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Poemas : 

palavra que mata

 
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fugiram me as palavras
já nada me dizem no seu falar
cansei de lhes afagar a pele
já lhes puxei as letras dos cabelos
até me arrancarem dores nas entranhas
já nada me dizem as palavras

ficaram vazias dentro de mim
expulsaram me de si
proscreveram me para fora dos limites guturais
fizeram me apátrida do tempo
fiquei sem documento
sem avatar sem signo sem mês lunar

os astros que as palavras criaram
já não circulam nas minhas veias
os desígnios que elas me ditaram
apagaram se
nas minhas mãos alinhavadas mas não delineadas
o leão ruge palavras que me agridem os ouvidos
insanidades brincam esquizofrenias literais
dentro da minha boca trinco a língua ensanguentada
e os fonemas vocálicos trituram me em consonânticos ruídos
desesperos do coração que não lhes encontra a alma gémea

entro me nas frases esquecidas da memória
saio nas orações ladainhadas de cor
e os textos mentalizados vocalizados grafitizados
rasgam se nas páginas amarrotadas de inspiração infectada
os traços sémicos dos poemas quebram se nas pontas dos meus dedos
evocações linguísticas
figuras paroxísticas
travaram se de razões no meu peito cheio de ar
no vácuo de uma sístole

vagam vagas devagar bagos enrolados no falar deste mudo mudar quedo
versejam me nos dentes prantos quentes fervilhando me dementes
triste mente que sente quando ausente e quando mente
rio me de mim na rima pobre tristemente ritmadamente dolente
não me consolo no solo da semente da palavra enraizada fora de mim
brotam pedras no discurso por espinhos trucidados por públicos jardins

pássaros de fogo arribaram o discorrer do pensamento
e aninharam se dentro da minha cabeça oca
enfeitaram me as sinapses de penas remígeas de bico aparado
e grafaram me de penas capitais num poema cerebral
em sangue derramado na minha assinatura acidental

palavra que morreu





 
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uersus
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Enviado por Tópico
Felisbela
Publicado: 15/11/2012 23:49  Atualizado: 15/11/2012 23:49
Colaborador
Usuário desde: 10/10/2011
Localidade:
Mensagens: 2207
 Re: palavra que mata P/ uersus
Olá Nuno!

Bem vindo de volta!

Adorei ler este texto! Já tinha saudades das tuas obras poéticas que considero diferentes e excelentes (opiniões...)!

Parabéns!

Um beijinho

Felisbela


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 15/11/2012 23:58  Atualizado: 15/11/2012 23:58
 Re: palavra que mata
cada vez mais atiro as palavras contra a cal das paredes,
como nascem
brutas
aliviando os gestos
o sentir

condenei-as
pelas vezes que me fizeram condenar
e
cada vez mais sinto com o que vejo

bjs e Sorrisos sem palavras


Enviado por Tópico
RoqueSilveira
Publicado: 16/11/2012 01:04  Atualizado: 16/11/2012 01:04
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2008
Localidade: Braga
Mensagens: 8223
 Re: palavra que mata
Gostei imenso do poema, tem construções fantásticas e senti um discorrer na página da tua melhor veia poética, como uma transfusão a sangrar a palavra que morre para renascer na ideia/poema; no aspecto da sonoridade só me arranhou esta parte "por espinhos trucidados por públicos jardins" tanto pela repetição de "por" como pela expressão em si.
De resto gostei mesmo muito, és um excelente "matador" quando te sai naturalmente, como te senti aqui.
Bjs
Roque