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Nuvens Brancas

 
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Nuvens Brancas


Correndo, correndo. Chuva forte, ofegante.

Parado na esquina, ele encosta no poste, retirando do ar o sopro para seguir correndo.

O cinza do céu e de todos aqueles prédios inebria o que ainda lhe resta de racionalidade, ele só pensa em correr e naquele momento não há mais nada em que pensar. Já não pensa no emprego que acabara de perder, na quase esposa que tivera durante quatro anos. Só corre.

A cada passo e a cada gota de chuva que caia era um sentimento que escoava pelo asfalto negro, disputando lugar com toda aquela confusão, em algum momento ela irá parar, assim como a chuva forte e a respiração ofegante; os sentimentos retornarão como um turbilhão, vomitando todas as lamurias e flagelos daquele pobre homem. O que fará com que ele queira desistir. Atlas, com todo o peso do mundo.

Como as coisas podem mudar de uma hora para outra, não?

Correr o fazia morrer, acelerando o processo; já morrera em vida, esta é a pior maneira de morrer. Há alguns dias, muito provavelmente numa hora como essa e num dia como esse; a passos lentos, flagrou a filha da puta dando para o seu gerente. Você escolhe uma vida para viver, na verdade é ela que te escolhe. Você pode escolher uma roupa, um iPod novo, escolhe a novela que vai assistir, escolhe maneiras diferentes de se foder. Mas a vida, minha cara, a vida te escolhe. Inevitável. Viu o velho careca desmaiar após três pancadas na cabeça. Deve ter sido no minimo curioso, não?

A vadia o trocou por um gerente! É humilhante.

Quando a verdade sufocante vem à tona, são poucos capazes de suporta-la, as pessoas querem a verdade, querem a liberdade, mas não sabem como lidar com elas. É a nossa natureza, sonhamos o voo, mas tememos a altura. Como alguém me disse uma vez, é preciso ter muita coragem para enfrentar o terror do vazio, pois só no vazio é que podemos alçar voo, é no vazio onde reside a liberdade, a ausência de certezas. Somos assim, tememos o "não ter certezas". É por isso que trocamos o voo por gaiolas, são nelas o lugar onde as certezas não moram.

Mas não o julgo pelo que fez. Passou muitos de seus anos dando a alma naquela empresa de marketing, aquela do comercial da cerveja, sabe? Eu sei que sabe. Vendia mentiras em forma de verdades e em sua vida, a vida além daquela empresa, comprava verdades em forma de mentiras, que, só ele não enxergava, mas novamente, quem sou eu para julgá-lo? Quem somos nós?

Quando perdemos nosso nome, quando viramos um numero de três casas, quando a pressão burocrática de “ter” é mais forte do que a ínfima força contrária do “ser”, fica claro que as coisas vão ruir. Pense comigo agora, você encerra seu expediente; feliz por que seu gerente estava de folga e não o infernizou durante o dia e quando chega em casa, o filho da puta está comendo a filha da puta da sua esposa? Filhas da puta à parte, quem de nós não faria o mesmo? O merda era uma porra de um gerente! Sequer tinha contato com os diretores, veja bem, não que seja melhor um diretor comer sua mulher, mas é um pouco mais digno, concorda?

Todos nós temos dias ruins, dias em que o ar fica rarefeito, dias em que as palavras saem sujas de nossa boca, dias em que merdas acontecem, mas para aquele cara foi demais. Percebi isso em poucos segundos, naquele momento a vida, ou o resto de vida que restara daquele infeliz era apenas um nada, um vácuo de saudosismo, tristeza. Não era como a depressão, depressão é patológico, tem cura. Minha teoria é o seguinte: acredito que a vida é como um poço profundo e nele há dias bons e dias ruins, coisas boas e coisas ruins. Lá no fundo elas se misturam, não é como água e óleo como pensam por aí, são iguais entre si, mas com aplicações diferentes. Durante nossos dias, tiramos deste poço um pouco de coisas ruins e pouco de coisas boas, mas por algum motivo, do mesmo modo como um açude pode ser contaminado, assim fica este buraco profundo. Ocorre um contrapeso desigual, as vezes com excesso de coisas boas, as vezes com excesso de coisas ruins. No caso de haver excesso de coisas ruins, o máximo que pode acontecer é você extrair todas as coisas ruins, tendo dias ruins até que reste apenas as coisas boas no poço. Por outro lado, quando há excesso de coisas boas dentro do poço, ocorre exatamente o contrário, as coisas boas são extraídas com mais frequência, e com isso secam, restando apenas as coisas ruins e consequentemente, dias ruins. Diferente do outro caso, ficamos doentes quando apenas coisas ruins são tiradas do poço, e não há cura para esse mal. Foi o que acorreu com aquele infeliz. Não havia traços das coisas boas nele, o poço estava secando, e com ultimas gotas de coisas ruins, quando isso acontece você já pode prever o pior não é?

Se soubesse que ele iria pular, teria feito algo, talvez tivesse mentido para ele falando que iria lhe arrumar um bom emprego ou poderia tentar o clichê, falando que as coisas são como deveriam ser e, mas a grande verdade é que quando não há mais vontade de viver, e isso fica claro no olhar, você pode até dar um Buda de ouro para essa pessoa que de nada adiantará, esse era o caso dele. Fiquei sabendo que ele pulou do viaduto alguns dias depois do nosso encontro, não sei onde ele está agora, prefiro acreditar que ele morreu com a última gota de coisa boa do poço junto dele.

Sei que você deve estar se perguntando que porra é essa .45 na sua têmpora e porque você está amarrada. Não consegue gritar, embora queira muito; não sabe por que está ali; embora saiba o que fez.

Mas pense bem, conhece bem a história, conhece o careca filho da puta do gerente! Ah, mas fiz questão de fazer uma visita ao sujeito; tão covarde, se mijou todo quando apontei a quadrada pra ele. Ainda estava com curativos na cabeça. O desgraçado conhecia pelo menos umas vinte formas diferentes de se pedir pelo amor de deus, talvez soubesse mais, talvez tenha lhe dado pouco tempo, enfim, nunca saberemos.

Deve estar se perguntando quem sou eu, como eu conheci o seu finado marido, pois bem. Não é relevante que você saiba quem eu sou, pois não nos veremos mais e além de que, não sou nada, sou um vagamundo, subproduto da hipocrisia deste país carola, um rejeitado marginal que só está representando um infeliz qualquer que conheceu em um bar qualquer, tomando uísque barato, gastando seus últimos tragos de consciência e dignidade conversando francamente pela primeira vez na vida, com um estranho.

Você não percebeu que ele estava pedindo ajuda? Que o fato de não conversar contigo nos últimos meses fora uma forma de se proteger de seu multimudismo ensurdecedor? Já era de se esperar.

Eu não sou um frustrado, muito menos um Robin Hood dos cornos. Apenas me senti no direito de fazer o que é certo, decidi fazer uma coisa justa, um último ato heroico, salvar a vida de um jovem defunto. Não conheci seu marido, o que conheci fora uns trapos malfadados, restos do que fora um dia o contrario daquele cadáver semi-vivente que estava na minha frente. Era podre. Quando ele me perguntou sobre como eu levava minha vida, eu respondi apenas que levava a vida da mesma forma que uma onda bate numa pedra, e

nesse caso não sou a pedra, sou a onda. A onda bate insistentemente na pedra, e parece não fazer efeito algum na pedra, mas ao passar do tempo você percebe que a areia da priaa em que você pisa, fora um dia a pedra, vencida pela insistência da onda.

Em minutos de conversa sequei o que restava do meu poço, ele me contou tudo que deveria contar. A vida não vale mais do que dez centavos, e em sua estética, vale o máximo que puder valer.

Com a propaganda da cerveja em um cartaz no bar, descobri o endereço da empresa onde ele trabalhava. Atirei cinco vezes na cabeça do careca filho da puta. E agora estou aqui, a vida realmente é um moinho não acha? Ou acha melhor dizer que a vida é uma transa louca entre dois estranhos num motel barato de beira de estrada? Como quiser.

Aliás, você sabe o estrago que pode fazer uma bala de .45 na cabeça?

Vai saber.
Com sua licença.




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edu_augusto
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 26/10/2015 20:49  Atualizado: 26/10/2015 20:49
 Re: Nuvens Brancas
Cinco tiros?