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PASSIONAL - Notas d'um bilhete suicida - Parte 1

 
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PASSIONAL - Notas d'um bilhete suicida - Parte 1

A única certeza que tinha é de que seria abandonada um dia. Mais cedo ou mais tarde, o amor acaba e a pessoa amada -- seja quem for -- começa a se movimentar em direcção de algo que o apaixone novamente. A gente aprende, da pior maneira possível, que amar nunca é o bastante... Com o tempo, ou sufoca o outro ou extenua a si. Não há medida certa para amar, não há receita.

Ela entrou na lanchonete e pediu um café puro e duplo, interrompendo o fluxo de seus pensamentos. Enquanto sorvia o amargo, demorou-se a ler as letras garrafais do jornal popular anunciando uma tragédia anônima: ESPOSA MATA O MARIDO ENQUANTO DORMIA E APÓS SE MATA. Abaixo, em letras miúdas, os detalhes se alongavam à curiosidade malsã de quem passasse. Reparou na data: 24 de outubro de 2017. Era o jornal do dia. Ela engoliu em seco. Não sabia porquê, mas relatos como aquele mexiam com ela. O amor lhe parecia um dispositivo anti-autossuficiência que desde os primórdios fazia com que o ser humano fosse capaz de grandes actos de renúncia, mas também de terríveis crimes. Discordava do senso comum que diferencia amor e paixão, dando ao primeiro aspectos positivos e idealistas e ao segundo, apenas sensualismo e o destempero... Arbitrário negar ao homicida que mata a família, após ter-lhe sido devotado por décadas, que o tenha feito por "amor". A ideia de que quem ama não mata, a despeito de ser um lema sedutor, não encontra lastro na realidade dos factos. Muitos bilhetes suicidas, por exemplo, arvoram o amor (ou a falta d'ele) como o motivo para se pôr fim à própria vida. -- No final ela própria, protagonista n'essa história, comportou-se assim.

Reconheça-se não ser muito convencional revelar ao leitor o desfecho logo à primeira página (como se algo além do costume impedisse o leitor de ler o desfecho quando bem quiser...), mas talvez seja mais honesto não iludir àquele que se coloca diante d'estas letras de que elas lhe servirão de entretenimento. Oh não! O que se pretende aqui é conduzir o leitor pela espiral de sentimentos que redundam n'um triste fim. Tal como a vida real faz com os intensa e sinceramente amorosos, este ajuntamento de papeis escritos se debruça sobre a história d'uma heroína do amor cujo idealismo é impiedosamente testado pelas circunstâncias. Na verdade, deixa-se ao leitor ainda um motivo para consultar as últimas linhas antes de alcançá-las pela leitura contínua: Ela tenta morrer d'amor se matando, mas, será que de facto morreu? Sigamos com a narrativa:

Ela -- chamava-se Tereza -- pensava estas coisas sentimentais enquanto se aproximava do trabalho. Vestira-se com certo apuro n'aquela manhã, preocupada com uma reunião marcada para depois do almoço. Sentia-se bem com as ideias que deveria defender embora visse certa tensão no desenrolar das pautas. Como sempre, nenhuma grande decisão seria tomada e todos sairiam d'ali ansiosos pelo fim de tarde n'algum bar da moda ou senão como ela, correndo para pegar os filhos na saída do colégio. Sim, ela tinha duas filhas e, sim, estava casada há mais de dez anos. Portanto, nada de bares n'aquela sexta-feira. A razão de seu sentimentalismo era bem clara para si: após meses de distanciamento, Tereza e o marido -- um quase-artista em crise de meia-idade -- finalmente tiveram relações e, por mais que ela implorasse por isso há meses, após o acto ela não chegou sequer perto de se satisfazer.

Desconfiava que o marido -- chamado Afonso -- havia se tornado um ser assexual, exclusivamente devotado à sua arte. Contrariado, todavia, por não viver d'ela e para ela, culpava sobretudo Tereza por ter-de gravitar em torno d'um trabalho careta e d'aquela família que ela o convidou a formar quando jovens. Ela, obviamente, estava apaixonada então. Hoje... Quanto a ele, mal disfarçava o tédio que a rotina familiar lhe causava. Fazia de tudo para evitar qualquer intimidade, sempre aventando desculpas e mal-estares para seu desinteresse. Tereza parecia explodir por dentro com sua sexualidade reprimida e sua solidão. Sabia-se uma mulher atraente e tinha plena ciência de sua capacidade intelectual para discorrer sobre qualquer assunto com qualquer pessoa. Leitora voraz, eclipsava o marido introspectivo em qualquer ambiente que frequentassem, tendo suas colocações sempre muito comentadas e discutidas.

Mas Afonso, embora fosse um artista frustrado, tinha certo brilho quando falava de sua obra, não deixando de ter sua pequena-mas-fiel roda de admiradores e, sobretudo, admiradoras... Evidente que Tereza se enciumava, mas coberta pela culpa de desviar Afonso de sua realização mediante o vínculo familiar, acabou se acostumando àquele assédio circunstancial e lhe fazia vistas grossas. Por fim, aproximava-se individualmente dos artistas e admiradores do círculo d'ele e sondava-lhes as motivações, desencorajando qualquer aproximação indevida. No fundo, Tereza não temia a infidelidade em si, mas sim que Afonso se apaixonasse e a deixasse, ainda que ele fosse visivelmente infeliz.

Não obstante, eram ambos bons pai e mãe, fazendo das filhas, por anos, o único assunto de real interesse comum: As meninas, a primeira dois anos mais velha que a segunda. Passadas as angústias da primeira infância -- com as vacinas, febres, insônias e birras -- finamente começavam a focar na educação das meninas e em tornar os programas em família mais didáticos. Afonso compreendia a importância de se estimular a imaginação do universo infantil, mas, por via de regra, não curtia estar ali. Já Tereza encontrara na maternidade a realização mais plena de seus impulsos amorosos: Sim, as meninas eram o seu verdadeiro amor, seu amor perfeito. Jamais se sentia tão amada quanto como mãe de dois seres que pareciam competir em lhe expressar amor e admiração ilimitados. Havia tão íntima compreensão entre elas que Afonso sentia-se quase intruso n'aquele território feminil que se tornara a casa d'eles. De tão amorosas, as meninas simplesmente adoeciam de saudade da mãe nas raras vezes em que teve Tereza de se ausentar viajando a trabalho. Como mãe, mais do que como mulher, Tereza amava e era amada.

N'aquela manhã em que encontramos Tereza chegando intempestiva ao trabalho -- estava, com efeito, atrasada -- Ela já havia deixado as meninas na casa d'uma cuidadora que as aprontaria e levaria mais tarde ao colégio. Tereza ainda recordava em lampejos a relação que tivera com Afonso e se perguntava até quando aquele acordo mudo de insatisfeitos iria durar. Tinha certeza de que se ele não tinha um caso, logo teria. Aquilo parecia uma fatalidade, algo fadado a acontecer como se predito por algum oráculo esquecido ou porque escrito no roteiro ruim d'um filme que ninguém se atreveu a rodar. Suspeitava...

No trabalho, era outra pessoa. Séria, circunspecta... tinha uma leveza para com problemas realmente cabulosos que desarmava qualquer arauto de más notícias. Focava na solução, nunca na gravidade do problema. Nunca se alterava. Nunca transparecia estar com o d'ela na reta. Atravessou, assim, seguidas diretorias e executivos, ainda que preterida pelos colegas quando tinha oportunidade de ser promovida. Gostava de seu lugar no mundo e não se importava em permanecer onde estava. Ao contrário, acreditava ter mais tempo e liberdade para estar com suas filhas. Mais responsabilidades significariam mais viagens... Simplesmente, ela não estava a fim.

Chegando em casa, Tereza conferiu as faturas a vencer enquanto as meninas corriam para o café da tarde. N'esse ínterim, Afonso lhe manda uma mensagem lacônica sobre demorar na rua. "Sei!" -- pensou Tereza quase em voz alta -- mas, voltando-se para as meninas, perguntava-lhes sobre o dia que tiveram e quanto fizeram. Após o café, mandou-as para o banho para que, após, fizessem os deveres. Ela se sentou no sofá e ficou zapeando a TV até parar sobre um relato mais dramático no canal evangélico. Era um homem e uma mulher -- Pr. Carlos Vinícius e Pra. Júlia Köller -- bem vestidos contando relatos de "casamentos blindados contra os ataques do Inimigo". E, com uma riqueza absurda de detalhes, despejavam sobre ela -- a expectadora desavisada -- histórias com as quais forçosamente ela se identificava. Tanto o esposo quanto a esposa na TV eram pastores evangélicos e ambos competiam na tela da TV em relatar desgraças da vida matrimonial antes da conversão e das graças obtidas após. Marcou Tereza particularmente um relato do pastor -- este, um comunicador bem apessoado -- sobre um esposo sobre cujo tédio da vida a dois o havia empurrado para a infidelidade a ponto d'ele desistir da relação e passar mais de cinco anos separado da mulher, entregue à promiscuidade e ao vício. O sinal de alerta se acendeu em sua face ruborizada: Tereza ligou para Afonso e ele não atendeu. Deixou uma mensagem para que ligasse assim que pudesse.

Tereza, agora interessada, continuou assistindo o programa. O relato da pastora -- uma mulher linda e elegante -- sobre a esposa do entediado foi-lhe ainda mais devastador: Ela ficou depressiva com a separação e pensou muitas vezes em se matar. Quando o marido, então separado, vinha com outras mulheres à sua casa para saírem com seus filhos, sua humilhação era tamanha que mais de uma vez teve ímpeto de matar o marido, as crianças e se matar em seguida! -- Tereza lembrou da capa do jornal que havia visto na lachonete... -- A pobre mulher não suportava a ideia de que o outro poderia ser feliz enquanto ela, que lhe havia devotado os anos de sua juventude, parecia mais e mais imersa n'uma atmosfera escura e triste. A separação se prolongou por anos e ambos tiveram relacionamentos curtos com outras pessoas sem conseguirem, no entanto, construir relações profundas e realmente íntimas. Em última análise, não permitiam que os novos parceiros se aproximassem além de certo ponto, por mais que ansiassem recomeçar suas vidas. Tereza, que já havia anteriormente se separado de Afonso por alguns meses e teve o desprazer de vivenciar situações semelhantes, identificou-se plenamente com o relato da TV.

No bloco seguinte, o casal de pastores conclui sua narrativa com um grande final feliz: Após um grande esforço de reconciliação e superação do passado, o casal buscou restarar-se em Cristo e, com o apoio dos livro "OS CASAMENTOS BLINDADOS", os dois conseguiram finalmente se perdoar. Mais do que no momento de voltarem a ser um casal, porém, a vivência religiosa lhes ensinou a proteger o casamento e a família das armadilhas quotidianas da vida a dois -- Tereza, mesmerizada, acompanhava os conselhos com máxima atenção -- ao que o casal muda o tom confessional de seu testemunho para a assertividade da autoajuda: Sim, eles tinham a solução definitiva para os problemas conjugais e, com a ajuda de Deus e da igreja (uma denominação cristã neopentecostal), prometiam salvar qualquer casamento. Tereza ficou convencida de que ela e Afonso poderiam ser transformados por aquele casal de pastores e seu livro. Anotou os contatos do programa e pesquisou na WEB enquanto Afonso se demorava na rua.

Quando finalmente chegou em casa, Afonso parecia um fantasma saído das sombras: visivelmente culpado, respondia com monossílabos vagos às perguntas de Tereza. Ela, todavia, não insistiu muito. Sabia que não havia nada de bom n'aquela demora e confrontar Afonso apenas lhe daria a desculpa de que precisava para uma nova separação. Decidiu ser sábia e ardilosa como a pastora orientava no programa, isto é, evitar sempre o embate direto que levará ao rompimento. Se ele teve uma noitada, cabia a ela se valer do sentimento de culpa diante da família ao invés de colocá-lo na defensiva e acuado, abandonar de vez a relação.

No dia seguinte, sábado de manhã, acordaram mais tarde. Ela preparou um café da manhã mais variado e chamou Afonso e as meninas para comerem juntos. Ele ficou claramente embaraçado com a alegria das meninas e a boa vontade de Tereza: Nada de questionar a noite anterior ou discutir a relação... Passaram quase duas horas tomando café, n'uma preguiça infindável, prazenteira. Simplesmente era bom estar em casa e, vagamente, fazer planos para passeios à tarde e no dia seguinte. Afonso começou a sentir realmente mal e pediu para conversar com Tereza em particular. Ela lhe respondeu que esperasse mais tarde, pois, deviam se arrumar para sair com as meninas. Ele se demorou no banho e quando terminou de se vestir, as três já o esperavam. Almoçaram na rua e passaram a tarde no parque público com um piquenique improvisado, enquanto as meninas corriam lá e cá. Tereza, malandramente, não dava oportunidade para Afonso ficar a sós com ela e começar a tal conversa que ele ansiava em ter. No parque, conversavam com outros pais enquanto ficavam de olho nas meninas, sempre chamando-as para beber algo ou saírem um pouco do sol. Afonso começou a se desligar do que o incomodava e se interessou pela conversa fiada com os outros pais ali presentes. A tarde caiu tranquila e luminosa, enquanto eles arrumavam as coisas para irem embora. Um dia bom como há muito não tinham.

Já no carro, Tereza propõe a Afonso e às meninas que parassem no Shopping para que ela pudesse ir a uma livraria. Afonso, que odiava shoppings, retrucou imediatamente,mas foi voto vencido diante do entusiasmo das meninas. Com efeito, Tereza atravessou o shopping com eles e foi direto para a livraria procurar o livro anunciado no tal programa que assistira, enquanto Afonso e as meninas se entretinham na seção de livros infantis. Comprados os livros, Afonso reparou no título que Tereza escolhera e não pode se furtar a um comentário mordaz: -- "Lendo autoajuda agora?" -- ao que Tereza acudiu com o máximo de sinceridade: -- "Ouvi falar sobre esse livro e achei que devesse ler". Ele ficou intrigado pois sabia que Tereza sempre desdenhou terapias e sempre tratou com cepticismo discursos religiosos, sobretudo neopentecostais.

No campo religioso, Tereza nutria simpatias pelo espiritismo e lia compulsivamente romances psicografados. Afonso era um perfeito cínico acerca de religiões: Todas competiam para proclamar verdades que não podiam provar. Ter uma religião, portanto, era-lha algo funcional, ou seja, ajudava a educar os filhos em torno d'um sistema moral socialmente aceite bem como a construir relações comunitárias. Ele entrava em qualquer templo sem nenhum preconceito e participava das celebrações com atenção e respeito. Fora das casas de oração, todavia, tinha pelo fenômeno religioso um olhar mais estético-cultural que existencial. Sempre recebiam convites para comparecerem n'essa ou aquela celebração, mas não tinham rotina de leituras bíblicas ou orações, de modo que Afonso ficou muito intrigado quando percebeu Tereza lendo aquele o livro enquanto se preparavam para dormir. Sem embargo, Afonso insistiu na conversa que precisava ter com Tereza:

-- "Querida, a gente precisa conversar. Aconteceu uma coisa ontem à noite..." -- Ela olhou para ele já antevendo a confissão e se adiantou -- "Também queria conversar contigo, Afonso. Penso que precisamos "blindar" nosso casamento"-- ao que ele atalhou surpreendido -- "Quê!" -- e ela continuou -- "Sim, impedir que coisas ou pessoas agridam nossa relação, destruindo-a!" -- desorientado, ele perguntou a primeira coisa que lhe veio à cabeça -- "Desde quando és religiosa?" -- e ela -- "Não se trata apenas de religião, sim de nós dois." -- de repente, Afonso percebeu ali a saída perfeita para sua situação, afinal, a conversão ou coisa que o valha de Tereza lhe permitia cinicamente superar a crise do casamento sem maiores explicações. Era evidente que Tereza queria continuar com aquela encenação a qualquer custo. Da parte d'ele, Afonso, não havia o menor problema em encenar o casamento perfeito, haja vista que se separassem novamente o grande perdedor seria ele, com o ônus de sair de casa e manter o padrão de vida das meninas enquanto seus finais de semana se tornavam exclusivamente infantis. Aliás, mesmo nas eventuais escapulidas com outras mulheres estar casado era a desculpa perfeita para não se aprofundar em relação alguma, muito pelo contrário. Afonso olhou para Tereza e disse com a cara mais lavada do mundo: -- "Meu amor, que coisa maravilhosa!" -- ela sorriu e continuou -- "Precisamos mudar algumas coisas em nossa rotina, mas o mais importante e a gentileza um para com o outro" -- ou seja, actuar o tempo todo, pensou consigo Afonso, que lhe disse: "Sim, querida, tens razão. Tivemos um dia perfeito hoje com as meninas." -- E ela -- "Não foi? A gente precisa evitar situações de conflito e praticar a tolerância." -- ao que Afonso assentiu -- "Com certeza! A gente tem entender as necessidades do outro e evitar as brigas." -- Tereza concluiu: -- "Que bom que entendeste, amanhã a gente conversa mais. E foram dormir.

Domingo de manhã, foram ao culto evangélico. Afonso, empertigado n'uma camisa social, pensava consigo "Se Paris valeu uma missa para o rei Henri, por que não um culto na actual conjuntura?". E sorria. Tereza parecia radiante n'aquela manhã e, enquanto as meninas a participavam da escola dominical, ela se aproximara do casal de pastores n'um intervalo e lhes cobriu de elogios tanto pelo livro quanto pelos testemunhos. Eles agradeceram e, humildemente, se colocavam como instrumentos de Deus para revelar mediante às desventuras d'eles e posterior sua missão pastoral um caminho de salvação no matrimônio cristão blindado. Tereza respondeu que estava encantada e que ela e Afonso iniciavam ali uma longa caminhada de fé para mudar o rumo de seu casamento. O casal de pastores assentiu e os abençoou com uma rápida imposição de mãos. Tereza se emocionou sinceramente.

Afonso, que mal abrira a boca o tempo todo, só pensava nas liberdades que passava a adquirir com aquela encenação. Com efeito, poderia inventar algum passatempo insuspeito como tantos conhecidos faziam e evitar aquelas vindas semanais ao culto. Tereza, às voltas com esses pastores, o deixaria em paz para viver como solteiro-embora-casado, que era o melhor de dois mundos. Uma vez por mês ele se fantasiaria de pai cristão e acompanharia a esposa em seu ideal de casamento blindado. No mais, qualquer oportunidade de farra com os amigos passaria a ser tolerada dentro dos limites do portentoso livro de autoajuda que agora norteava a sua vida conjugal. Enfim, as preces que jamais fizera pareciam ter sido ouvidas. Tudo ia de bom a melhor: Bastava ler o tal livro e usar as lições do casal de pastores a seu favor. Quanto à Tereza, ele compreendia seu esforço em manter o casamento e a respeitava como mãe de suas filhas, mas estava cansado de ser infeliz. Se ela achava que a solução dos problemas e era se negar a enxergá-los, que podia ele, Afonso, fazer? Desconfiava, afinal, que o tal "blindar" do livro vinha do inglês "blind" e não de "blindagem". Sim, aquela autoajuda era um enorme autoengano.

Tereza mudou progressivamente sua rotina: livrou-se dos romances psicografados e passou a ler a Bíblia diariamente, embora não assimilasse muito, entendendo tudo vagamente como licença poética de Deus para explicar que o bom é bom mesmo. Ler era uma forma de entrarem conexão com a vontade que ela acreditava ser a de Deus, isto é, curar seu coração para que ela pudesse ser uma boa esposa e mãe ainda melhor. Sim, arrefecer o ardor de sua sexualidade insatisfeita pelo distante Afonso, enquanto sua afetividade se derramava abundantemente sobre as filhas, providencialmente protegidas das contradições d'esse mundo pagão. Já não fizera tantas renúncias em nome da maternidade? Aquela era apenas mais uma! Mas, acima de tudo, deixava-se seduzir pela ideia de ordem cósmica que o cristianismo neopentecostal lhe propiciava. Sim, os fiéis são protegidos do mal e se tornam resilientes às dificuldades da vida... Seria uma beleza se não fosse outra inverdade. Mas, como perguntou Pilatos a Jesus, o que é verdade?

A vida transcorreu assim por meses: Afonso e suas farras compensadas pela presença nos momentos em família e Tereza cada vez mais convencida de estar vivendo uma batalha espiritual na qual ela e os seus combatem do lado do bem. O envolvimento de Tereza na igreja do casal de pastores era cada vez mais intenso, conciliando o trabalho com sua vida de oração e intercessão. Já não sentia falta de sexo ou cobrava atenção de Afonso, arrastando-o consigo sempre que podia para os cultos. Para sua surpresa, ele jamais se opôs, embora não tivesse qualquer ímpeto cristão fora do templo. Continuou sua vida entre o trabalho e o estúdio, agora com novos amigos que lhe ocupavam os finais de semana. Todavia, nem mesmo casal de pastores vinham juntos aos cultos, haja vista que se revezavam em função do sucesso do livro com depoimentos em igrejas por toda a cidade. Mais de uma vez Tereza compareceu ao culto aos domingos e não os viu pregando. Ou senão, um vinha e o outro era justificado como em outro lugar. Houve um período em que anunciaram uma viagem missionária ao exterior e ficaram meses ausentes enquanto casais fiéis e outros pastores lhes substituíam. A própria Tereza foi convocada a subir ao púlpito com Afonso e as meninas para contar sua história de resgate do casamento em crise enquanto um Afonso quase caricatural apenas assentia e balbuciava amém a cada exortação da esposa. As crianças, lindinhas, davam o toque final àquele quadro tocante que era o casamento blindado perfeitamente constituído e celebrado. Ao final da fala de Tereza, a família fora ovacionada com emoção pela assembleia durante minutos, como se a realização da obra de Deus na vida das pessoas fosse um milagre em si mesmo. Tereza se sentiu especial por aquela partilha e considerou que a possibilidade de ajudar outras famílias como ela própria viu sua família ser ajudada valia qualquer sacrifício, qualquer renúncia, qualquer tolerância.

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... e continua ...


Ubi caritas est vera
Deus ibi est.


 
Autor
RicardoC
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