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Poemas, frases e mensagens de asv

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de asv

O que...

 
O que te fez voltar, assim?
O que te fez regressar
A um coração solenemente em paz?

Este desassossego não o enjeito.
Este crispar das palavras
esta pele que visto em ti

Ah! Se soubesses como te desejei
Nos caminhos da paixão sufocada
Na garganta de quem vai
Porque ficar é uma utopia.

Sabes, desde o início me rebelaste
As franjas da alma e do corpo
Desde o tempo em que nos escrevíamos
E todos os dias eu vinha
Porque te sabia aqui

E, de repente, aí estás tu
a palavra vórtice, paixão
Perturbadora nos recantos das palavras

Ah! Como te quis, incondicionalmente,
e te revi, vezes sem conta, nas imagens
que de ti ficaram

Ah! Como te desejei e te reli
Nesse dizer embriagante
Passageira dos meus sentidos
Senhora completa do meu sentir.

Porque vieste?
Porque incendiaste este rio
Porque o fizeste desaguar?
Minha quimera alada
Musa inquieta das palavras
Essa ilusão desatada
No lento entardecer
Das esperas imperfeitas
 
O que...

Utopias

 
VIAGEM DO POETA À UTOPIA, SEGU(I)NDO UMA NINFA
(Versão ne varietur, não editada)

Não sei se te beije no forte céltico de Santa Tecla, ou se desça contigo até ao castro e junte a história na tua boca.
Não sei se acompanhe o teu olhar pelo Rio Minho, até ao mar salpicado de rochas, e te diga meu amor, como se o infinito fosse a fronteira.
Não sei se te leve a Muxia e entre contigo no Santuário de La Virgen de la Barca. Ou se colha o teu sorriso das Pedras dos Milagres, esses penedos que nos levam ao mar, ali tão perto.
Mas, se não gostares de barroco, depois de subir à Pedra Abaladoira para ver se estamos sem pecado (se estivermos, ela mover-se-á e produzirá aquele gemido lendário que ainda ninguém soube reproduzir), ou passarmos debaixo da Pedra Cadrises, que me doem as costas, iremos a Laxe. Sentar-te-ás em frente do Cristo medieval, pintado sobre madeira, e descerás comigo ao corpo da igreja de Santa Maria Atalaia.
Quero-te ali, no canto obscuro das tábuas gastas pelo tempo e pela maresia. Arranhando as pedras. Afogando o prazer.
Lerás comigo as inscrições de Noia, sejam elas da neta de Noé - Noela, que ali terá aportado e dado o nome à terra - ou sejam, simplesmente, iniciáticas, misteriosas, como os últimos habitantes da Atlântida, que ali terão sobrevivido.
Subiremos ao Olimpo Céltico, o Monte Pindo. Quero beber o teu sabor, deitada sobre a massa de quartzo cor-de-rosa que se atira sobre o mar.
Ferveremos em lume lento, no caminho de Finisterra.
Quero-te no ponto. Os sucos crepitando devagar. A mão no teu seio, o olhar bem dentro. Porque na Costa da Morte se vive depressa, mas são lentos os prazeres.
Deitemo-nos na Playa Langosteira. Ou dentro de um barco. Estamos sós, ancorados um no outro. E, se uma gaivota cortar o silêncio, deixa. A liberdade escreve-se nestes céus com a simplicidade da natureza cerzida pela lenda. E haverá as majas. Celtas e feias, mas benfazejas para os amantes.
Tenho a certeza de que, enquanto nos apertamos nos corpos, elas estão a apostar para onde iremos a seguir, deitar-nos com os afectos, calar as emoções, vergastar este tesão que se desata da pele, e cresce e se humedece. E me faz mordiscar-te os sussurros.
Onde te levarei?
Em que pedra estenderei o cobertor da paixão?
Em que paisagem te desfrutarei, agora que poderás gritar com ímpeto a entrega, que o vento o elevará à dimensão cósmica da magia?
Pois, a mais risonha das Majas adivinhou. Ela é a madrinha dos momentos inopinados. Dos amores que fervem. Das paixões acicatadas. Mas também dos sonhos. E dos amores impossíveis.
Ela sabe que quero misturar-me contigo em Corme. Que quero completar o ciclo do inexequível. Ela conhece o meu olhar, não se esqueceu de mim, sentado, um dia, no primeiro dos cruzeiros, virado para o mar, à espera que ele me convidasse a saltar no vazio. Foi ela que colocou aquela criança a tropeçar na urze, atrás de mim. E o seu grito acordou-me da tentação pelo abismo, eu que era um abismo à procura do fim.
Sim, é aí. Na Punta do Roncudo. Onde mil sons do mar nos falam de naufrágios, marcados na pedra.
Agasalho-te. Porque, hoje, o meu naufrágio inteiro és tu.
Porque, hoje, o meu porto de abrigo és tu.
Naufrágio, porto, farol, a trilogia que te escrevo no corpo, mas que quero gravar na alma.
Tu serás o último cruzeiro. A última elevação. A última costa, alcantilada e sublime como um ramo de giestas preso na vertente.
Hoje, poderás chamar-me paixão, falar de amor, que só a nortada será cúmplice.
Hoje, podes ser tu. Sereia ou maja, tapete de urze, vaga de sal no meu corpo, brisa, cheiro de infinitos sabores.
Hoje, seremos só nós.
Perco-me no mar dos teus olhos, enquanto um arrepio me traz o voo da maja, e, no meu ouvido, cristaliza a sua sentença: “Só os amores impossíveis são infinitos”.
Reacendes-te. Reacendo-me.
E no mapa das tuas costas eu escrevo o meu nome. Com sal.
E, como Goya, também eu tenho a minha “Maja desnuda”. Ou, como Lucas Cranach, a “Ninfa da Primavera”.
 
Utopias

Preâmbulos de infância

 
Vieram de mundos tão díspares.

Ele cresceu, ali mesmo, subindo e descendo as escadas de uma casa que nunca haveria de ser herança.

Ela nunca conseguirá subir todas as escadas das casas que um dia herdou.

Ele fez-se como regador de cebolais, de vinhas, antes de, a pé, fazer os três quilómetros que o separavam da escola. E como doía o frio ao atravessar a agra, aquele descampado imenso sem paredes, a perder de vista como um mar, só que mais frio.

Ela, do alto da linhagem, sorria aos meninos pobres quando chegava, de carro, ao colégio. Nunca muito pobres, que esses andavam na escola pública que ficava num sítio que ela conhecia mal.

Ele ia pelas garagens à cata de rolamentos para fazer os seus brinquedos (o carrinho de rolamentos… com o nome gravado a fogo…) e descia, sem rede, a ladeira do rio, a ponte a centímetros do medo.

Ela tinha uma bicicleta (quantas tivera antes?) cor-de-rosa, e pedalava graciosamente as rendas com etiquetas famosas.

Ele estava feliz porque lhe tinham feito uns calções do que tinham sido umas calças de adulto.

Ela olhou o fato com desdém. O que fazer a tanto vestido, tanta fartura no guarda-fatos do seu quarto forrado a cores femininas…

Não, ele não tinha um quarto. Tinham feito umas cortinas coloridas em ângulo recto. No ângulo recto do canto da sala elas caíam, na vertical, e eram as fronteiras do seu mundo, onde, como adorno, havia um quadro feito de um calendário com paisagens da Suíça. E uma cama de ferro, onde dormia e sonhava.
 
Preâmbulos de infância

não quero pintar de ocre o cinzento da alma

 
(como quem bate à porta à procura de nada)

Há, de facto, quem se sente no sítio certo da vida, e chamam-lhe filósofo. Há quem se deite, demasiado, no lado errado da cama, e chamam-lhe coitado. Há quem não se sente por falta de aldeia, e chamam-lhe poeta.

Somos todos assim quando tentamos pintar de ocre o cinzento da vida.

As voltas que damos às letras para ganharmos vontade de escrever o inexorável…

Quando a porta da alma se pinta de negro e o gonzo toca um requiem (ainda se fosse de Mozart) sôfrego de murmúrios que a voz negou, quando a noite apenas apascenta o exaurir de segredos por dizer, mas consabidos, quando as madrugadas se penteiam de fósforo como se bruxas fossem, quando as manhãs apunhalam o sonho faiscando ao sol fora de tempo, quando a alma fica cinzenta e todos querem pintá-la de ocre porque está escrito que as almas – todas – têm de ser ocres, ou serão outra coisa, quando de estranhas vozes se traja a noite, prefaciando o pardacento da manhã, quando de desconformes sonhos se faz o dormir, embutindo as olheiras, há – e haverá – sempre um silêncio reticente e mordaz, cavador de sons hórridos no mar levantado da noite ambígua das almas inertes.

E, se no lento correr das horas se multiplicam as palavras reprovadas... Ou, no acinte dos momentos, a corrosão correr livre...

Essa é, então, a hora de partir para onde não seja obrigatório pintar de ocre a alma cinzenta.

Dói-me a cabeça de exaustão. Estou farto de olhares malsãos que me absorvem e censuram nos bancos corridos de um sítio, como se o meu ar, alegadamente sadio, insultasse os fatos negros da doença que se mói por ali.

E tanta doença se mói por ali. E tanta censura se faz ao sabor da ditadura das nossas conveniências de de carácter, dos nossos pesadelos insalubres e pintados de medos ou comodismo.
 
não quero pintar de ocre o cinzento da alma

O que seria de ti?

 
Se fechas a porta à dor
Como vai entrar o amor?

Conheço-te da vida

Essa forma de rir
Em silêncio
Essa inesquecível aura
Essa ânsia
Essa procura
Esse imenso desencontro
Esse abarcar a vida
E ficar no canto
Essa fuga
Esse mistério
Esse nunca chegar
Ainda que chegando
Esse outro lado da vida
Que é apenas
O teu lado versátil
O teu lado lunar
De couraça vestido
De máscara
De medos, receios
Dessa fome nunca saciada
Dessa sede ingente
Sem fontes para matar
Porque tu és a fonte
Insatisfeita, satisfazes
Mas não te satisfazes
Porque a tua praia
Tu a interditaste
Porque o teu coração
Tu o fechaste
Porque os sonhos
São para sonhar
E tu tens medo de os viver
Tens medo que alguém entre
E queira ficar
E o que vai ser dos teus cantos
Das tuas margens virgens
Dos teus recantos
 
O que seria de ti?

Noites de África

 
Segunda, 28 Maio 2007 às 07:14

A noite inicia-se com um black label.

A mesa apinhou com os amigos à volta, entre risos e prosa, que o DJ ainda não desatou a pista. Ficam nos ouvidos timbres de outras alegrias, os olhos ansiosos. A música é amena, internacional.

Quando abre a pista, as notas elevam-se. Os sorrisos suprem a conversa porque os decibéis dominam todos os outros sons, enquanto o cenário se acomoda nas entradas de novas produções de roupa que brilham no laser, nas luzes giratórias, nos holofotes que cobrem todo o espaço de luzes variadas.

Continua a música importada e os primeiros pares tomam lugar na dança.

Mas o grosso do pelotão espera o incontornável. Que ainda não começou. Mas a sexualidade brilha nos olhos. Enquanto se pensa na primeira dama para convidar, percorrem-se os corpos com avidez, traçam-se as curvas, imaginam-se os movimentos.

Entretanto, o ambiente vai aquecendo. Cada vez mais próximo o vulcão.

Inovou-se o ritmo a partir da cabine. O som de África investe, irrompe, poderoso.

Colam-se os corpos. Os movimentos escaldam. Mas os pés ainda se mexem no piso. O mote está lançado, mas os poetas ainda não concluíram as variações do poema que cresce em sensualidade.

As bebidas escorrem, alguns pares saem para o descanso. Que a lide na pista é fogo.

E guardam-se para o que vem a seguir.

Estão todos suspensos do DJ… que ri, descaradamente, na ansiedade de quem quer dançar.

Beberrico o whisky com gelo, muito gelo, a minha parte de “jornalista” espera, aguarda.

Chegou o momento almejado. Na pista não cabe mais ninguém. Reduz-se para centímetros o espaço entre os pares. Noutros cantos, só milímetros. Tudo dança até fora da pista.

Os pés não mexem. Centenas de pélvis concorrem na sensualidade, mexendo, remexendo, os olhos em transe. E elas não param. E eles acompanham. Há espaço a menos e corpos a mais. Tenho que me desencostar da fronteira da pista, porque há dezenas de corpos de femininos encostados à balaustrada, os corpos das mulheres movimentando-se ali, da cinta para baixo, apenas, a cinco centímetros dos meus olhos.

É muito para mim. Confesso. Nem a parte de jornalista consegue a serenidade. Enche-se o copo de gelo, mais um gole de bebida que depressa fica a escaldar, uniforme com o ambiente de fornalha que cresce da pista e arrasa todo o espaço circundante. O ar condicionado nem se nota mais.

É quase uma hora de corpos em frenesi, enchendo da máxima carnalidade e volúpia o recinto todo.

Há tropeções na saída, os olhos estão húmidos de prazer. Meia casa vai embora por volta das duas e meia. Porque não há mais daquela música. Os decibéis em fúria atacam agora o ambiente da pesada.

Quem aguenta?!

Saiu o meu grupo todo, também. No ar aquecido da rua, os corpos invadem-se pelos cantos das árvores, em entradas entre os arbustos, nos carros estacionados mais longe. Já não brilham na escuridão as luzes de tunning. O som é calmo. Os carros não querem mostrar que lá dentro alguém se consome em juras de amor, na paixão partilhada entre dois corpos quentes e jovens que se querem.

Paramos numa estação de serviço, os três jipes. Água fresca, por favor. É urgente tirar de nós o travo da noite. Porque queima.

O jornalista pensa nas palavras. Não as encontra.

O poeta some-se na entrada do quarto e atira-se sobre a cama.

A solidão regressa. O que os seus olhos viram passa para o piso das recordações da vida, uma vida tão diferente.

Porque logo mais tarde, mas bem cedo, há uma viagem longa a encetar, com hora e meia de buracos que engolem o tráfego de uma manhã de domingo.

Chegaremos lá pela noitinha.

É o tempo de escrever alguns momentos com que a vida nos consome.

Boa noite!
 
Noites de África

Comigo

 
Comigo, não precisas de ter medo de ti!

Podes dizer
Sempre
A tua alma
Em prosa
Ou verso
Vivida
Sentida
Saída
Distraída
Apartada
Misteriosa
Envolvente
Com neblina
Ou com sol
Com luz
Ou na escuridão

Comigo, não precisas de ter medo de ti!

Podes abrir-te
Em flor
Fechar-te
Na concha
Resguardares-te
No canto
Da vida
Sem ti
Ou contigo
Sem mim
Ou comigo
Na soidade
Saudade
Antiga
Ausente
De quem quer
E não pode

Comigo, não precisas de ter medo de ti!

Quando
Na madrugada
Concluí o poema
Perfeito
Autêntico
Concreto
Que te merecesse
A ti
E a mim
A nós
Soube que
Novas voltas
Na cama
Sucederiam
À perfeição
Porque não
Se é perfeito
E o poema
Exemplar
Era a ilusão
De te ter
Nas palavras
Ditas
Sem pensar
Saindo
Sem contar
No grito
Da vida
Que não é
Ainda que sejamos
Nós.

Comigo, não precisas de ter medo de ti!

Nunca digas
Não
A ti mesma
No silêncio
Da ausência
Na exaustão
Da saudade
Nunca fujas de ti
Que a coragem
Te revele
O momento certo
Da vida
Não enroles
O que sentes
Na incógnita
Por desvendar
No mistério
A envolver
Dúvidas
Em neblinas
Imaginárias
Deixa a fantasia
Caldear
A liberdade
De seres
De sentires
A liberdade
Sem receios

Comigo, não precisas de ter medo de ti!

Ousa!
Faz o que deves
O que queres
Sem amarras
Chega de catarses
De te rebolares
Só nos livros
Nos lençóis
Numa masturbação
Felina e rica
Mas vazia
Porque à vida
Diz não
À partilha
Diz nunca
Ao amor
Diz nim
À paixão
Diz nada
Dá ensejo
À possibilidade
De ainda
Seres feliz
No corpo
E na alma
Porque alguém
Te ouve
Te diz
Te acompanha
Ao longe
Te protege
Te guarda
E te diz
Bem vinda
Luz de mim
Estrela de mim
Princesa


Comigo, não precisas de te esconder!

Guardar para ti
A vontade
E ficar nela
Sem partilhar
Porque lá fora
Não te entendem
Não são de fiar
Tens dúvidas
É encerrares-te
Em ti na noite
E dizer
Continuo só
Ninguém me ouve
Foi sempre assim
Já estou habituada
Não mereço
Mas não faço por mim
Eu não quero
Não posso
A minha vida
Está ali toda
Os meus sonhos
Desaguaram ali
E não regressaram
E eu olho o que fiz
E tenho orgulho.
Se tens orgulho
Orgulha-te bem
Porque ninguém faz
O que pensamos
Nós valemos por nós

Comigo, não precisas de ti?

Precisas
Sobretudo de ti
Porque tu
És energia
E robustez
E abraço
E união
E afecto
Desassossego
Calma
Catarse
Sentimento
Paixão
Chama
Ardor
Encantamento
Êxtase
Tens tudo
Em ti!
O resto
É o que
Escondes
No receio
O que projectas
Nos medos

Mas ontem
Deste um passo
A mais
Na cumplicidade
De nós
E este não é
O poema perfeito
Que por volta
Das cinco
Irrompeu
No subconsciente

Esse era
Superlativamente
Belo
Profundo
Carinhoso
E lento
Como a água
Correndo
Espraiando-se
Num manancial
Sereno
Tranquilo
Profundo
Enleante

Mas foi
Uma ilusão
Porque a perfeição
É impossível
E tu chegaste
Mais perto
Do que eu

Tu,

Linda manhã
Na tarde
Do meu viver
Minha âncora
De ser
Em mim
O Universo
De mim
 
Comigo

Lendo...

 
Quando já não havia outra tinta no mundo
o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel,
ele escreveu no próprio corpo.
Assim,
nasceu a voz,
o rio em si mesmo ancorado.
Com o seu sangue: sem foz nem nascente.”
(Lenda de Luar-do-Chão, o mítico lugar de “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, de Mia Couto)
 
Lendo...

As palavras que nunca te direi

 
Sinto no tornado das tuas palavras a energia.
O profundo do teu olhar enorme dinamiza os meus sentidos.
Mas é largo, muito largo o rio que separa as nossas margens. Tem a medida de um sorriso imenso.
E, apenas de longe, vislumbro o redondo do olhar que veste a tua alma despida. Como a montanha que jamais escalarei, porque é paulatino o silêncio, conturbado, das emoções em fúria.
Na tua tez de seiva criadora escrevo o sentimento vivo dos afectos.
Derramo-me no impossível, com a inevitabilidade de um limbo. E esqueço-me de mim com um sorriso asfixiado de clausuras.
Mas guardo em mim, no mais imenso de mim, o eco incontido da tua voz afirmativa. O brasão da utopia por cumprir.
E sublimo-te nas palavras. Componho-te em sonhos. Porque assim me pareces contígua. Como pele da minha pele.
 
As palavras que nunca te direi

No silêncio

 
Quarta, 23 Maio 2007 às 10:49

No silêncio
Na escuridão
Me revejo
Como bola de sabão
Matizada
E fugaz
Como fruto
Passado
Não amadurecido
Onda suspensa
De mim
No cansaço
De ser não sendo
De existir apenas
Bordejando a vida
De outros cansaços
Informes, velados
Sou o que veio
E que passou
Cometa entontecido
Pela pressa de ser
Apenas um rasto
Neste chão de estrelas
Embevecidas
Pela palavra
Neste Carnaval
Duro e permanente
Em que nos mascaramos
Hirtos desavisadamente
Truões nesta vida
Que de passagem
Se veste na angústia
Lazer que se transforma
Na ânsia de ser gente
Denodadamente
Preciso de luz
Esse sol quente
Que abrasa a alma
Mas deixa a vida
Nos antípodas da alma
Do sonho Da utopia

Quero ser eu
 
No silêncio

Lembrando

 
Um poema da Poetamaldito("Somos um país de panelas"), que comentei, fez-me relembrar algo que escrevi, há um ano e uns meses, sobre o 25 de Abril.

Coloco-o aqui como homenagem.

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Senhoras e Senhores, podem sentar-se.

A pantomina desceu á rua.

Riam, aplaudam. Os actores têm as gargantas calibradas.

Banda, ataque o Hino! Os senhores estão a chegar.

Os centuriões da GNR penteiam os carrapitos.

"É entrar, senhoria, a ver o que cá se passa; sete ratos, três enguias, uma cabra abracadabra..."

Um cravo vermelho para quem ainda se lembrar da letra. Da música. Do autor.

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Gosto das paradas militares. Gosto de ver civis a passar revista a forças militares num passo forçado de marioneta. Gosto do que se diz ao ouvido entre senhoras dos camarotes de honra. Gosto da falta de treino de Mário Soares que já não consegue prender o cravo vermelho na lapela e, pragmaticamente, o enfia no bolso. E gosto de ver todos os outros a seguirem-lhe o exemplo. Todos perderam já o treino!

Gosto das entradas com passadeiras vermelhas. Dos alegados militares de Abril, de cabelos compridos apesar de brancos. Gosto da bandeira a adejar por sobre os mitos. Gosto de ouvir o Hino. Gosto de alguns discursos. Gosto dos que passam em frente à câmara porque não conseguem mascarar o seu fascínio pela notoriedade. Emplastros ou profissionais da pose.

Gosto da gravata azul e branca de Santana Lopes.

Gosto da gravata do discursante dos “Verdes”. Gostei que pelo menos um deputado não usasse gravata no uso da palavra, uma camisa sem colarinho e um casaco militarizado. Bravo! A luta continua!

Mas os cravos vermelhos são cada vez mais um mero adereço, até nos arranjos florais onde impera agora o verde dos fetos e quejandos artifícios ornamentais. Meros adereços. Os cravos vermelhos são cada vez mais a gaguez de alguns líderes que não sabem bem porque ainda estão ali. Ou porque já estão ali, eles que nem nascidos eram em 74. Pois, nada mais sabem fazer. Cresceram no carreirismo, na militância.

Mas, mais do que isso e perdoem-me a deformação jornalística, fica-me a imagem de um cravo caído no chão em que ninguém reparou, nem mesmo os guardiões – ou guardiães, quero lá saber – do cesto de onde mãos de políticos colhem, por encomenda, a flor de Abril. Para a fotografia.

Os senhores da história recente continuam a caminhar pela passadeira vermelha.

E o cravo continua ali, caído. No chão da pose. No mármore em que se sepultam os mitos.

E eu já não sei se a Assembleia da República é o monumento vivo da vida democrática ou o mausoléu dos ideais enterrados, um teatro de rotinas, um albergue espanhol. O tecto da cadeia carreirista.

Foi há 34 anos.
Um ideal que durou uma semana. Quando, no 1.º de Maio, regressou a casa o povo. Depois da festa.

Como dizia Solnado, a festa dos cravos foi bonita, pá, mas o pior é quando chegar a conta da florista.
 
Lembrando

Vejo-te

 
Vejo-te rodar, assim, no gira-discos.
És sorriso e pensamento. “Nostalgia”. Musa de olhar profundo. Sorriso de juventude. Sonho de mulher. Melodia superlativa dos ouvidos castigados pela vida.

Vejo-te rodar, assim, no gira-discos.
E cometo todas as inconfidências. Dedilho todas as palavras. Verto-me na história das estórias por contar. E sou condor ou rouxinol.

Vejo-te rodar, assim, no gira-discos.
E és, ou sou.
 
Vejo-te

Escondo-me

 
"Grande é o silencio de um vasto olhar"

Escondo as palavras
faço-me silêncio
enquanto o néon dos sentidos
me lembra a grandeza
do silêncio de um olhar
terno e comovente
sedução e fascínio
como se a química
inebriasse de sol
a longa saudade
 
Escondo-me

Só posso dizer-te

 
Esta noite, sonhei contigo.
Contigo ou com os sentimentos? Contigo ou com os sentidos?
Reparti iodo pela tua pele para ficares com as cores do verão.
Do verão ou do moreno? Do verão, porque és o sol? Do moreno, porque és a minha visão singular?
Nos sonhos, não há as marcas do tempo. Só as marcas da paixão? Só as marcas que deixas na minha alma?
Por isso, um dia, ainda que o improvável sobreleve, deixarás de ser a vestal que inunda de fogo as madrugadas. E serás a mulher inteira do desassossego.
Porque cuidarei dos sonhos sem ficção. E não simularei esta angústia de não seres contígua à minha pele. De voares, apenas, neste limbo, que é esta ilusão de te ter, nunca te tendo. Porque estás para além das montanhas, e não há trilhos escavados na pedra. Porque és uma estrela, e não sei voar o teu infinito. Porque o teu encalço, apesar de indelével, é a minha utopia.
Esta noite, sonhei contigo.
Mas há este vazio onde apenas consigo tactear os contornos impensáveis do fogo.
 
Só posso dizer-te

fosse alma

 
Fosse alma
e levar-te-ia comigo
voarias comigo
por Áfricas verdes
e quentes de saudade
andarias comigo
na sensualidade
que desvirgina
a floresta calada
dos rios claros
dar-te-ia a mão
colhendo a natureza
em pedaços de beijos
roubados à terra

Se fosse alma,
queria um corpo
que casasse com o teu
nos poros crepitantes
das noites sopradas
onde o som da maresia
se converte no riso
dos amantes saudados
pelo amanhecer das queimadas
pelo sibilar dos barcos
pelo silvo da chuva

Fosse alma
e talvez ficasse
apenas e só
olhando a tua silhueta
de sereia quase madura
e fecharia os olhos
no crepitar dos teus cabelos
acabados de molhar
 
fosse alma

Vá!

 
Vá!
Diz-me que sabes
ainda
o sabor da noite
na minha pele
o crescer da lava
dos sentidos
e que os corpos
isotéricos
ainda se dizem
exotéricos
mas nada vulgares
como um esboço
de emoções derramadas
 
Vá!

Saudades

 
Na fímbria do olhar, o tempo.
Na ponta dos dedos, as emoções.
Na alma se escrevem os afectos
como se a primavera renascesse
e as cinzas fossem oiro
e as recordações, lagos calmos

O luar da saudade
Os corpos que ficaram
O que permanece hibernado
à espera do sol

Eu acredito tanto nas palavras
e os sentimentos refugiam-se
e no rosto da vida, recriada
escrevo-te, também, criadora
mulher que conjuga os verbos
na mágica criação dos cheiros

e as essências ficam no ar
simples caminho de solidões
que se refazem, se transformam
e somos crisálidas a crescer
porque as borboletas são frágeis
 
Saudades

Não sei se vais poder ficar hoje

 
NÃO SEI SE VAIS PODER FICAR HOJE

Corri atrás
Emaranhei no sonho
Persegui
Troquei olhares
Desencadeei emoções
Enchi-me de sombra
Embebedei-me e sofri
Repeti porquês

Fui amante virtual
Encontro de ocasião
Morada de telemóvel
Amigo de copos
Confidente de corações

Padrasto e pai
Filho e enteado
Wonderful love
Mon amour du coeur
Bastard I hate you

Te quiero mucho
Desgraciado te mato
Doce de coco
Água do mar
Infinito e caduco

Escrevi poemas em corpos maduros
Dei-me, fundi-me, fui e vim
Permaneci só porque não encontrei
E se encontrei não quiseram
Quem quer ser poema hoje
Fundir-se em rimas e sentir-se estrofe
Ser modelo e despir-se de enredos
Arrancar a máscara e ficar nua
Soltar o cabelo e entregar-se
Ser livro e deixar-se ler como quem ama
Ser pauta e clave e música e compasso

Não sei porquê
Deitei-me com o sol esta madrugada
A viagem à capital foi longa de hiatos
E risos e noite e copos e olhos verdes
E amigos e não vás e fica porque vais agora
E vim com a luz a despertar no horizonte
E quis deitar-me e não pude o sono voara

Porque hoje são as últimas linhas que escrevo
A última música que oiço, os últimos sentidos que verto
Amanhã, mais um ano terá passado
- Parabéns a você, estás muito bem
- O bigode quase branco é que destoa
- Gosto desse teu ar de poeta excêntrico e irreverente
- Não acredito, são mesmo cinquenta e alguns
Ainda ontem trocávamos beijos às escondidas
Jogávamos à cabra-cega, ao mata,
Soletrávamos juntos a palavra amor
Jurávamos paixão até á morte e continuamos vida

E estamos juntos, é verdade
Quando tu e eu fazemos anos
E temos necessidade de jurar de novo
Pelo menos até ao ano, na minha ou na tua
E há sempre amigos novos desse ano
Que olhamos com ciúme
- É muito interessante a tua amiga
- Onde desencantaste este, agora, que me bebe o whisky todo
E vamos ou ficamos conforme a casa
Ou foram todos e ficámos

- Amanhã vais conhecer uma nova amiga
Traz sóis no cabelo, mel no poema
Ideais e sonhos a realizar
- Gostas dela? Como a conheceste?
- Gosto dela, não a conheço, mas acalma-me
Traz-me vidas, reconheço a sua voz no vento
Faz-me acordar
- Não sei se vou gostar, traz-me perigos
- Não vamos discutir, tu chamas-te simplesmente solidão
- Por isso mesmo... Não gosto de ser incomodada
Se quiser ficar, quero ficar
- Então fica, mas deixa-me ver o mar... Quero barulho
E sal e água e nevoeiro e luz e chuva.

Não sei se vais poder ficar hoje...
 
Não sei se vais poder ficar hoje

Não venhas

 
Segunda, 4 Junho 2007 às 01:18

Não, não venhas hoje que os sentimentos se escusam a aparecer. Não venhas hoje, que as palavras estão duras no pesar que me invadiu. Não venhas hoje, que a tristeza em pano de fundo escorraça o verbo, transforma-o, remodela-o em tons de escuro, difuso como a noite cruel.

Não venhas, que te estrago o ser na tristeza. Que incomodo. Que subverto a vida nos escaninhos por onde se vaza o lixo da alma.

Estou estranhamente cruel comigo, como se me tivesse desfeito contra os rochedos da escuridão mais escura.

Não venhas hoje, que a faca da palavra está sublimemente afiada no silêncio cortante da ausência.

Não venhas! É melhor reconquistar o espaço de mim, o verdadeiro espaço de mim.

Não venhas, que tens na palavra a luz que hoje me faz mal, perpetuado em mim o afecto desesperado.

Não venhas.

Fica na penumbra dos pinheiros, dos abetos. No teu jardim escondido nos muros altos.

Eu olharei por ti as palmeiras. O verde e o azul. O infinito das paisagens incandescentes. As queimadas e o orvalho.

Não venhas.

Quero partir sozinho na incredulidade de estar hoje assim.
 
Não venhas

estrelas na noite

 
Há estrelas que brilham na noite.
Têm o calor de um olhar
calmamente afogueado
têm o carinho envergonhado
de um toque na pele
tremeluzem na tua boca
feita de palavras vivas
e enrolam-se no entardecer
feito de sorrisos cúmplices.

e um grande desassossego
se faz, imenso e misterioso,
pele das palavras a ferver
nos contornos da voz
que se embargou
para te receber
 
estrelas na noite