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Poemas, frases e mensagens de AjAraujo

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de AjAraujo

Revolução (Fidel Castro)

 
Revolução (Fidel Castro)
 
É sentido de momento histórico;
é mudar tudo o que deve
ser mudado;

... é igualdade e liberdade plenas;
é ser tratado e tratar aos demais
como seres humanos;

é emancipar-nos por nós mesmos
e com nossos próprios esforços;
é desafiar poderosas forças

dominantes dentro e fora
do âmbito social e nacional;
é defender valores nos quais se crê

ao preço de qualquer sacrifício;
é modéstia, desinteresse, altruísmo,
solidariedade e heroísmo;

é lutar com audácia,
inteligência e realismo;
é não mentir jamais

nem violar princípios éticos;
é convicção profunda
de que não existe força no mundo

capaz de esmagar
a força da verdade e as ideias.
REVOLUÇÃO é unidade,

é independência,
é lutar por nossos sonhos de justiça
para Cuba e para o mundo,

que é a base de nosso patriotismo,
nosso socialismo
e nosso internacionalismo.

Fidel Castro Ruz (1926-2016), grande líder revolucionário cubano.
 
Revolução (Fidel Castro)

As ruas do golpe (AjAraujo)

 
As ruas do golpe tem cor:
São brancas: mas não são de caras limpas,
Se vestem de amarelo: mas não defendem o pré sal de Monteiro Lobato e seus jeca tatus pra educação e saúde,

Se trajam de verde: mas não espere deles qualquer esperança, não são tangidos pelo desejo de mudança, mas de vingança,
querem de volta o que creem ser seu direito de classe, por herança

As ruas do golpe querem sangrar o vermelho, anemiar como sempre fizeram por séculos o povo sem rosto, que começa a morar dignamente, a ter médico nos sertões, a entrar para a faculdade,do deitado eternamente no berço da miséria

As ruas do golpe tem pacto com a mídia que lhes reforça o ódio de classe, são eles que mimetizam os velhos senhores de engenho travestidos de justiceiros e intolerantes,

Flertam abertamente com a ditadura, homofóbicos e fascistas, que tiram selfies com as forças policiais que outrora foram torturadores,

As ruas do golpe drenam as veias abertas de nossas riquezas enviando pra contas recheadas em paraísos fiscais, pois muitos deles ou invejam os Cunhas ou fazem exatamente como eles,

Se escondem sob um discurso falso moralista mas sonegam impostos, desviam recursos públicos, se locupletam nos privilégios de casta e classe,

As ruas do golpe tem entre seus ídolos picaretas ladrões que os representam no parlamento, autorizados por sentido de classe da Casa Grande,

São eles os impolutos e inocentes das listas blindadas do Moro que irão julgar a presidente cujo crime foi ter derrotado o candidato mais delatado da história deles,

A rua dos golpistas tem sede de injustiça quer ver o Lula tal e qual Tiradentes nas garras do carrasco Moro em seu vestal preto do fascismo que se abate pelo país,

Para eles bolsas deveriam ser privilégios somente para a Casa Grande, como anistias para os seus débitos com o governo, empréstimos para ampliar seus domínios, construir suas mansardas e castelos com recursos dos fundos de amparo ao trabalhador;

As ruas do golpe querem nova tortura para a Dilma a primeira não a matou, tampouco ela aceitou o conselho de renunciar como o Jânio ou se suicidar como Vargas,

As ruas do golpe querem nada menos tudo, nada de democracia, de legalidade, de direitos humanos, de direitos do trabalhador e menos tudo que diga respeito a corrupção de seus pares, como o Poncio "Cunha" Pilatos ou Herodes "Gilmar"

As ruas do golpe no final irão pedir nossas cabeças pois lhes incomodará para sempre - no pouco de consciência que lhes cobrará a conta - a nossa simples existência e tenaz resistência.

AjAraujo, o poeta faz um desabafo em 29 de março de 2016, sobre a situação preocupante do Brasil, no momento em que as velhas forças reacionárias e direitistas tentam de tudo para usurpar o poder legitimamente conquistado nas urnas, afrontando o estado de direito democrático.
 
As ruas do golpe (AjAraujo)

O médico cubano, o charuto e o arroto tupiniquim (cordel)

 
O médico cubano, o charuto e o arroto tupiniquim (cordel)
 
Meu caro amigo,
O médico só é cubano,
Ele não porta charuto,
Nem fuma (protege o tabaco)
[como em nosso governo]

O que a pequena ilha caribenha
Produz de tabaco em folha
Em nada se compara
Ao que o Brasil exporta

Se em Cuba há médicos fumantes
Aqui em terras tupiniquins
Também os há, e não são poucos
Aqueles que se tornaram dependentes

Que a nossa "desinformação"
sobre o preparo dos charutos
e dos médicos cubanos
não leve a julgamentos precipitados

Estes médicos cubanos
Já estiveram em muitas frentes
na África e na Ásia,
cuidando de gente refugiada

Das guerras sem fim..
Eles não vivem em país capitalista
Não vieram por motivo monetarista
E irão servir em terras do sem fim

Onde poucos médicos brasileiros
Ousariam fincar os pés
No exercício da arte que abraçaram
Nem por onze mil reais, casa e comida.

A decisão deles é humanitária
Cuba tem total soberania
E não lambe os pés do imperialismo
Apesar de todo o bloqueio imposto

A saúde dos cubanos
tem os melhores indicadores
de toda as Américas,
Quem avalia é a OMS

Quem tiver alguma dúvida
E não estiver contaminado
pela mídia capitalista
Verá que está se cometendo

um grande equívoco
Com esta postura racista
e xenofóbica contra um povo
que derrotou Fulgêncio Batista

Só porque foi corajoso
de fazer uma revolução
Derrubando um tirano
perverso e sanguinário

E conquistaram o pleno direito
apesar do bloqueio imposto
de tornar Cuba um país soberano,
Livre do séquito jugo americano

Da exploração de sangue
e derivados pras multinacionais
Das jogatinas dos cassinos
e da prostituição em rede

Mas, caro amigo, sem mimimi
Esta ilha te incomoda bastante,
porque preferes visitar Miami,
Flórida de Disney e Nova Iorque

Sabes, porquê?
Porque vivemos e assimilamos
modos de viver capitalistas,
o tal do "American way life"

E assim, fica difícil compreender
o pequeno país socialista produzir
vacinas e tecnologias de ponta,
ter pobreza, mas não ter miséria

E ter analfabetismo zero
formar o verdadeiro médico
Comprometido com a saúde pública
enfrentando o Ébola na África

Médicos de todas as cores,
com formação acessível a todos,
sem discriminação de credos,
poder, ideologia, sexo, etc...

E nós é que deveríamos
agradecer a eles,
Por cobrirem uma lacuna,
que nós, brasileiros,

não fomos capazes de suprir,
por nos concentrarmos
em grandes centros e praticar
esta medicina de muitos empregos,

De pouca efetividade,
e de baixa resolutividade,
apesar de toda a tecnologia
que dispomos - pra quem paga

o que nos torna muito dependentes
de exames complementares
e de há muito não alcançamos
os nossos pontos nevrálgicos

Porque já pouco ou nada tocamos
as pessoas - muito pacientes -
Porque já estamos cansados
de sermos explorados,

Que ao invés de olharmos
Para os nossos próprios umbigos
Ficamos como ventríloquos
Repetindo estúpidas palavras,

Essa cantilena contra os estrangeiros
- ou melhor, somente para cubanos -
ninguém faz graça com médicos
De outras nacionalidades

Que os cubanos definam
suas prioridades com autonomia.
com sua altivez e soberania,
a liberdade que conquistaram

Enquanto nós aqui, incomodados,
revolucionários sem causa,
com o regime da pequena ilha,
"democraticamente" a quem elegemos?

seja pelo voto de fé de cabresto,
pelo fake contaminado, disseminado
por caixa dois no zap financiado
pelas grandes corporações abençoado

Perdoe pela longa missiva
Meu caro amigo, mas creia,
Ainda bem que os médicos cubanos
toparam vir para os nossos rincões

Eles podem até fumar charutos
Mas irão cuidar de nossa gente
tão desassistida em regiões
As mais remotas do país continente

E a única revolução que eles,
de fato, farão - se não impedirmos
por nossa ignorância e miopia -
será a da saúde pública,

Aliás, esta saúde coletiva
que por má fé e ignorância política
rotulamos de medicina socialista
e que não praticamos há muito tempo...

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em setembro de 2013, a propósito da chegada de médicos cubanos ao Brasil
com a missão de trabalhar em regiões e cidades do interior do país, no programa "MaisMédicos" do governo federal.

* Atualizada com a eleição do governo que antes mesmo de assumir já rompeu o contrato com a OPAS e Cuba que permitia a mais de 8.500 médicos cubanos assistirem populações indígenas, ribeirinhas e localizadas nos sertões do país, gente que viu médico pela primeira vez nada vida.
 
O médico cubano, o charuto e o arroto tupiniquim (cordel)

Nós, os espantalhos

 
nós, os espantalhos,
já não mais espantamos
aves de rapina, somos poleiros

nós, os espantalhos,
já não mais protegemos,
os trigais, de corvos,

nós, os espantalhos,
já não mais reconhecemos
os arados, nos terrenos áridos

nós, os espantalhos,
já não mais espirramos
os odores dos pesticidas

nós, os espantalhos,
já não mais servimos
pra defender nossos campesinos...

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em 20 de outubro de 2018.
 
Nós, os espantalhos

O que sobra? (AjAraujo)

 
O que sobra? (AjAraujo)
 
tudo passa,
é bom que passe,

se pouco fica,
é bom que desapegue,

se nada sobra,
é bom que perece,

mas se algo sobra,
é bom que recomece...

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em janeiro de 2015.

Arte surreal por Pieter Van Tonder
 
O que sobra? (AjAraujo)

Ode a Marielle (AjAraujo)

 
Aqui, nas ruas da cidade
tomadas pelo povo triste
se encontra o verdadeiro
sentimento libertário,
de justiça e solidariedade.

Esta imagem simboliza
uma vida que não morre,
mesmo que tomada,
matada, severina;

flor arrancada
pelas mãos sujas de tiranos,
golpistas, enganadores.
ainda tem cálido perfume

É aqui neste palco
que se revive
no silêncio da dor
o espetáculo de luta;

e todos precisamos,
urge, erguer as bandeiras
que Marielle nos legou,
sair desta inércia paralisante

Que este crime bárbaro
não nos intimide, a voltar as ruas,
covardes sim, foram os autores
dos disparos e seus mandantes.

AjAraújo, o poeta humanista, escrito em 15 de março de 2018, em homenagem a socióloga, ativista pelos direitos humanos e vereadora Marielle Franco, assassinada cruelmente no Rio.
 
Ode a Marielle (AjAraujo)

O azulão e os tico-ticos (Catullo da Paixão Cearense)

 
O azulão e os tico-ticos (Catullo da Paixão Cearense)
 
Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorgeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"

© Catullo da Paixão Cearense (1863-1943), compositor e poeta nascido no Maranhão.
 
O azulão e os tico-ticos (Catullo da Paixão Cearense)

Se (Professor Hermógenes)

 
Se (Professor Hermógenes)
 
Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia…

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser…

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo…
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou…

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio…

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu…

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia…

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim…

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito…

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz…

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou…

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

( Professor Hermógenes )
(poema conferido no Instituto Hermógenes)

Professor Hermógenes, poema transcrito do Instituto Hermógenes.
 
Se (Professor Hermógenes)

Sapato velho (AjAraujo)

 
Sapato velho (AjAraujo)
 
fui, sem antes,
deixar pelo caminho
um pedaço gasto de mim,
graveto da árvore - vida,
quiçá um galho seco

na esperança
que vire um cajado
que ampare,
mesmo por descuido
algum peregrino perdido

com as sandálias rotas,
e o corpo cansado
de longa viagem no deserto,
da própria existência,
curtido pelo tempo

fui, sem antes,
deixar um legado
cadarço solto
do velho sapato
marca do último passo

que amarrava
minhas angústias e medos
preparava meus pés para os destinos
que foram traçados no meu compasso
e que agora preparam meu cadafalso.

AjAraújo, escrito em 7/7/15.

Arte por Van Gogh - Shoes.
 
Sapato velho (AjAraujo)

Canta teu canto, sempre! (AjAraujo)

 
Canta teu canto, sempre! (AjAraujo)
 
Canta!
Não mais que uma nota,
Cante de chapéu ou pires no chão
E depois conta...
algum real, dólar, cruzeiro ou barão.

Canta!
Não mais que uma vida,
Cante repente, cordel ou alguma canção
E depois conta...
a tua cruz nas linhas de tua mão

Canta!
Não mais que uma nota,
Canta não tarda, palavra que não cala, razão
E depois conta...
a todos, tua história, na fração

Canta, cantador!
É abrir-se ao outro, ao coração transborda
É sorrir, chorar, fertilizar o sertão
E depois lança...
as sementes e colher a emoção.

Canta!
Não mais que uma esperança, deseja
Canta para alegrar, nina...
E depois acordar aquela criança
E clamar a todo mundo, paz e perseverança

Canta!
Não mais que uma dança, festeja
Canta para ouvir, sentir e buscar mudança
E depois lança...
As bases de uma nova aliança

Canta!
Não mais que uma palavra,
Canta de lábios abertos, de corpo e alma,
E depois do pranto,
Vem a bonança e a calma.

Canta, cantador!
Não mais que um sentimento,
Canta de mente aberta, e eterniza o momento
E depois do canto,
Vem a chama e o fermento...

AjAraújo, o poeta exorta a gente a sorrir, a cantar, espantar os males, suportar as dores, enxugar o pranto e a viver o canto pleno da existência. Poema escrito em 1980.

Arte: Roberto Chichorro, Moçambique - "Karingana-estórias de era uma vez”, ilustração do livro do poeta José Craveirinha.
 
Canta teu canto, sempre! (AjAraujo)

Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)

 
Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)
 
Me vem, há dias, uma vontade ubérrima, política,
de querer, de beijar o carinho em seus dois rostos,
e me vem de longe um querer
demonstrativo, outro querer amar, de grau ou força,
ao que me odeia, ao que rasga seu papel, ao menino,
ao que chora pelo que chorava,
ao rei do vinho, ao escravo da água,
ao que ocultou-se em sua ira,
ao que sua, ao que passa, ao sacode sua pessoa em minha alma.
E quero, portanto, dar guarita
ao que me fala, à sua trança, aos seus cabelos, ao soldado;
Quero, pessoalmente, passar a ferro
o lenço do que não pode chorar
e, quando estou triste e me dói a sentença
remendar os enjeitados e os gênios.

Quero ajudar o bom a ser o seu pouquinho de mal
e me urge estar sentado
à direita do canhoto e responder ao mudo,
tratando de ser-lhe útil no
que posso e também quero muitíssimo
lavar os pés do coxo,
e ajudar o vesgo, meu próximo, a dormir.

Ah! querer, este meu, este, mundial,
inter-humano e paroquial, maduro!
Me vem no ponto,
desde as fundações, desde a virilha pública,
e, vindo de longe, dá vontade de beijar
o cachecol do cantor,
a frigideira do que sofre,
ao surdo em seu impávido rumor craniano;
ao que me dá o que esqueci em meu âmago,
em seu Dante, em seu Chaplin, em seus ombros.

E para terminar, quero,
quando estou à beira da célebre violência
ou pleno de peito o coração, queria
ajudar o que sorri a escarnecer,
por um passarinho bem na nuca do malvado,
Cuidar dos enfermos, enfadando-os,
comprar o vendedor,
ajudar a matar o matador - coisa terrível -
e quisera ser bom comigo mesmo
em tudo.

César Vallejo (1893-1938), poeta peruano de origem indígena. Viveu na França a partir de 1923. Sua obra, de acentuada experimentação estética, abordou temas sociais e políticos de seu tempo, como a guerra civil espanhola. Publicou, entre outros títulos, Os arautos negros (1918), Trilce (1922) e Poemas humanos (1939).

Tradução: Antônio Moura

Imagem: Salvador Dalí
 
Há dias me vem uma vontade ubérrima, política [poetas peruanos] (Cesar VALLEJO)

Abraço generoso - presente de Natal (AjAraujo)

 
Abraço generoso - presente de Natal (AjAraujo)
 
Feliz Natal - com muitos abraços, o melhor presente!

Aproveite esta noite de Natal,
dê e colha muitos abraços!
Abra a caixa de presentes
de sua generosa alma

E comece bem este dia especial,
Se abrindo para inúmeros encontros
Os programados e os inesperados
Solte os ombros, estenda os braços

Inspire fundo, massageie o diafragma
E viva cada instante como único e precioso
Em cada abraço, há uma energia poderosa
Capaz de nos tornar mais humanos,

- condição ou batalha que estamos perdendo
nos últimos tempos com agressões
gratuitas, ódio, intolerância... -
Então, o que estamos esperando?

O abraço forte ou delicado, ousado ou atrevido,
Sincero e amoroso, é a melhor fonte de carinho
É o melhor presente de natal que se pode dar
Pois simboliza a amizade, a reciprocidade,

Cristo abria os braços para receber os pescadores,
Para curar Lázaro, perdoar o cobrador de impostos,
Para acolher a Madalena, para entregar-se a Maria.
Então, o que está esperando? Vamos abrace-me!

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em 24-12-15.
 
Abraço generoso - presente de Natal (AjAraujo)

Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)

 
Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)
 
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
 
Chove. É dia de Natal (Fernando Pessoa)

Arte poética (Jorge Luís Borges)

 
Arte poética (Jorge Luís Borges)
 
Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.

Perceber que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que é sono, que é sonho.

Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo
dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, entrever no ocaso
Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.

Às vezes durante as tardes um rosto
Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges, em poema magnífico, sobre a transcendência.
 
Arte poética (Jorge Luís Borges)

O que você tem feito? ¿y tu quê hás hecho? (Heloísa Buarque de Hollanda)

 
O que você tem feito? ¿y tu quê hás hecho? (Heloísa Buarque de Hollanda)
 
o que você tem feito?
tem feito a cabeça,
as ideias, os sonhos de alguém?

qual é mesmo o seu jeito?
objeto, sujeito?
é espírito, é matéria?
já chegou a ninguém?

inventou sua quimera?
é o mal?
é o bem?
tem juízo perfeito?
acredita em vida eterna?
disse ou não disse amém?

vai ficar
ou é de férias
que você vem?

Traducido para castellano:
por Teresa Arijón

¿y tu quê hás hecho?
¿has hecho la cabeza,
las ideas, los sueños de alguien?

¿cuál seria tu clave?
¿sujeto, objeto?
tespíritu, matéria?
¿le hás llegado a nadie?

¿has inventado tu quimera?
¿es el mal?
¿es el bien?
¿estás en tu sano juicio?
¿crees en la vida eterna?
¿dices o no dices amén?

¿quedarte quieres
o solo
de vacaciones vienes?

Heloísa Buarque de Hollanda, poetisa, In: Otra línea de fuego - Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas.
Traducción de Teresa Arijón. Edición bilingüe.
Málaga: Maremoto; Servicio de Publicaciones, Centro de Edciones de la Diputación de Málaga, 2009. 291 p

Arte surreal por Jim Warren.
 
O que você tem feito? ¿y tu quê hás hecho? (Heloísa Buarque de Hollanda)

O poeta que protesta

 
O poeta que protesta
 
sou o poeta
que protesta,

que não se contenta
com quem não enfrenta

sou o poeta
que detesta,

que não se abala
com quem não luta

sou o poeta
que atesta

que não se atrela
com quem não presta

sou o poeta,
que testa,

que não se cala
com quem não confronta.

AjAraujo, o poeta humanista, poesia em homenagem ao poeta Walt Whitman.

Imagem: Walt Whitman.
 
O poeta que protesta

Amor de mãe gorila

 
Amor de mãe gorila
 
Amor de mãe gorila,

é de grande pureza,

gentil natureza...

AjAraujo, haicai, em 6-12-14.
 
Amor de mãe gorila

Criminologia (Eduardo Galeano)

 
Criminologia (Eduardo Galeano)
 
A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três milhões de camponeses.

A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez mil trabalhadores.

A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.

Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as guerras, atos normais de canibalismo.

Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que os pobres merecem.

Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine:

"Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não seja pobre?"

Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filet mignon, embora esses pratos apareçam no menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo hambúrguer e batata frita, como de costume.

Eduardo Galeano (1940-2015), jornalista, escritor e cronista uruguaio.

Imagem: Monsanto helped the US military destroy Vietnam with toxic chemicals, and the effects are still with us all these years later. Agent Orange causes conjoined twins -- sometimes conjoined triplets and even quadruplets.
 
Criminologia (Eduardo Galeano)

Saudade (Mia Couto)

 
Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

Mia Couto, escritor moçambicano, In: “Tradutor de Chuvas”

Foto: @9magdalenabagrianow9
 
Saudade (Mia Couto)

Os barcos (Thiago de Mello)

 
Os barcos (Thiago de Mello)
 
Os barcos nascem como nascem dores.
E chegam como pássaros ao céu,
como flores do chão. São mensageiros.
Vêm na crista dos astros, vêm de ventres
por onde rolam rastros de cantigas
de antigas barcarolas estaleiras.
Trazem na proa audácias e esperanças,
as cismas e os assombros nos porões.

A mão que os faz, humana, os não perfaz,
apenas segue, tímida, ao comando
de vozes nascituras que lhe chegam
da boca dos martelos e das ripas.
A si mesmos se fazem, pelo mando
de voz sem boca: os barcos são auroras.
Despejam-se na foz de águas escuras.
Contudo, chegam sempre de manhã.

Chegam antes, alguns. Outros são póstumos.
Há os que não chegam nunca: naufragaram
nas primícias do rio. Tantos mastros
se vergam na chegada, outros se racham.
Partem-se popas, lemes, em pelejas
imaginárias contra calmarias.
Uns são velozes, zarpam mal-chegados,
outros são lerdos, de hélices sem sonhos.

Há barcaças nascidas para as idas
ao oco dos mistérios, há as que trazem
lendas futuras presas ao convés,
as que guardam nos remos os roteiros
de grandes descobertas e as que vêm
para vingar galeras soçobradas.
Há as que já chegam velhas, sem navego.

O mar, sempre desperto, espreita e espera
a todos, e de todos se acrescenta.
Para barcos se fez o mar amargo
e fundo, sobretudo se fez verde.
O mar nem sempre os quer. O mar se tranca
frequentemente a barcos, e os roteiros
marítimos se encantam em lajedos,
estraçalhando quilhas e calados.

O coração das caravelas viaja
desfraldado nos mastros, invisível
bandeira também bússola. Altaneiro,
ele surpreende, quando manso, as rotas
que se desenham longes sobre o mar.
Sextante é o coração, que escuta estrelas,
que antes de erguer as âncoras demora-se
em concílio amoroso com os ventos.

O coração comanda. Manda e segue.
E, à sua voz, os barcos obedecem
e avançam, confiantes, pois dos mastros
as velas vão surgindo, vão crescendo
como cresce uma folha de palmeira,
às manobras da brisa sempre dóceis.
De caminhos de barcos sabe o mar.
Os ventos é que sabem dos destinos.

©Thiago de Mello In, Poemas Preferidos
pelo autor e seus leitores, 2001.

Imagem: Claude MONET, Três barcos de pesca.
 
Os barcos (Thiago de Mello)