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Prosas Poéticas : 

Minuciosamente

 
Tags:  ternura    céu    música    horizonte  
 
Ao som dos acordes daquela música que amamos…penso em ti.
Foram as Cassiopeias de luz, aglomeradas pelo espaço sideral dos dias, que conspiraram a nosso favor. E digo-o, com toda a certeza, porque jamais poderia cruzar o teu carinho no horizonte deste céu, neste caminho compassivo e absoluto, nesta pedra polida da cor do ébano, cravada no solo estéril onde me encontro. E digo-o, porque foram inúmeras as vezes em que coloquei a mão sobre os olhos da permanência, mas havia sempre um encandeamento, próprio da luz no branco dos muros altos, caiados de tão pouca emoção… Foi necessária a paciência das pombas do quintal dos meus sonhos e a firmeza das gaivotas da varanda das tuas manhãs, para a inquietação nascer dentro de nós. Claro que o conluio exercido pela brisa do teu mar influenciou o germinar do sentimento nas searas de onde brotaram as papoilas dos nossos lábios. Opções tomadas pela terra rubra dos vulcões anteriormente cabisbaixos e tristes, quase extintos. Erupções do elixir da juventude da experiência radicular que trazes nas palavras. Sim, foste tu que as provocaste, com a cor esverdeada das ondas do mar, misturadas com o castanho ocre do tronco dos sobreiros no olhar. Subjugaste as fogueiras na minha pele, a teu bel-prazer, e espicaçaste a loucura na ponta dos meus dedos. Alucinaste as sombras do meu passado e o terror estampado no meu peito…e unificaste os densos nevoeiros das minhas palavras nas entrelinhas dos meus poemas. Fizeste do meu ventre a tua casa com a perícia dos gemidos produzidos em forma de estrelas cadentes. Chegaste a pintar a alquimia do prazer nas paredes feitas da nossa vontade, tal foi o regozijo da generosidade das tuas mãos. Sempre soubeste mimar-me até ao ponto de me perder no rasgar do vento vindo da tua pele, sobretudo quando saboreámos as cerejas do pensamento. Por isso, é com toda a lucidez que me permite a desordem interior que me provocas, que me ergo nestes versos, qual sacerdotisa das brumas, e te venero como único perfume que ainda me desperta a sede, me incentiva a fome, que me estimula a luxúria… Afinal, de que é feito o amor, senão dos momentos incólumes onde a ternura nos desarma?

 
Autor
Nininha
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Enviado por Tópico
MariaSousa
Publicado: 24/08/2016 21:54  Atualizado: 24/08/2016 21:54
Membro de honra
Usuário desde: 03/03/2007
Localidade: Lisboa
Mensagens: 4096
 Re: Minuciosamente
Olá Nininha,

Uma prosa poética plena de belas imagens. Adorei os "dois limites" entre o mar e as searas. Um namoro perfeito...

Li com muito prazer e gostei muito!


Beijinhos


Enviado por Tópico
Volena
Publicado: 24/08/2016 22:24  Atualizado: 24/08/2016 22:24
Colaborador
Usuário desde: 10/10/2012
Localidade:
Mensagens: 12514
 Re:nte Minuciosamente P/Nininha
Querida Nininha eu é que fiquei completamente desarmada depois de ver um texto tão belo, esplendoroso, escorreito, ternurento, mesmo com a cerejinha no topo! Fiquei muda e queda com esse namoro da natureza! ADOREI e pronto! Beijinhos
minuciosos e apurados Vólena


Enviado por Tópico
JoeWeirdo
Publicado: 24/08/2016 23:13  Atualizado: 24/08/2016 23:13
Da casa!
Usuário desde: 11/03/2010
Localidade:
Mensagens: 434
 Re: Minuciosamente
Muito bem escrito, viu!
Gostei muito!

(:


Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 25/08/2016 06:45  Atualizado: 25/08/2016 06:46
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1596
 Re: Minuciosamente
Tanta minúcia.
Texto muito bem construído, com uma linguagem poética marcante, cheia de comparações e metáforas envolventes.
A redenção tão bem assente, apesar da melancolia dos impossíveis!

Riqueza nas ideias, no vocabulário, nos sentimentos.

Que bom!

Bj


Enviado por Tópico
geraldocoelho
Publicado: 26/08/2016 02:26  Atualizado: 26/08/2016 02:26
Colaborador
Usuário desde: 14/11/2010
Localidade:
Mensagens: 625
 Re: Minuciosamente
"...Afinal, de que é feito o amor, senão dos momentos incólumes onde a ternura nos desarma?..."

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É feito dessas minúcias que só o coração pode enxergar!...
É feito dessas belezas que só quem conhece e sabe conjugar o verbo amar...concebe no coração-poético!...Belezas que nos chegam aos corações e teu coração revelam; enternecendo-nos com versos magistralmente concebidos!..Aplausos, cara poetisa; aplausos e beijos fraternos.