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Poemas, frases e mensagens de AjAraujo

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de AjAraujo

Revolução (Fidel Castro)

 
Revolução (Fidel Castro)
 
É sentido de momento histórico;
é mudar tudo o que deve
ser mudado;

... é igualdade e liberdade plenas;
é ser tratado e tratar aos demais
como seres humanos;

é emancipar-nos por nós mesmos
e com nossos próprios esforços;
é desafiar poderosas forças

dominantes dentro e fora
do âmbito social e nacional;
é defender valores nos quais se crê

ao preço de qualquer sacrifício;
é modéstia, desinteresse, altruísmo,
solidariedade e heroísmo;

é lutar com audácia,
inteligência e realismo;
é não mentir jamais

nem violar princípios éticos;
é convicção profunda
de que não existe força no mundo

capaz de esmagar
a força da verdade e as ideias.
REVOLUÇÃO é unidade,

é independência,
é lutar por nossos sonhos de justiça
para Cuba e para o mundo,

que é a base de nosso patriotismo,
nosso socialismo
e nosso internacionalismo.

Fidel Castro Ruz (1926-2016), grande líder revolucionário cubano.
 
Revolução (Fidel Castro)

Ah! Os relógios (Mário Quintana)

 
Ah! Os relógios (Mário Quintana)
 
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

Mário Quintana, poeta gaúcho, in: "A cor do invisível"

Arte surrealista por Marcel Caram
 
Ah! Os relógios (Mário Quintana)

As ruas do golpe (AjAraujo)

 
As ruas do golpe tem cor:
São brancas: mas não são de caras limpas,
Se vestem de amarelo: mas não defendem o pré sal de Monteiro Lobato e seus jeca tatus pra educação e saúde,

Se trajam de verde: mas não espere deles qualquer esperança, não são tangidos pelo desejo de mudança, mas de vingança,
querem de volta o que creem ser seu direito de classe, por herança

As ruas do golpe querem sangrar o vermelho, anemiar como sempre fizeram por séculos o povo sem rosto, que começa a morar dignamente, a ter médico nos sertões, a entrar para a faculdade,do deitado eternamente no berço da miséria

As ruas do golpe tem pacto com a mídia que lhes reforça o ódio de classe, são eles que mimetizam os velhos senhores de engenho travestidos de justiceiros e intolerantes,

Flertam abertamente com a ditadura, homofóbicos e fascistas, que tiram selfies com as forças policiais que outrora foram torturadores,

As ruas do golpe drenam as veias abertas de nossas riquezas enviando pra contas recheadas em paraísos fiscais, pois muitos deles ou invejam os Cunhas ou fazem exatamente como eles,

Se escondem sob um discurso falso moralista mas sonegam impostos, desviam recursos públicos, se locupletam nos privilégios de casta e classe,

As ruas do golpe tem entre seus ídolos picaretas ladrões que os representam no parlamento, autorizados por sentido de classe da Casa Grande,

São eles os impolutos e inocentes das listas blindadas do Moro que irão julgar a presidente cujo crime foi ter derrotado o candidato mais delatado da história deles,

A rua dos golpistas tem sede de injustiça quer ver o Lula tal e qual Tiradentes nas garras do carrasco Moro em seu vestal preto do fascismo que se abate pelo país,

Para eles bolsas deveriam ser privilégios somente para a Casa Grande, como anistias para os seus débitos com o governo, empréstimos para ampliar seus domínios, construir suas mansardas e castelos com recursos dos fundos de amparo ao trabalhador;

As ruas do golpe querem nova tortura para a Dilma a primeira não a matou, tampouco ela aceitou o conselho de renunciar como o Jânio ou se suicidar como Vargas,

As ruas do golpe querem nada menos tudo, nada de democracia, de legalidade, de direitos humanos, de direitos do trabalhador e menos tudo que diga respeito a corrupção de seus pares, como o Poncio "Cunha" Pilatos ou Herodes "Gilmar"

As ruas do golpe no final irão pedir nossas cabeças pois lhes incomodará para sempre - no pouco de consciência que lhes cobrará a conta - a nossa simples existência e tenaz resistência.

AjAraujo, o poeta faz um desabafo em 29 de março de 2016, sobre a situação preocupante do Brasil, no momento em que as velhas forças reacionárias e direitistas tentam de tudo para usurpar o poder legitimamente conquistado nas urnas, afrontando o estado de direito democrático.
 
As ruas do golpe (AjAraujo)

Profundamente (Manuel Bandeira)

 
Profundamente (Manuel Bandeira)
 
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Manuel Bandeira (1886-1968): uma homenagem aos 49 anos da partida para Pasárgada de nosso querido poeta (13/10/1968).

Texto extraído do livro "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, pág. 81.

Arte por Majane Silveira.
 
Profundamente (Manuel Bandeira)

Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)

 
Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)
 
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
 
Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)

O que sobra? (AjAraujo)

 
O que sobra? (AjAraujo)
 
tudo passa,
é bom que passe,

se pouco fica,
é bom que desapegue,

se nada sobra,
é bom que perece,

mas se algo sobra,
é bom que recomece...

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em janeiro de 2015.

Arte surreal por Pieter Van Tonder
 
O que sobra? (AjAraujo)

Ode a Marielle (AjAraujo)

 
Aqui, nas ruas da cidade
tomadas pelo povo triste
se encontra o verdadeiro
sentimento libertário,
de justiça e solidariedade.

Esta imagem simboliza
uma vida que não morre,
mesmo que tomada,
matada, severina;

flor arrancada
pelas mãos sujas de tiranos,
golpistas, enganadores.
ainda tem cálido perfume

É aqui neste palco
que se revive
no silêncio da dor
o espetáculo de luta;

e todos precisamos,
urge, erguer as bandeiras
que Marielle nos legou,
sair desta inércia paralisante

Que este crime bárbaro
não nos intimide, a voltar as ruas,
covardes sim, foram os autores
dos disparos e seus mandantes.

AjAraújo, o poeta humanista, escrito em 15 de março de 2018, em homenagem a socióloga, ativista pelos direitos humanos e vereadora Marielle Franco, assassinada cruelmente no Rio.
 
Ode a Marielle (AjAraujo)

O poeta que protesta

 
O poeta que protesta
 
sou o poeta
que protesta,

que não se contenta
com quem não enfrenta

sou o poeta
que detesta,

que não se abala
com quem não luta

sou o poeta
que atesta

que não se atrela
com quem não presta

sou o poeta,
que testa,

que não se cala
com quem não confronta.

AjAraujo, o poeta humanista, poesia em homenagem ao poeta Walt Whitman.

Imagem: Walt Whitman.
 
O poeta que protesta

Amor de mãe gorila

 
Amor de mãe gorila
 
Amor de mãe gorila,

é de grande pureza,

gentil natureza...

AjAraujo, haicai, em 6-12-14.
 
Amor de mãe gorila

Criminologia (Eduardo Galeano)

 
Criminologia (Eduardo Galeano)
 
A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três milhões de camponeses.

A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez mil trabalhadores.

A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.

Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as guerras, atos normais de canibalismo.

Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que os pobres merecem.

Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine:

"Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não seja pobre?"

Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filet mignon, embora esses pratos apareçam no menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo hambúrguer e batata frita, como de costume.

Eduardo Galeano (1940-2015), jornalista, escritor e cronista uruguaio.

Imagem: Monsanto helped the US military destroy Vietnam with toxic chemicals, and the effects are still with us all these years later. Agent Orange causes conjoined twins -- sometimes conjoined triplets and even quadruplets.
 
Criminologia (Eduardo Galeano)

Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)

 
Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)
 
Me vem, há dias, uma vontade ubérrima, política,
de querer, de beijar o carinho em seus dois rostos,
e me vem de longe um querer
demonstrativo, outro querer amar, de grau ou força,
ao que me odeia, ao que rasga seu papel, ao menino,
ao que chora pelo que chorava,
ao rei do vinho, ao escravo da água,
ao que ocultou-se em sua ira,
ao que sua, ao que passa, ao sacode sua pessoa em minha alma.
E quero, portanto, dar guarita
ao que me fala, à sua trança, aos seus cabelos, ao soldado;
Quero, pessoalmente, passar a ferro
o lenço do que não pode chorar
e, quando estou triste e me dói a sentença
remendar os enjeitados e os gênios.

Quero ajudar o bom a ser o seu pouquinho de mal
e me urge estar sentado
à direita do canhoto e responder ao mudo,
tratando de ser-lhe útil no
que posso e também quero muitíssimo
lavar os pés do coxo,
e ajudar o vesgo, meu próximo, a dormir.

Ah! querer, este meu, este, mundial,
inter-humano e paroquial, maduro!
Me vem no ponto,
desde as fundações, desde a virilha pública,
e, vindo de longe, dá vontade de beijar
o cachecol do cantor,
a frigideira do que sofre,
ao surdo em seu impávido rumor craniano;
ao que me dá o que esqueci em meu âmago,
em seu Dante, em seu Chaplin, em seus ombros.

E para terminar, quero,
quando estou à beira da célebre violência
ou pleno de peito o coração, queria
ajudar o que sorri a escarnecer,
por um passarinho bem na nuca do malvado,
Cuidar dos enfermos, enfadando-os,
comprar o vendedor,
ajudar a matar o matador - coisa terrível -
e quisera ser bom comigo mesmo
em tudo.

César Vallejo (1893-1938), poeta peruano de origem indígena. Viveu na França a partir de 1923. Sua obra, de acentuada experimentação estética, abordou temas sociais e políticos de seu tempo, como a guerra civil espanhola. Publicou, entre outros títulos, Os arautos negros (1918), Trilce (1922) e Poemas humanos (1939).

Tradução: Antônio Moura

Imagem: Salvador Dalí
 
Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)

Acalentar (AjAraujo)

 
Acalentar (AjAraujo)
 
embalo as flores,

de todos os amores,

bebê de mil cores...

AjAraujo, haicai inspirado na bela pintura
de Felice Casorati.

Pintura: Figlia dal purgatotio, 1917 by Felice Casorati(Italian 1883ー1963)
 
Acalentar (AjAraujo)

Abraço generoso - presente de Natal (AjAraujo)

 
Abraço generoso - presente de Natal (AjAraujo)
 
Feliz Natal - com muitos abraços, o melhor presente!

Aproveite esta noite de Natal,
dê e colha muitos abraços!
Abra a caixa de presentes
de sua generosa alma

E comece bem este dia especial,
Se abrindo para inúmeros encontros
Os programados e os inesperados
Solte os ombros, estenda os braços

Inspire fundo, massageie o diafragma
E viva cada instante como único e precioso
Em cada abraço, há uma energia poderosa
Capaz de nos tornar mais humanos,

- condição ou batalha que estamos perdendo
nos últimos tempos com agressões
gratuitas, ódio, intolerância... -
Então, o que estamos esperando?

O abraço forte ou delicado, ousado ou atrevido,
Sincero e amoroso, é a melhor fonte de carinho
É o melhor presente de natal que se pode dar
Pois simboliza a amizade, a reciprocidade,

Cristo abria os braços para receber os pescadores,
Para curar Lázaro, perdoar o cobrador de impostos,
Para acolher a Madalena, para entregar-se a Maria.
Então, o que está esperando? Vamos abrace-me!

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em 24-12-15.
 
Abraço generoso - presente de Natal (AjAraujo)

Liberdade não é conter-se, é saber se controlar - pensamentos [1-25] (Fiodor Dostoievski)

 
Liberdade não é conter-se, é saber se controlar - pensamentos [1-25] (Fiodor Dostoievski)
 
I.
"Devemos amar mais a vida do que o sentido da vida."

II.
"Nenhum dos dois dará o primeiro passo porque ambos pensam que não é mútuo."

III.
"Tudo tem uma linha e cruzá-la é perigoso; uma vez cruzada, é impossível voltar atrás."

IV.
"Felicidade é saber alcançar a felicidade."

V.
"O povo aproveita o próprio sofrimento."

VI.
"Parar de ler livros é parar de pensar."

VII.
"Liberdade não é conter-se, é saber se controlar."

VIII.
"Não há felicidade na comodidade; a felicidade se compra com o sofrimento."

IX.
"Em um coração que ama de verdade, ou o ciúme mata o amor, ou o amor mata o ciúme."

X.
"Não é preciso muito para matar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz."

XI.
"Meu amigo, lembre-se: ficar em silêncio é bom, seguro e bonito.'

XII.
"Um escritor cujas obras não fizeram sucesso, facilmente se transforma em um crítico ácido; como um vinho ruim e sem sabor que se transforma em vinagre."

XIII.
"É uma pessoa inteligente, mas para agir com inteligência, ela não é suficiente."

XIV.
"Se, ao tentar alcançar um objetivo, você parar para jogar pedras em cada cachorro que latir, você nunca vai chegar ao final."

XV.
"Quero poder falar de tudo com pelo menos uma pessoa, até comigo mesmo."

XVI.
"É surpreendente o que um raio de sol pode fazer com a alma humana!"

XVII.
"É preciso falar cara a cara para poder ler a alma no rosto, para que o coração soe em palavras. Uma palavra dita com convicção, com plena sinceridade e sem medo, vale muito mais que dez folhas de papel cobertas de palavras."

XVIII.
"A vida é salva sem um propósito."

XIX.
"A alma se cura ao lado das crianças."

XX.
"Quem quer ser útil, até com as mãos atadas pode fazer o bem."

XXI.
"A beleza salvará o mundo."

XXII.
"Às vezes, se fala na brutalidade animal do ser humano, mas isso é incrivelmente injusto e insultante para as feras; um animal nunca poderia ser tão cruel como o ser humano, tão artisticamente cruel."

XXIII.
"Os adultos não sabem que uma criança pode dar um conselho extremamente importante até em um assunto super complicado."

XXIV.
"Não encha a sua memória com rancores para que não falte espaço para os momentos bonitos."

XXV.
"A pessoa que sabe abraçar é uma boa pessoa."

Fiodor Dostoievski, escritor russo, citações selecionadas.
Dostoiévski foi um escritor que penetrou nos cantos mais escuros da alma russa. Ele é considerado um psicólogo da escrita e um pesquisador do coração humano, porque compadecia o sofrimento dos seus personagens. O que eles sentiam, ele havia conhecido na própria pele.
Fonte: Incrivel.club
 
Liberdade não é conter-se, é saber se controlar - pensamentos [1-25] (Fiodor Dostoievski)

Arte poética (Jorge Luís Borges)

 
Arte poética (Jorge Luís Borges)
 
Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.

Perceber que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que é sono, que é sonho.

Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo
dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, entrever no ocaso
Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.

Às vezes durante as tardes um rosto
Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges, em poema magnífico, sobre a transcendência.
 
Arte poética (Jorge Luís Borges)

O que você tem feito? ¿y tu quê hás hecho? (Heloísa Buarque de Hollanda)

 
O que você tem feito? ¿y tu quê hás hecho? (Heloísa Buarque de Hollanda)
 
o que você tem feito?
tem feito a cabeça,
as ideias, os sonhos de alguém?

qual é mesmo o seu jeito?
objeto, sujeito?
é espírito, é matéria?
já chegou a ninguém?

inventou sua quimera?
é o mal?
é o bem?
tem juízo perfeito?
acredita em vida eterna?
disse ou não disse amém?

vai ficar
ou é de férias
que você vem?

Traducido para castellano:
por Teresa Arijón

¿y tu quê hás hecho?
¿has hecho la cabeza,
las ideas, los sueños de alguien?

¿cuál seria tu clave?
¿sujeto, objeto?
tespíritu, matéria?
¿le hás llegado a nadie?

¿has inventado tu quimera?
¿es el mal?
¿es el bien?
¿estás en tu sano juicio?
¿crees en la vida eterna?
¿dices o no dices amén?

¿quedarte quieres
o solo
de vacaciones vienes?

Heloísa Buarque de Hollanda, poetisa, In: Otra línea de fuego - Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas.
Traducción de Teresa Arijón. Edición bilingüe.
Málaga: Maremoto; Servicio de Publicaciones, Centro de Edciones de la Diputación de Málaga, 2009. 291 p

Arte surreal por Jim Warren.
 
O que você tem feito? ¿y tu quê hás hecho? (Heloísa Buarque de Hollanda)

A medida

 
A medida
 
"Não me peça, que em ti meça, a vontade

e a liberdade."

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em 23-7-13.
 
A medida

O azulão e os tico-ticos (Catullo da Paixão Cearense)

 
O azulão e os tico-ticos (Catullo da Paixão Cearense)
 
Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorgeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"

© Catullo da Paixão Cearense (1863-1943), compositor e poeta nascido no Maranhão.
 
O azulão e os tico-ticos (Catullo da Paixão Cearense)

Se (Professor Hermógenes)

 
Se (Professor Hermógenes)
 
Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia…

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser…

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo…
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou…

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio…

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu…

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia…

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim…

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito…

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz…

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou…

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

( Professor Hermógenes )
(poema conferido no Instituto Hermógenes)

Professor Hermógenes, poema transcrito do Instituto Hermógenes.
 
Se (Professor Hermógenes)

Despertai!

 
despertai,
o dia ainda
é café pouco,
resta tampouco
alguma loucura...

despertai,
acordar ainda
é muito pouco,
resta um arcabouço
alguma procura...

despertai,
o dia ainda
é café louco,
resta um calabouço
alguma secura...

despertai,
o dia ainda
é muito mouco
resta um rouco
alguma doçura...

AjAraujo, escrito em 20 de maio de 2018.
 
Despertai!