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Sonetos : 

HOMENAGEM A ALDA LARA

 

TESTAMENTO


À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...


ALDA LARA








1

“Que encontrares em cada rua”
Um passageiro que se quer
Muito além do que puder
Se nesta história continua
O caminheiro mais audaz
Nas faces esfomeadas
Tantas misérias demonstradas
Para quem passa tanto faz
Não se percebendo o sinal
Da injustiça que vai grassando
Tornando este mundo nefando
Onde pudesse triunfal,
Assim se percebendo a cena
Verdade tão clara envenena.

2

“Oferecê-los às crianças”
Os tormentos que são tenazes
E ao perceber assim as fases
Tão diversas das esperanças
Não se pode ou nunca pude
Perceber sinais da justiça
Aonde impera esta cobiça
Seguindo alheia a juventude
Oferecer um só momento
Tocado com ternura e fé
Ao romper dos pés a galé
Quem sabe encontraria alento
Quem tanto necessita a luz
Aliviasse ao menos, a cruz.


3


“Com passos feitos de lua,”
Esperanças muito além
O que tanto não contém
Tantas vezes continua
No vazio que se vê
Numa audácia mais profana
Quanta vezes já se engana
Sem saber algum por que
Desta insânia que domina
Cada passo desta gente,
Pois se amor é tão urgente
Ao perder mapa da mina
Morte exposta a cada afeto,
De vazios me repleto.

4


“Vás por essa noite fora”
Andarilho do futuro
Tendo tudo o que procuro
Boa sorte te decora,
Segue contra a correnteza
Da injustiça sem sossego
E deveras tanto apego
Traz a sorte com certeza
Pra quem tanto assim porfia
Noite e dia, vida inteira
A palavra é mensageira
Traduzindo alegoria
Para quem se fez além
E o universo em si contém.


5


“Beijar de longe os teus olhos,”
Onde tanto poderia
Conhecer uma alegria
Mesmo envolta por abrolhos
A certeza de um momento
Feito em tanta claridade
Inda mesmo que se agrade
E permita novo alento
Caminhando sem destino
Tantas vezes me perdi,
Mas encontro agora em ti
O calor em que fascino
Bebo a fonte mais suave
Sem ter medo que me agrave.

6


“Em que a minha alma venha”
Transcendo ao próprio ser
Nas entranhas do prazer
Tanta força já contenha
E permita o quanto pude
Sonhador inveterado
Bebo as sombras do passado
E traçando em atitude
Passo rumo ao que virá
Nada mais eu temeria
A verdade sendo a guia
O meu sol já brilhará
Sem saber de qualquer sombra
Que decerto sempre assombra.


7


“Para que, na paz da hora,”
Nada deixa pro final,
A certeza sem igual
Minha sorte revigora
Nada temo e nem pudesse
Quem decifra cada passo
E se faço ou me desfaço
Sei de cor o rumo e prece
Cavalgando pelos prados
Das estradas sei as manhas
E se adentro estas montanhas
Os caminhos decorados
Nada impede que se creia
Nem na sorte, minha e alheia.

8


“Deixo-os a ti, meu amor”
Os caminhos que descubro,
Meu olhar deveras rubro
O carinho furta-cor
Galopando céus diversos
Andarilho das estrelas
Se eu pudesse enfim contê-las
E trazê-las pros meus versos
Transcendendo à própria vida
Nas ardências do desejo
Quando a sorte em ti eu vejo
Do caminho não duvida
Quem se fez em liberdade,
Não carrega uma saudade.

9

“Desesperada mas firme,”
Sorte dita qualquer luz
E deveras me conduz
Mesmo quando não confirme
Cada passo dita o tanto
Quanto pude descobrir
Se decerto há um porvir
Nele tento sem quebranto
Na desdita conhecida
Nas entranhas do quem fora
Alma tanto sonhadora
Esquecendo a própria lida
Liberdade conquistada
Com a faca sempre armada.

10


“Esses, que são de esperança,”
Na verdade muita vez
Ao cobrir o que se fez
Com ternura ou firme lança
Nas estradas as tocaias
Nos caminhos tal espreita
Quando tanto se deleita
Almas outra não lacaias
Bebem sangue das escravas
Tomam goles em tortura
Tendo além da noite escura
Do que tanto queres lavas
Mesquinhez ditando regras
Quando o sonho não integras.


11

“Sincera e desordenada”
Sorte tanto indulgencia
Quem deveras a alegria
Tantas vezes não diz nada
Se eu pudesse noutro tanto
Geraria novo rito
E se ainda teimo e grito
Por mais forte velho canto
O quebranto muito pode
E transcorre em minhas veias
Quando em fúria me incendeias
Nem a sombra mais me acode
E desvia o rio quando
Outro tempo porfiando.

12


“Esses, que são de dor”
Nada posso dizer
Se não sei do prazer
Se não sou trovador
Se nada posso ainda
Contra o quanto mais quis
O meu verso no bis
Se nada mais deslinda
Mergulho num abismo
E se tanto não vejo
Pode mesmo o desejo
E ainda sim eu cismo
Vagando contra a luz
Falena; não me opus.

13


“Quanto aos meus poemas loucos,”
Nada faço nem faria
Se deveras a alegria
Dita dias tanto roucos
Mergulhando no vazio
Navegando insensatez
Tanto quanto ainda crês
Produzindo novo estio
Geração pós geração
Renascendo novo encanto
No que ainda tento e canto
Procurando a direção
Sei da sorte mais atroz
E decerto bebo a foz.

14


“Que nunca souberam ler”
Os anseios deste povo
E se canto e mesmo aprovo
Os caminhos do saber
Não podia acreditar
No que um dia se fez meu
Meu caminho se perdeu
Noutro rumo a navegar
Das histórias do passado
Dos momentos mais presentes
O que tanto já não sentes
Pode ser o meu legado
Para as sendas do futuro
É por isso que amarguro.

15

“São para os homens humildes,”
Os desejos da esperança
O meu verso agora alcança
Julietas e Matildes
Margaridas e os Antônios
Tantos outros campesinos
Com diversos vãos destinos
Nos olhares dos campônios
Lavradores, lavradoras
Dos senhores nem sinal,
O meu canto é sempre igual,
Almas puras sonhadoras
O meu verso é para quem
Sabe o que esta dor contém.

16


“Das contas de outro sofrer,”
Das andanças pela terra
Onde o sol na lua encerra
A beleza sem poder
Sem diversa qualidade
Do que sempre é tal igual
Quando amor diz ritual
Canto sempre à liberdade
Na cidade, vila e campo
No sertão, nas pradarias
Onde estrelas são meus guias
Na esperança agora acampo
E vivendo sem temor,
Socialista, sim senhor!

17


“E os livros, rosários meus”
São as armas de quem luta
Vencendo esta força bruta
Caminhando a cada adeus
Mortos tenho nesta senda
Na seara mais fecunda
Solidão quando me inunda
A vontade que se atenda
Com terror e com bravura
Sem temor armas expostas
As feridas formam crostas
Na batalha com ternura
Nas clareiras, nos anseios
Sanguinários sem receios.

18


“Que não acredita em Deus”
Nem nos deuses dos engodos
Os caminhos, digo todos
E não vivo pelos breus
Se eu batalho pela sorte
Se esta luta se bendiz
Coração tanto aprendiz
Procurando sempre um norte
Não temendo algum canhão
Nem tampouco a baioneta
A minha alma se completa
Nesta imensa multidão
Onde a fome dita a guerra
E a justiça não se encerra.

19

“Ofereço-o àquele amigo”
O meu sangue, minha glória
E decerto esta vitória
Servirá como um abrigo
A quem possa sem temor
Encontrar nesta batalha
Mesmo o fio da navalha
Traduzindo o puro amor,
Caminhando por searas
Mais diversas doloridas
Transformando nossas vidas
Quando em lutas escancaras
O futuro em nossas mãos
Cultivando belos grãos.

20


“Este meu rosário antigo”
Que carrego no meu peito
Como um sonho insatisfeito
Cada curva outro perigo
Procurando algum apoio
Onde tanto poderia
Perfilar a fantasia
Separar trigo de joio
E seguir em noite mansa
Contra os medos mais atrozes
Pois ouvindo nossas vozes
A esperança nos alcança
E prepara outro momento
Onde cesse este tormento.


21


“Todo tecido de renda”
Que fizesse com ternura
Quem deveras já procura
Tanto sonho que se atenda
Com sabedoria plena
Com a lucidez da luta
Quem conhece não reluta
Quando a sorte já lhe acena
E ao mudar a caminhada
Pretendendo um novo sol
Dominando este arrebol,
Noutro rum, nova estrada
Traduzindo o socialista
Delirar que já se avista.


22


“O meu vestido-de-noiva,”
Lua branca em pleno céu
Esperança deixo ao léu
Tendo a sorte como noiva
Quem procura o casamento
Bebe a história e nada teme
Nem o corte que inda algeme
Nem o medo do tormento
Mesmo quando houver tal bruma
Na presença de um vulcão
Liberdade é qual tufão
A batalha não esfuma
Sangue escorre, medo doma,
Não conheço uma redoma.


23


“Deixo o meu vestido branco,”
Ao amor que tanto quis
E se queres ser feliz
Necessitas ser mais franco
Nada cale a tua voz
Nem o medo nem tortura
Nem tampouco esta amargura
Nem a fera mais atroz
Liberdade é nossa estrela
Nela guio cada passo
O futuro agora traço
Na certeza de contê-la
Rasgo céus no meu corcel
Galopando em fogaréu.

24


“Sonhando algures uma lenda,”
Aonde tanta luz se faz
O meu caminhar mais audaz
Que a todo teu desejo atenda
Percebendo então cada dia
Como se pudesse sonhar
Muito além do quanto o luar
Traduziria a poesia
Numa tortura e na amargura
Ao vencer com toda certeza
Não encontrará correnteza
Nem tampouco seja a procura
Em vão aquilo que te impeça
Encontrar no sol a promessa.


25


“Rapariga sem ternura,”
Sem amor e sem carinho
No teu colo me avizinho
Desvendando com brandura
Cada parte deste sonho
Libertário coração
Nele toda a direção
Possa ter claro e risonho
Caminhar para o futuro
Nesta senda verdejante
Tanto amor num raro instante
Neste canto em procuro
Ter nas mãos a senda rara
Que esta liberdade aclara.

26


“E àquela virgem esquecida”
Pelas benesses deste sonho
Deixo o coração mais risonho
Ao se perceber assim vida
Aonde tanto se quis a sorte
Não poderia haver tristeza
E deveras esta certeza
Dia a dia já nos conforte
Podendo saber desta luz
Quem caminha com olhos mansos
E vagando pelas estrelas
Com a força de poder tê-las
Encontrará no fim remansos
Aonde toda a glória traz
Uma vida perfeita em paz.

27


“Em cristal, límpido e puro”
Minha herança para quem
Sabe o quanto já convém
Neste encanto que procuro
Caminhar de peito aberto
Ao vencer a tempestade
Sem ter nada que degrade
Esta luta eu não deserto
Sendo assim um sonhador
Dos meus dias, meses, anos
Não suporto desenganos
Aflorando sempre amor
Onde tanto se fez treva
Liberdade agora ceva.

28


“Deixo os meus brincos, lavrados”
Com suor, sangue e batalha
Quem deveras nunca falha
Já sabendo dos recados
Vence as guerras mais terríveis
Não encontra mais temores
E nas sendas dos amores,
Planta os sonhos mais incríveis
Bandoleiro coração
Sabe as tramas, teias tantas
E decerto sempre encantas
Com a força e a decisão
Deixo a lua como guia
E nos dedos poesia...

29


“Do bairro mais velho e escuro,”
Das entranhas duros guetos
Ao fazer os meus sonetos
Minha sorte já procuro
No caminho mais audaz
De quem tanto batalhava
Uma alma sendo escrava
Não conhece nunca a paz
E se faz além de tudo
Mensageira de uma luta
Vencendo esta força bruta
Mas enquanto não me iludo,
Vagabundo coração
Na justiça a direção.


30

“À prostituta mais nova”
Ou à velha carpideira
Esperança uma bandeira
Que a verdade sempre aprova
E o desejo de vingança
A vontade de lutar
Enfrentando sem parar
Quando à fúria já se lança
Coração aventureiro
De quem tanto ora porfia
Tendo em si a fantasia
Sabe o rumo verdadeiro
Socialismo e desde já
Minha estrela guiará.


De Praia para o mundo lusófono

VALMAR LOUMANN
 
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VALMARLOUMANN
 
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Enviado por Tópico
Henricabilio
Publicado: 11/04/2010 21:13  Atualizado: 11/04/2010 21:13
Colaborador
Usuário desde: 02/04/2009
Localidade: Caldas da Rainha - Portugal
Mensagens: 6963
 Re: HOMENAGEM A ALDA LARA
Olá Marcos!
Desconheço quem é ou foi Alda Lara, mas este trabalho poetico é cinco estrelas.

És um dos grandes autores que anda aqui pela net e tenho pena que passes meio incógnito, pois a maioria das pessoas não compreendem os teus atributos líricos - acredito que o excesso de oferta de textos origine tal contrasenso.

magnifico trabalho em redondilha maior!

Um abraçooo!

Abílio




Enviado por Tópico
Sterea
Publicado: 12/04/2010 08:52  Atualizado: 12/04/2010 08:52
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Usuário desde: 20/05/2008
Localidade: Porto
Mensagens: 3404
 Re: HOMENAGEM A ALDA LARA
Alda Lara... "...e a noite desce com ela..." Alda Lara traz-me aquela nostalgia de África, um canto longínquo, uma luz quente, um perfume de savana, que, mesmo sem nunca ter conhecido, reconheço... Gosto. E gosto também deste magnífico trabalho de homenagem versejada...