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Contos : 

O importante é a história, e não o narrador

 
As coisas mais importantes são as mais difíceis de se expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem - as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais do que isso, não? As coisas mais importantes estão muito perto de onde seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas o olharem de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse nem por que eram tão importantes que você quase chorou enquanto estava falando. Isso é o pior, eu acho. Quando o segredo fica trancado lá dentro não por falta de um narrador, mas de alguém que compreenda. E então, a noite você acorda, sem fôlego, com o peito apertado, e aquela fina, ardente, e incompreensível chuva de granizo caindo em meus olhos abertos.
Eu me lembro claramente da minha vida sobre as campinas, numa terra pontilhada por oliveiras à beira do mediterrâneo, numa época muito distante daqui. Ainda sinto o cheiro das fibras que amarravam as cestas ao lombo dos cavalos, e da brisa marítima salgada que tinha o aceno do meu lar. Era onde eu tinha outro nome, outros sonhos e intenções. Mas ainda posso senti-los dentro de mim hoje, é inexplicável em palavras, como já disse, e mesmo agora, neste momento, sinto o ar gelado do mar encher os meus pulmões.
Quantos eu tive de ser, para entender o significado complexo da existência, e quantas vezes tive de surgir das entranhas da terra coberta por seu sangue e para ela retornar com as minhas lembranças, e talvez, escrever no mundo um pedaço da minha aventura. Se você olhar atentamente para a folha de uma árvore, vai descobrir códigos de toda a existência lá. Todas as aventuras estão lá, de homens e mulheres. Donas animas e de tudo o que viveu e vive. A terra é o registro de nossa existência, e a testemunha palpável de todas as desventuras.
Da minha perspectiva, uma de tantas, vejo-a como um diminuto grão de poeira. Outrora imenso lar, agora quase pode pousar nos cílios dos meus olhos. Era ali, a minha casa. Era eu, somos nós. Nele, todos que amamos, que conhecemos, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram e viverão as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e do nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada "superestrela", cada "líder supremo", cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali - em um grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.
As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão. Para muitos, a Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a sua espécie possa migrar. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo azul. Tolo, simplório, fundível na imensa contra escuridão do universo a sua frente. Que mundos haverão além das estrelas? Não importa a distância. Todos são traduzidos pelo coração humano. Para aqueles que tem coração.


j

 
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London
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