Poemas, frases e mensagens de AjAraujo

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de AjAraujo

Revolução (Fidel Castro)

 
Revolução (Fidel Castro)
 
É sentido de momento histórico;
é mudar tudo o que deve
ser mudado;

... é igualdade e liberdade plenas;
é ser tratado e tratar aos demais
como seres humanos;

é emancipar-nos por nós mesmos
e com nossos próprios esforços;
é desafiar poderosas forças

dominantes dentro e fora
do âmbito social e nacional;
é defender valores nos quais se crê

ao preço de qualquer sacrifício;
é modéstia, desinteresse, altruísmo,
solidariedade e heroísmo;

é lutar com audácia,
inteligência e realismo;
é não mentir jamais

nem violar princípios éticos;
é convicção profunda
de que não existe força no mundo

capaz de esmagar
a força da verdade e as ideias.
REVOLUÇÃO é unidade,

é independência,
é lutar por nossos sonhos de justiça
para Cuba e para o mundo,

que é a base de nosso patriotismo,
nosso socialismo
e nosso internacionalismo.

Fidel Castro Ruz (1926-2016), grande líder revolucionário cubano.
 
Revolução (Fidel Castro)

Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)

 
Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)
 
Me vem, há dias, uma vontade ubérrima, política,
de querer, de beijar o carinho em seus dois rostos,
e me vem de longe um querer
demonstrativo, outro querer amar, de grau ou força,
ao que me odeia, ao que rasga seu papel, ao menino,
ao que chora pelo que chorava,
ao rei do vinho, ao escravo da água,
ao que ocultou-se em sua ira,
ao que sua, ao que passa, ao sacode sua pessoa em minha alma.
E quero, portanto, dar guarita
ao que me fala, à sua trança, aos seus cabelos, ao soldado;
Quero, pessoalmente, passar a ferro
o lenço do que não pode chorar
e, quando estou triste e me dói a sentença
remendar os enjeitados e os gênios.

Quero ajudar o bom a ser o seu pouquinho de mal
e me urge estar sentado
à direita do canhoto e responder ao mudo,
tratando de ser-lhe útil no
que posso e também quero muitíssimo
lavar os pés do coxo,
e ajudar o vesgo, meu próximo, a dormir.

Ah! querer, este meu, este, mundial,
inter-humano e paroquial, maduro!
Me vem no ponto,
desde as fundações, desde a virilha pública,
e, vindo de longe, dá vontade de beijar
o cachecol do cantor,
a frigideira do que sofre,
ao surdo em seu impávido rumor craniano;
ao que me dá o que esqueci em meu âmago,
em seu Dante, em seu Chaplin, em seus ombros.

E para terminar, quero,
quando estou à beira da célebre violência
ou pleno de peito o coração, queria
ajudar o que sorri a escarnecer,
por um passarinho bem na nuca do malvado,
Cuidar dos enfermos, enfadando-os,
comprar o vendedor,
ajudar a matar o matador - coisa terrível -
e quisera ser bom comigo mesmo
em tudo.

César Vallejo (1893-1938), poeta peruano de origem indígena. Viveu na França a partir de 1923. Sua obra, de acentuada experimentação estética, abordou temas sociais e políticos de seu tempo, como a guerra civil espanhola. Publicou, entre outros títulos, Os arautos negros (1918), Trilce (1922) e Poemas humanos (1939).

Tradução: Antônio Moura

Imagem: Salvador Dalí
 
Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)

Arte poética (Jorge Luís Borges)

 
Arte poética (Jorge Luís Borges)
 
Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.

Perceber que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que é sono, que é sonho.

Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo
dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, entrever no ocaso
Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.

Às vezes durante as tardes um rosto
Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges, em poema magnífico, sobre a transcendência.
 
Arte poética (Jorge Luís Borges)

O poeta que protesta

 
O poeta que protesta
 
sou o poeta
que protesta,

que não se contenta
com quem não enfrenta

sou o poeta
que detesta,

que não se abala
com quem não luta

sou o poeta
que atesta

que não se atrela
com quem não presta

sou o poeta,
que testa,

que não se cala
com quem não confronta.

AjAraujo, o poeta humanista, poesia em homenagem ao poeta Walt Whitman.

Imagem: Walt Whitman.
 
O poeta que protesta

Se (Professor Hermógenes)

 
Se (Professor Hermógenes)
 
Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia…

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser…

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo…
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou…

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio…

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu…

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia…

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim…

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito…

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz…

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou…

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

( Professor Hermógenes )
(poema conferido no Instituto Hermógenes)

Professor Hermógenes, poema transcrito do Instituto Hermógenes.
 
Se (Professor Hermógenes)

Sapato velho (AjAraujo)

 
Sapato velho (AjAraujo)
 
fui, sem antes,
deixar pelo caminho
um pedaço gasto de mim,
graveto da árvore - vida,
quiçá um galho seco

na esperança
que vire um cajado
que ampare,
mesmo por descuido
algum peregrino perdido

com as sandálias rotas,
e o corpo cansado
de longa viagem no deserto,
da própria existência,
curtido pelo tempo

fui, sem antes,
deixar um legado
cadarço solto
do velho sapato
marca do último passo

que amarrava
minhas angústias e medos
preparava meus pés para os destinos
que foram traçados no meu compasso
e que agora preparam meu cadafalso.

AjAraújo, escrito em 7/7/15.

Arte por Van Gogh - Shoes.
 
Sapato velho (AjAraujo)

Os barcos (Thiago de Mello)

 
Os barcos (Thiago de Mello)
 
Os barcos nascem como nascem dores.
E chegam como pássaros ao céu,
como flores do chão. São mensageiros.
Vêm na crista dos astros, vêm de ventres
por onde rolam rastros de cantigas
de antigas barcarolas estaleiras.
Trazem na proa audácias e esperanças,
as cismas e os assombros nos porões.

A mão que os faz, humana, os não perfaz,
apenas segue, tímida, ao comando
de vozes nascituras que lhe chegam
da boca dos martelos e das ripas.
A si mesmos se fazem, pelo mando
de voz sem boca: os barcos são auroras.
Despejam-se na foz de águas escuras.
Contudo, chegam sempre de manhã.

Chegam antes, alguns. Outros são póstumos.
Há os que não chegam nunca: naufragaram
nas primícias do rio. Tantos mastros
se vergam na chegada, outros se racham.
Partem-se popas, lemes, em pelejas
imaginárias contra calmarias.
Uns são velozes, zarpam mal-chegados,
outros são lerdos, de hélices sem sonhos.

Há barcaças nascidas para as idas
ao oco dos mistérios, há as que trazem
lendas futuras presas ao convés,
as que guardam nos remos os roteiros
de grandes descobertas e as que vêm
para vingar galeras soçobradas.
Há as que já chegam velhas, sem navego.

O mar, sempre desperto, espreita e espera
a todos, e de todos se acrescenta.
Para barcos se fez o mar amargo
e fundo, sobretudo se fez verde.
O mar nem sempre os quer. O mar se tranca
frequentemente a barcos, e os roteiros
marítimos se encantam em lajedos,
estraçalhando quilhas e calados.

O coração das caravelas viaja
desfraldado nos mastros, invisível
bandeira também bússola. Altaneiro,
ele surpreende, quando manso, as rotas
que se desenham longes sobre o mar.
Sextante é o coração, que escuta estrelas,
que antes de erguer as âncoras demora-se
em concílio amoroso com os ventos.

O coração comanda. Manda e segue.
E, à sua voz, os barcos obedecem
e avançam, confiantes, pois dos mastros
as velas vão surgindo, vão crescendo
como cresce uma folha de palmeira,
às manobras da brisa sempre dóceis.
De caminhos de barcos sabe o mar.
Os ventos é que sabem dos destinos.

©Thiago de Mello In, Poemas Preferidos
pelo autor e seus leitores, 2001.

Imagem: Claude MONET, Três barcos de pesca.
 
Os barcos (Thiago de Mello)

Asteróides

 
Asteróides
 
"Há acontecimentos que são como pequenos asteróides,
eles riscam o céu noturno quando tudo parecia penumbra,
e a mágica e inesperada luz, ainda que efêmera,
é capaz de irradiar, aquecer no frio noturno
e trazer um outro sentido para a vida,
quando tudo parecia perdido."

AjAraujo, escrito em 21-10-13.

Foto: NASA
 
Asteróides

A Contagem do Tempo Prejudica a Criatividade (Paul Valéry)

 
A Contagem do Tempo Prejudica a Criatividade (Paul Valéry)
 
Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigranas. Para os antigos não existiam minutos ou segundos.
Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde não havia relógios. Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Platão.
Virgílio nunca precisou de correr para apanhar um comboio. Descartes perdeu-se em pensamentos nos canais de Amsterdam.
Hoje, porém, os nossos movimentos são regidos por frações exatas de tempo. Até mesmo a vigésima parte de um segundo começa a não mais ser irrelevante em certas áreas técnicas.

Paul Valéry, in 'A Busca da Inteligência'.
França, 30 Out 1871 // 20 Jul 1945.
Poeta/Ensaísta/Crítico.

Arte: Surreal eye art by Dew Pellucid
 
A Contagem do Tempo Prejudica a Criatividade (Paul Valéry)

Um lugar para ser feliz

 
Um lugar para ser feliz
 
A mim bastaria...
Um recanto em pensamento
Pra viver em harmonia
Na placidez de um lago

A mim levaria...
Em uma viagem d’alma, calmaria
A mergulhar nos portais cósmicos
Em tempos idos e vindos, etéreos

A mim tornaria...
A percorrer montanhas e florestas, toparia
Ouvindo os cânticos de pássaros silvestres
Cruzando vales e planícies terrestres

A mim elevaria...
O espírito inquieto, assim contemplaria
Paradas nas estações celestiais
De minhas buscas incessantes

A mim chegaria...
A luz além sol, quase cegaria
No ritmar de remos em nuvens abissais
Levitando nas elevações espirituais.

AjAraujo, o poeta humanista.

Imagem: Pintura surreal de Rob Goncalves
 
Um lugar para ser feliz

As ruas do golpe (AjAraujo)

 
As ruas do golpe tem cor:
São brancas: mas não são de caras limpas,
Se vestem de amarelo: mas não defendem o pré sal de Monteiro Lobato e seus jeca tatus pra educação e saúde,

Se trajam de verde: mas não espere deles qualquer esperança, não são tangidos pelo desejo de mudança, mas de vingança,
querem de volta o que creem ser seu direito de classe, por herança

As ruas do golpe querem sangrar o vermelho, anemiar como sempre fizeram por séculos o povo sem rosto, que começa a morar dignamente, a ter médico nos sertões, a entrar para a faculdade,do deitado eternamente no berço da miséria

As ruas do golpe tem pacto com a mídia que lhes reforça o ódio de classe, são eles que mimetizam os velhos senhores de engenho travestidos de justiceiros e intolerantes,

Flertam abertamente com a ditadura, homofóbicos e fascistas, que tiram selfies com as forças policiais que outrora foram torturadores,

As ruas do golpe drenam as veias abertas de nossas riquezas enviando pra contas recheadas em paraísos fiscais, pois muitos deles ou invejam os Cunhas ou fazem exatamente como eles,

Se escondem sob um discurso falso moralista mas sonegam impostos, desviam recursos públicos, se locupletam nos privilégios de casta e classe,

As ruas do golpe tem entre seus ídolos picaretas ladrões que os representam no parlamento, autorizados por sentido de classe da Casa Grande,

São eles os impolutos e inocentes das listas blindadas do Moro que irão julgar a presidente cujo crime foi ter derrotado o candidato mais delatado da história deles,

A rua dos golpistas tem sede de injustiça quer ver o Lula tal e qual Tiradentes nas garras do carrasco Moro em seu vestal preto do fascismo que se abate pelo país,

Para eles bolsas deveriam ser privilégios somente para a Casa Grande, como anistias para os seus débitos com o governo, empréstimos para ampliar seus domínios, construir suas mansardas e castelos com recursos dos fundos de amparo ao trabalhador;

As ruas do golpe querem nova tortura para a Dilma a primeira não a matou, tampouco ela aceitou o conselho de renunciar como o Jânio ou se suicidar como Vargas,

As ruas do golpe querem nada menos tudo, nada de democracia, de legalidade, de direitos humanos, de direitos do trabalhador e menos tudo que diga respeito a corrupção de seus pares, como o Poncio "Cunha" Pilatos ou Herodes "Gilmar"

As ruas do golpe no final irão pedir nossas cabeças pois lhes incomodará para sempre - no pouco de consciência que lhes cobrará a conta - a nossa simples existência e tenaz resistência.

AjAraujo, o poeta faz um desabafo em 29 de março de 2016, sobre a situação preocupante do Brasil, no momento em que as velhas forças reacionárias e direitistas tentam de tudo para usurpar o poder legitimamente conquistado nas urnas, afrontando o estado de direito democrático.
 
As ruas do golpe (AjAraujo)

Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)

 
Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)
 
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
 
Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)

A coragem tem nome de anjo: Arcanjo (AjAraujo)

 
Que a forca, que te cala,
Não sublima em nós, a fala,
Contra toda a injustiça desumana
Que ousaste gritar solitário em vida.

Forjaram com ti a queima d´arquivo
Que outrora atingiram outro símbolo
O saudoso e combativo Vladimir
Cabe a nós em uníssono te redimir

E nesta revolta, em uma janela
Um pássaro guia se liberta
Não se ouvirá bater de panela
A imprensa golpista silencia

Mas levaremos teu nome
Como um estandarte da coragem
Pois sabemos que não treme
Ante os vermes da ladroagem...

AjAraujo, o poeta emocionado escreve em 27-3-16, em homenagem a mais uma vítima forjada na forca que culpabilizar de suicídio aquele que em vida teve coragem de denunciar suas safadezas, que a morte de Lucas Arcanjo não fique impune.
 
A coragem tem nome de anjo: Arcanjo (AjAraujo)

Amor de mãe gorila

 
Amor de mãe gorila
 
Amor de mãe gorila,

é de grande pureza,

gentil natureza...

AjAraujo, haicai, em 6-12-14.
 
Amor de mãe gorila

Criminologia (Eduardo Galeano)

 
Criminologia (Eduardo Galeano)
 
A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três milhões de camponeses.

A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez mil trabalhadores.

A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.

Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as guerras, atos normais de canibalismo.

Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que os pobres merecem.

Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine:

"Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não seja pobre?"

Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filet mignon, embora esses pratos apareçam no menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo hambúrguer e batata frita, como de costume.

Eduardo Galeano (1940-2015), jornalista, escritor e cronista uruguaio.

Imagem: Monsanto helped the US military destroy Vietnam with toxic chemicals, and the effects are still with us all these years later. Agent Orange causes conjoined twins -- sometimes conjoined triplets and even quadruplets.
 
Criminologia (Eduardo Galeano)

Canta teu canto, sempre! (AjAraujo)

 
Canta teu canto, sempre! (AjAraujo)
 
Canta!
Não mais que uma nota,
Cante de chapéu ou pires no chão
E depois conta...
algum real, dólar, cruzeiro ou barão.

Canta!
Não mais que uma vida,
Cante repente, cordel ou alguma canção
E depois conta...
a tua cruz nas linhas de tua mão

Canta!
Não mais que uma nota,
Canta não tarda, palavra que não cala, razão
E depois conta...
a todos, tua história, na fração

Canta, cantador!
É abrir-se ao outro, ao coração transborda
É sorrir, chorar, fertilizar o sertão
E depois lança...
as sementes e colher a emoção.

Canta!
Não mais que uma esperança, deseja
Canta para alegrar, nina...
E depois acordar aquela criança
E clamar a todo mundo, paz e perseverança

Canta!
Não mais que uma dança, festeja
Canta para ouvir, sentir e buscar mudança
E depois lança...
As bases de uma nova aliança

Canta!
Não mais que uma palavra,
Canta de lábios abertos, de corpo e alma,
E depois do pranto,
Vem a bonança e a calma.

Canta, cantador!
Não mais que um sentimento,
Canta de mente aberta, e eterniza o momento
E depois do canto,
Vem a chama e o fermento...

AjAraújo, o poeta exorta a gente a sorrir, a cantar, espantar os males, suportar as dores, enxugar o pranto e a viver o canto pleno da existência. Poema escrito em 1980.

Arte: Roberto Chichorro, Moçambique - "Karingana-estórias de era uma vez”, ilustração do livro do poeta José Craveirinha.
 
Canta teu canto, sempre! (AjAraujo)

Despedidas (Affonso Romano de Sant'Anna)

 
Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!

Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant'Anna, poeta.

Imagem: Monte Fuji, e flores de cerejeiras, Japão.
 
Despedidas (Affonso Romano de Sant'Anna)

Ser humilde

 
Ser humilde
 
"Ser humilde não supõe que aja subserviência, indignidade ou humilhação de quaisquer espécies."

AjAraujo, poeta humanista, escrito em 4-Nov-13.
Imagem: Mahtma Gandhi, grande líder libertário hindu.
 
Ser humilde

Prisioneiro do tempo

 
Prisioneiro do tempo
 
Sou prisioneiro do tempo
Percorri vielas de pedras
Onde marchavam legiões romanas
No caminho parou-me um soldado

Estranhou minhas vestes
Indagou a qual tribo eu pertencia
Entre milhares de conquistas
Serei servo ou escravo?

Sou prisioneiro do tempo
Com ele naveguei nas marés
Naus vikings ou fenícias
Gente do oriente ou galês

Sou prisioneiro do tempo
Lutei em batalhas históricas
Atravessei épocas, epopéias
Da tragédia grega ao circo romano

Sou prisioneiro do tempo
No Monte das Oliveiras
Testemunhei o surgimento do Cristo
E chorei na via-sacra do Messias

Sou prisioneiro do tempo
Fui com Marco Pólo até a China
Com Colombo ingressei no novo mundo
Nas caravelas portuguesas cheguei à Índia

Sou prisioneiro do tempo
Do absolutismo às cruzadas
Do fogo da inquisição à reforma de Lutero
Do iluminismo às guerras mundiais

Sou prisioneiro do tempo
Do fim do regime feudal
Ao surgimento da revolução industrial
Do trem a vapor ao colonial domínio

Sou prisioneiro do tempo
No século XX, vi aumentar a intolerância
Do extermínio de milhões do povo judaico
Da bomba de Hiroxima às prisões da Sibéria

Sou prisioneiro do tempo
Vi o genocídio de coreanos e vietnamitas,
Refugiados bósnios, africanos, curdos
Nas lutas separatistas e por ódio étnico

Como prisioneiro do tempo
Com as amarras nos ciclos históricos
Sofro ante a repetição dos dramas humanos
Onde não se pode culpar o tempo tampouco o destino.

AjAraújo, agosto de 2009.
 
Prisioneiro do tempo

Vou deixando pelo caminho (AjAraujo)

 
Vou deixando pelo caminho (AjAraujo)
 
“Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amarmos alguém. ” (Mia Couto)

Vou deixando pelo caminho,
Papéis, recortes, retratos,
Instantâneos que são o marco
De tantas passagens,
De mil cruzamentos na vida

Vou deixando pelo caminho,
Lembranças, dores, flores,
Momentos que são o sentido
De tantos encontros
E poucos desencontros

Vou deixando pelo caminho,
Desaforos, raivas, alegrias
Rompantes de aprendizado
De tantas e inevitáveis perdas,
Mas, com significativos ganhos...

AjAraújo, o poeta humanista, escrito em abril de 2010.
 
Vou deixando pelo caminho (AjAraujo)