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Poemas : 

Água, quase nada

 

Mergulhei fundo:
das águas de ninguém,
descobri que o que me pertence
é apenas aquela nuvem
-
aquela!
...onde prendo os olhos
com fiapos de azul insubmersível.

Quem me dera que as minhas mãos
segurassem também esse fio invisível
que não me assegura os sonhos...
mas que me liga ao céu!

Mas...

sou de ninguém,
como as águas
e nada é tão de mim
como as mágoas.

E os fios são de luz,
as nuvens, de sombra;
e os lugares que imagino
para além do espaço que o meu corpo ocupa,
são terra sem chuva,
pátria sem hino,
praia sem culpa.

Mergulho, outra vez:
a sombra de mim é tudo o que me pertence,
mesmo que ao calor do meu hálito
se condense
toda a água que me habita...


e se eleve
ao céu que me acredita.


Teresa Teixeira


 
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Sterea
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 15/01/2018 19:35  Atualizado: 15/01/2018 19:52
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Mensagens: 1616
 Re: Água, quase nada
Somos feitos de mais de 70% de água. É sabido.
Gosto na primeira estrofe da nuvem, da água de ninguém em que o sujeito poético mergulha.
Não há muita diferença entre essa nuvem e um lago ou um rio. Fazem parte do mesmo ciclo da água, ainda que de ninguém seja.

"... sou de ninguém,
como as águas
e nada é tão de mim
como as mágoas."

Esta quadra aparentemente nada tem de especial, e a rima de mágoas e águas é previsível e comum, mas tem o condão de acentuar o teor melancólico a um nível, para mim, difícil de atingir.

A penúltima estrofe condensa o poema, que nada mais é que água de ninguém, nuvem perdida no céu...
Nunca é tarde, sobretudo para lembrar-mo-nos que onde há água, há vida.

Muito bom!

Bj

Enviado por Tópico
RaipoetaLonato2010
Publicado: 30/01/2018 01:22  Atualizado: 30/01/2018 01:22
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 Re: Água, quase nada
'das águas de ninguém,
descobri que o que me pertence
é apenas aquela nuvem'

Todo lindo. Destaco estes versos.


Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 17/02/2019 20:18  Atualizado: 17/02/2019 20:18
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 Re: Água, quase nada
Poetisa

Mergulhei fundo:
das águas de ninguém,
descobri que o que me pertence
é apenas aquela nuvem


Sempre mergulhamos fundo nas emoções, nos relacionamentos. O outro é como água, não temos como segurar, nem como prever a profundidade do sentimento de alguém, podemos mergulhar e nos afogar ou descobrir que o outro era raso e nos machucar feio. O que temos é sempre a nuvem de incerteza, a sombra da dúvida.
Desculpe se divaguei! Gostei imensamente do que li!
Beijos!
Janna