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PASSIONAL - Notas d'um bilhete suicida - parte 16

 
Tags:  SONETOS 2019  
 
PASSIONAL - Notas d'um bilhete suicida - parte 16

Quando chegaram nas cercanias de Moyo já estava anoitecendo. Em Laropi embarcaram nas balsas e, na margem ocidental do Nilo Alberto, continuaram a viagem pela estrada de terra. Foram mais vinte e cinco quilômetros de poeira sem maiores surpresas, mas, mesmo assim, todos estavam exaustos. O tempo em Moyo estava quente e abafado. Não havia uma rua sequer pavimentada na cidade de cerca de vinte mil habitantes que era a porta de entrada de sul-sudaneses em Uganda. Todas as cidades por onde haviam passado desde Atiak tinham campos de refugiados e missões humanitárias semelhantes a que iriam iniciar em Moyo. Com alguma dificuldade encontraram na periferia o conjunto de edificações alugado pelo Pr. Carlos Vinícius para a base de operações da missão e, à espera d'eles, o pastor em pessoa ladeado de seguranças brasileiros e funcionários ugandenses. Ele estendia os braços e sorria em sinal de júbilo pela chegada de seus missionários. Abraçou Júlia emocionado e apertou a mão de Tereza com entusiasmo... Tereza ficou visivelmente constrangida, mas Júlia, percebendo, desviou sua atenção para as vans onde os demais membros haviam viajado, levando Carlos para cumprimentá-los. Júlia agradeceu seguidas vezes os seguranças ugandenses, abraçando-os. Eles voltariam para Kampala no dia seguinte e preferiram passar a noite no centro da cidade para conhecer a vida noturna do lugar. Júlia brincou com eles e lhes recomendou juízo, pois, ambos eram casados... Os ugandenses riram, a abraçaram novamente e partiram. Carlos Vinícius os acompanhou até o portão, fez o pagamento acordado e lhes apertou as mãos. Voltando-se para Júlia levou-a até os seguranças brasileiros que o acompanharam desde que chegara a Uganda. O chefe da segurança era Clodoaldo, que Júlia conhecia desde o Brasil como "o homem da mala" por transportar valores para a igreja. Apertou-lhe a mão e, logo após se apresentou aos demais seguranças contratados pelo pastor. Júlia não gostava de Clodoaldo, mas Carlos Vinícius confiava cegamente n'ele. Comentava-se no Brasil que ele havia sido membro de grupos de extermínio em favelas. Outros diziam que era um ex-policial que fora injustiçado n'uma acção mais violenta. Facto era que não era santo.

Carlos Vinícius apresentou rapidamente o conjunto de prédios que perfazia a missão. Eram quatro edificações térreas e compridas de alvenaria de blocos de concreto aparente cobertas com telhados metálicos patinados de ferrugem. Elas configuravam um partido em C em relação à rua, conformando o largo pátio central empoeirado onde pararam os autos do comboio. Para além das edificações, havia árvores plantadas e algum vergel; dentro do pátio, porém, era apenas terra batida e poeira. As paredes ficavam salpicadas d'aqueles tons terrosos do patio até meia altura, como se uma tinta que uniformizava toda o ajuntamento. Era rústico e estoico, mas uma verdadeira hospedagem depois d'aqueles quase quinhentos quilômetros de estrada de Kampala a Moyo. Foram conduzidos aos alojamentos onde homens e mulheres dormiriam separados, com exceção do casal de pastores. Cada alojamento tinha dez camas, escaninhos e um banheiro. Havia eletricidade regular, o que era excelente visto que em Kajo Keji seria apenas por gerador movido a diesel. Enquanto se acomodavam e tomavam banho, Carlos seguiu com Júlia para a cozinha para jantarem todos juntos a primeira refeição missionária. Júlia estava tensa e cansada, mas Carlos, expansivo, tentava a todo custo lhe arrancar alguma admiração pelo lugar que havia preparado para o grupo com menos de vinte dias no país. Júlia reconheceu seu esforço e lhe sorriu, mas avisou que precisavam conversar o quanto antes. Carlos foi ver com os funcionários que adiantassem o jantar.

Cerca de uma hora mais tarde, o grupo se reuniu no prédio que era usado como cozinha, despensa e refeitório. Todos receberam bandejas de inox e se serviram com feijão cozido e carne enlatada preparada n'um molho genérico. Não havia verduras ou frutas e quase todos alimentos vinham de muito longe. Essa, sem muita variação, era a comida que se servia a partir dos suprimentos enviados pela ONU às agências humanitárias. O primeiro grande esforço, diziam as autoridades, era alimentar os refugiados e depois oferecer-lhes atendimento médico. Carlos Vinícius, negociando sua permanência em Moyo e o acesso aos recursos humanitários, deveria oferecer aquela refeição a pelo menos quinhentos refugiados já cadastrados n'um dos campos da cidade. Foi assim que sua igreja conseguiu entrar em Uganda.

Os dois prédios opostos nas extremidades do partido em C o pastor havia designado o superior como salão para cultos religiosos e o inferior como escola dominical para as crianças; os dois prédios do meio, enfileirados, eram o centro médico, o da direita; e os alojamentos e escritórios, o da esquerda. Durante a semana, a escola funcionaria apenas duas horas com aulas de alfabetização a serem dadas por professoras ugandenses contratadas na própria cidade. Os cultos neopentecostais, por outro lado, seriam diários, logo ao cair da noite, visto que após as 20hs ninguém circulasse pelas ruas por causa da insegurança. Apenas nos bares do centro, junto aos humildes hotéis da cidade, havia algum movimento noturno em torno de televisores e caixas de música em reuniões exclusivas de homens bêbados. A maioria se recolhia cedo e saia apenas de madrugada para trabalhar ou ir a escola.

Carlos, desde sua chegada a Moyo, documentava tudo em vídeo e enviava à igreja no Brasil. A telefonia celular em Moyo era cara e o povo, em geral, não acessava pacotes de mídia, apenas falava. Os missionários e funcionários da missão teriam um plano corporativo local, mas se submetiam em contrato ao controle da política de conteúdo da igreja, sendo impedidos de enviar imagens de violência ou comentários sobre a política de Uganda ou do Sudão dos Sul. A linha de tolerância das autoridades ao trabalho humanitário era tênue e móvel, logo, teriam de evitar mal-entendidos. Os celulares pessoais deveriam ficar na missão junto com os passaportes enquanto credenciais de agentes humanitários e celulares da igreja seriam entregues aos membros. Tudo isso era contratual! Logo, imagens, áudios e textos enviados pelos brasileiros ficavam sob o escrutínio e propriedade da igreja... Para se comunicarem com a família e amigos no Brasil, apenas com os telefones pessoais e dentro das dependências da missão. Enquanto apresentava os demais prédios a Júlia, o pastor a actualizava com seus planos para os próximos dias -- "O grupo recém-chegado, conforme planejado, deve começar a ajudar no acolhimento dos refugiados cadastrados e no serviço das refeições já no próximo domingo, quando uma verdadeira festa de boas-vindas aos missionários será oferecida para marcar o início das actividades do posto humanitário de Moyo. Os refugiados vão participar de dinâmicas de grupo e palestras, ao passo que as crianças terão uma rua de lazer. Vão ser servidos, excepcionalmente, doces e sucos naturais além do almoço "à la ONU" enriquecido com verduras da região. Todos identificados e uniformizados com roupas distribuídas previamente pela igreja ao campo onde moravam. " -- O acesso ao conjunto do posto humanitário dependia d'essa identificação, explicava ele -- "Será um grande dia!" -- concluiu o pastor, com entusiasmo. Ao que Júlia atalhou -- "Muito bom mesmo, Carlos! Mas vamos nos juntar ao grupo para jantarmos com eles." -- e foram se reunir com os demais no refeitório. Todos já jantavam quando o casal se servira e sentara. De longe, Júlia viu Tereza conversando animada com uma missionária. Não trocaram olhares. Carlos estava diante d'ela. Sua intenção era sentar com ele assim que se recolhessem para lhe comunicar a separação. Comia em silêncio enquanto o outro contava casos de seu tempo em Lübeck... Júlia, obviamente, não se sentia bem com a situação desde que se envolvera com Tereza, meses antes. Conversar com alguém sobre tudo menos o que se deveria falar era um fardo que ela não queria mais carregar. Fazia mais de um ano que não tinha qualquer intimidade com seu marido, desde que viajaram para o Egito. Terminaram de comer, esvaziaram as bandejas, se despediram de todos e finalmente foram para o quarto d'eles. Tereza ainda se demorou no corredor e viu quando a porta se fechou. Seu coração batia acelerado.

Júlia foi até o banheiro e tomou um banho. Pôs um pijama e esperou Carlos terminar sua higiene. Ele veio lhe dar um beijo na boca e ela virou o rosto, dizendo -- "Precisamos conversar." -- assustado, ele assentiu -- "Tudo bem, mas o que houve?" -- Júlia se sentou na cama, respirou fundo e começou -- "Carlos, eu sei que trabalhaste muito nos últimos meses dedicado a essa missão. Mas, a verdade, é que eu te disse, repetidas vezes, que não queria voltar ao Sudão -- Carlos ainda brincou, interrompendo-a -- Mas não estamos no Sudão, querida, estamos em Uganda!" -- e riu sozinho. Júlia continuou -- Eu não queria voltar à África. Não tinha estrutura psicológica para passar de novo pela agonia que passei no deserto e mesmo assim não me escutaste. Eu estou aqui agora apenas por causa dos compromissos que assumi pregando nas igrejas, senão jamais poria os pés novamente n'uma zona de conflito. Eu não sou soldado, sou uma pastora. -- Carlos parecia não entender -- "Mas tu que inventaste essa história de ser missionária. Eu estava bem com nosso ministério no Brasil. Tudo o que fiz no último ano foi para estar aqui para te apoiar, Júlia!" -- ela recuou -- "Eu sei, Carlos, sei melhor do que pensas. Mas eu mudei muito depois do Sudão... Aquilo foi demais para mim." -- Carlos a observava, incrédulo. Júlia continuou -- "Eu te pedi. Não, eu te implorei para não voltarmos. E que fizeste? Criaste uma situação com a igreja na qual eu voltava para arrecadar doações para a missão que eu decidira abortar! Eu circulei pelo Brasil pedindo dinheiro para um projeto que já não fazia sentido para mim. Eu descobri, do pior modo, que a África não é para amadores; para idealistas tampouco!" -- Carlos resolveu intervir -- "Júlia, estás cansada. Foi uma viagem difícil, eu sei..." -- Júlia explodiu com ele -- "Sabes o quê? Vieste com dinheiro e viajaste de jatinho! O que dinheiro pôde comprar de conforto e comodidade n'esse país tu compraste! O que fizeste foi turismo, não missão!" -- Carlos reagiu -- "Estás sendo injusta comigo. Tudo isso aqui fui eu quem preparou para que tivesses onde chegar! -- Júlia o desmascarou -- "Já estás de malas prontas para ir embora: Fui informada pela igreja dos teus compromissos na Europa a partir da semana que vem! Voltas para o Brasil no fim do mês!... Grande chefe de missão tu és... -- o pastor contemporizou -- "Temos outros interesses na igreja além d'esta missão. A igreja não pode ficar acéfala, logo, um de nós dois tem-de estar no Brasil." -- Júlia respondeu -- "Não me subestimes, Carlos. A igreja está bem. Tu não queres ficar aqui." -- Júlia se calou, contendo-se. Os dois ficaram parados, em silêncio, se mirando por alguns minutos.

Afinal, Júlia falou -- "Eu não vejo como seguirmos casados, Carlos. Sei que uma decisão como esta não diz respeito apenas a nós dois... Tem a igreja, nossos ministérios e, agora, essa missão. Considerando tudo isso, eu tomei uma resolução: A partir de hoje eu não me deito contigo e não sou mais tua mulher! -- A ficha caiu para Carlos -- Conheceste alguém?" -- Júlia permaneceu em silêncio. O pastor insistiu --"Sim ou não?" -- Júlia lhe confirmou -- "Sim, estou envolvida com outra pessoa. Isto é tudo o que precisas saber." -- e continuou com os termos da separação -- "Eu me proponho a permanecer aqui por doze meses, no máximo, apenas para cumprir os compromissos que firmei ao pedir as doações. No fim d'este prazo, a igreja deve enviar outro corpo humanitário para esta missão. Eu voltarei com estes que trouxe comigo. Chegando ao Brasil eu entrarei com o pedido de divórcio. Eu não quero escândalo, Carlos, mas não tenho medo de passar por um se necessário". -- Carlos sequer escutava esses pormenores. Perguntou de súbito -- "Quem é ele?" -- Júlia respondeu -- "Não importa. Não o conheces". Carlos resolveu mudar de tática -- "Olha, Júlia, o último ano foi muito difícil para nós. Eu fiquei doente e, ao que parece, tu também. A diferença é que eu busquei tratamento. Agora não é possível tomar qualquer decisão. Como tu mesma dizes, estás presa a este lugar pelos próximos meses. O tempo cura tudo; há-de nos curar também. Somos jovens, ainda podemos nos perdoar e seguir em frente. Quantos casais nós não orientamos a fazer exactamente isso? Temos um vínculo sólido: Um casamento cristão! Podemos restaurar nossa relação em Cristo e levar o Evangelho às pessoas. -- Júlia, percebendo o que fazia, o cortou -- "Durante muito tempo, Carlos, isso me bastava. Eu fazia vistas grossas ao teu excesso de trabalho; à tua ambição desmedida; à tua superficialidade... Sim, porque, de certo modo, eram os meios para o fim que eu me propus: Pregar o Evangelho de Jesus Cristo. Por resto, também eu me sentia parte do cenário d'um programa de TV onde prometíamos algo que ninguém devia prometer, ou seja, felicidade conjugal. " -- Carlos fez nova ofensiva -- "Vamos fazer assim, Júlia, eu cancelo minha viagem à Europa e permaneço aqui até o fim do mês. Não! Atraso minha volta ao Brasil e fico contigo aqui. Tens razão, meu amor, eu tenho estado ausente tempo demais. A igreja pode esperar um pouco mais..." -- Júlia explodiu de novo -- "Amor?!" Será que não ouviste nada do que eu disse? Eu não te amo mais! Eu estou apaixonado por outro! Eu não vou me deitar contigo! Eu não sou mais tua mulher! Para de negar o que está acontecendo... Isto é real! Sou eu, Júlia, pondo um ponto final n'essa história de casamento blindado! Chega de mentiras, Carlos Vinícius! Eu sei que tua preocupação não é comigo ou com minha felicidade. Não, tua preocupação é com tua igreja e o dinheiro d'ela. Fica tranquilo, Carlos, eu não quero dinheiro. Para me ver livre d'essa situação eu assino qualquer papel; abro mão de qualquer coisa. Eu não preciso d'aquele mundo em rosa que inventaste para nós dois aparecermos na TV."

Carlos se levantou da cama e saiu do quarto.

... e continua ...


Ubi caritas est vera
Deus ibi est.


 
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RicardoC
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