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Um altifalante no parapeito da janela a entornar música

 
Quando menos se esperava, lá vinha ele na sua carrinha Fiat verde, com o altifalante preso ao tejadilho, a encher de música a pacatez do campo...
Assim que chegava a casa, nem um minuto e o altifalante já colocado na janela da cozinha a entornar fados por aquele vale abaixo até à Benfeita. Dizia que era para os que andavam a trabalhar por aquelas terras adiante, muitos ao dia fora, sentirem alegria e assim o trabalho nem lhes custar tanto. Ou seja, enquanto erguiam o ancinho ou a picareta, conforme o trabalho em que andassem e que fosse preciso puxar pela força, a Amália Rodrigues ou o Carlos do Carmo a darem uma ajuda e em virtude disso, tudo muito mais leve! E assim se repetia todos os dias por uma ou duas semanas, conforme o tempo que por ali estivesse.
A falar era um espalha-brasas, mas sempre com uma alegria do tamanho das casas.
Em certa ocasião, tinha saído a um Sábado de madrugada uma excursão de dois dias, da Benfeita e com rumo ao Norte. Da nossa aldeia inscreveram-se uns quantos convivas sendo que eu também fui com o meu pai. Entre outros, recordo-me ainda do Ti Marques do Soito porque se estava sempre a meter comigo por eu não ver nada do passeio em virtude de ir sempre a dormir.
A primeira noite seria passada em Braga onde haveria uma festa enorme da qual me recordo do fogo preso e dos foguetes de lágrimas, das ruas todas iluminadas e dos passeios cheios de barraquinhas a venderem-se coisas e onde me compraram uma harmónica que me deixou radiante, mas que se enchia sempre de saliva e desafinava e por esse motivo nunca me saiam bem as modas...
Ora, estávamos nós, já depois de ter dado algumas voltas ao recinto das festas, a tentar dormir alguma coisa no interior da camioneta em virtude de não se ser muito abonado e poder ir pernoitar a uma pensão ou assim, nos bancos destinados a dois passageiros lado a lado visto que o nosso que era o do fundo já ocupado por uma manada de filhos de alguém ferrados no sono... E nisto ele a chamar o Ti Marques (que era compadre), do lado de fora, especado no terreiro «Ó Marquês! Ó Marquês! Ó Marquês! » E nós a ter de nos levantar para ir lá fora ter com ele, que tinha resolvido abalar também para ali, por nos saber na excursão e lá haver uma grande festa. Escusado será dizer, que, nessa noite, ninguém de nós dormiu. Foi petiscos e pandega toda a noite. Fartei-me de comer cavacas, carago!
Outra vez, ele a dar-nos uma boleia para um sítio qualquer que era preciso ir e no caminho a serem horas de almoço e o homem, cheio de galga, a levar-nos para uma tasca e a perguntar o que havia para comer que não fosse preciso esperar muito e a mulher da tasca a dizer-lhe que tinha arroz de feijão e joaquinzinhos que estavam a acabar de fritar - «E sopa, tem sopa?» Ao que a mulher lhe respondeu que sim. Que tinha uma sopinha de feijão e lombardo que estava uma maravilha!.«Então traga-me já um prato dela enquanto se espera pelo resto». E o prato da sopa a vir para a mesa e ele a devorar a sopa desesperado de larica e aquele ainda a meio e ele já a pedir à mulher «mais outro... traga outro!» E veio outro, mais outro ainda, deixando-nos, a mim e ao meu pai, de boca aberta de pasmo por nunca tal termos visto. Ao que se seguiu ainda, o arroz de feijão com os joaquinzinhos fritos que nos souberam ás mil maravilhas.
Havia até quem lhe chamasse maluco por não pedir licença a ninguém para meter em prática as suas ideias nem ligar nenhuma ao que os outros pudessem pensar e dizer dele, mas, no fundo, toda a gente que o conhecia o aceitava tal como era. Assim, diferente. Era uma boa alma, o Nabiça do oiteiro.

Cleo


*... vivo na renovação dos sentidos, junto da antiguidade das lembranças, em frente das emoções...»

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Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 24/03/2023 17:35  Atualizado: 24/03/2023 17:35
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 Re: Um altifalante no parapeito da janela a entornar música
Cleo
Apreciei a viagem nesse fiat verde cantante e fiquei com vontade de provar a culinária da sua região. Muito bom!
Parabéns pela inspiração!
Abraço!
Janna