaa...!
Teco ré-pra-Teca, thunnnn...!

Linhaaa!!!
Ponto da Teca!

E, toma tapa....tháaaaa!
E, toma tapa...thunnnn!

Rede!!!
Ponto da Teca!

Peteca na mão, e tháaaa...
Mão na peteca, e thunnn...

Peteca na mão, e tháaaa...
Mão na peteca, e thunnn...

BaTe e rEbAtE
pra lá e pra cá
de mão em mão
até que pousa, e
repousa no chão.
 
PETECA

sonhar

 
“Não me impeça dormir quero sonhar com nós dois.”
 
sonhar