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Contos : 

Vinte e quatro horas sem Marlene

 
Vinte e quatro horas sem Marlene


O sorriso espalhafatoso dizia tudo para os que com ela conviviam. Direta e amiga sempre. Inimiga, nem pensar. Era rápida e inflexível. Temida e amada. Isso dependia do tom da conversa. Não aceitava gracejos indesejados. Repelia com veemência. A vizinhança a respeitava. Afinal foram intensas cinco décadas. Samba, canto, paixão e cozinha aliados ao seu gingado próprio e sensivelmente particular personificavam aquela figura alta, volumosa e morena. De longe ouvia-se seu dançar cantarolado abastecido do amor trazido pelo aroma de seus temperos.

Até hoje todos se recordam de sua vinda a este mundo. Sol a vapor escaldante. Domingo bravo de um verão aterrorizante. Exatamente ao meio-dia ecoou por todos os lares do bairro um canto de sereia que encantou inclusive os que dormiam e roncavam suores de corpos doídos do trabalho noturno. Rostos escancaram-se nas janelas e portas. Correrias de crianças esquecidas das brincadeiras. Avós com terços a entoarem rezas e inúmeras preces. Jogadores abandonaram a bola e rodaram a esmo procurando algo desconhecido.

A linda menina crescia envolta em seus sentimentos meigos e rudes sempre em busca de um fato novo que a fizesse sorrir. Adorava rir. E quando isso acontecia – quase sempre – o bairro inteiro ouvia o bater de seus dentes a cantar alegrias. A empolgação se generalizava. Não sabiam ao certo o motivo, mas gargalhavam saudade que um dia sentiriam. Não havia uma só nota musical que não aderisse aos requebros harmônicos da pequena.

Na adolescência estreou no carnaval. Encantou até o mais incrédulo folião. Ainda enxergava o mundo como envolto em uma enorme brincadeira sem tristezas e maldades. Os olhos imensos da agora jovem morena percorriam com vigor o transcorrer dos dias sem conhecer as noites que se avizinhavam. Era independente e liderava sua vida como quem dirigia um enorme caminhão com pressa. Jamais aceitaria imposições. Era livre o suficiente para sobreviver.

O aroma dos mais variados e exóticos temperos vindos da cozinha penetrava nos lares levando doçura e encantamento. Era mágico sentir o vento trazendo apetitosas delícias. Vivia do fogão. Amado fogão. Com esse dom conquistou além de muitos clientes inúmeros amores que se derretiam por suas qualidades de cama, mesa e banho. O mais importante para aquela alma inquieta foi a companhia do bombeiro que morava a cinco quarteirões. Aconteceu com muita intensidade e ternura. Ao perceber que perderia sua independência afastou-se mesmo sentindo profunda dor a atormentar seu espírito.

Resolveu que jamais tornaria a se apaixonar. Era sofrimento por demais. Não se encaixava em sua transbordante alegria. Ao anoitecer quando uma pequena nostalgia a incomodava buscava nas companheiras - a música e a cozinha – seu alento. Eram panelas, travessas, colheres de pau, samba no pé, voz firme pulando do ventre, cocada, feijoada, carne assada, bolo de milho a rodar como belo desfile da escola de samba, amada amiga da juventude. Essa era a Marlene que envolvia as ruas com seu canto de sereia ao som do badalar da meia-noite. O último a ouvir e a ver o sorriso moreno e largo. Pela manhã a encontraram. Estava linda e feliz. Traiçoeira noite.

Naquela pequenez temporariedade o bairro inteiro escutou o lamento cheiroso e harmônico da forte canção que chorava ao se lembrar das vinte e quatro horas sem Marlene.



Alexandre Sansone
27.05.2020





 
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Enviado por Tópico
Sansone
Publicado: 29/05/2020 18:35  Atualizado: 29/05/2020 18:35
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 Re: Vinte e quatro horas sem Marlene
Excelente texto , Alexandre. Cumprimento-o, portanto. Um abraço!
Ângela Trigueiros