Poemas -> Intervenção : 

Digestão (quase) impossível

 
Vivo num mundo que não se mastiga,
Duro como ferro entre os dentes cansados,
Onde ideias apodrecem antes de nascer,
E verdades são servidas em pratos quebrados,
Há um gosto metálico no ar que respiro,
Como se o tempo tivesse sido envenenado.

Chamam de ordem o que é apenas controle,
Um fio invisível puxando os gestos possíveis,
Um roteiro escrito por mãos que não pensam,
Apenas repetem dogmas antigos e insensíveis,
E cada voz que tenta ser livre
É silenciada por ecos previsíveis.

As ruas caminham sozinhas, sem destino,
Cheias de corpos que esqueceram de sonhar,
Olhos que brilham apenas por reflexo,
Como vitrines vazias a se iluminar,
E o silêncio pesa mais que qualquer grito,
Porque ninguém ousa escutar.

O sistema mastiga nossas vontades,
Cospe versões menores de quem fomos,
Nos reduz a números, códigos, padrões,
A peças frágeis em mecanismos autônomos,
E nos convence, com falsa ternura,
De que somos livres, enquanto decompomos.

Há uma ignorância vestida de certeza,
Um orgulho cego que recusa enxergar,
Como um rei nu que se crê absoluto,
Reinando sobre um nada a desmoronar,
E quem ousa apontar o vazio
É tratado como alguém a se apagar.

Mesmo assim, algo resiste nas sombras,
Um fragmento indomável de lucidez,
Uma chama que não aceita ser moldada,
Nem dobrada pela fria estupidez,
Um sussurro que insiste em dizer:
“Há mais do que essa bruta insensatez.”

E quem sabe seja por isso que sobrevivemos,
Não no mundo, mas contra ele,
Na recusa silenciosa de engolir o absurdo,
Na coragem de sentir o que não cabe nele,
Pois viver, aqui, é um ato de ruptura,
Um não constante ao que nos repele.

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

www.odairpoetacacerense.blogspot.com

Instagram
@poetacacerense
 
Autor
Odairjsilva
 
Texto
Data
Leituras
337
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
8 pontos
6
1
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 21/05/2026 10:11  Atualizado: 21/05/2026 10:11
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 4381
 Re: Digestão (quase) impossível p/ Odairjsilva
Intenso, negro e pugnaz. A intensidade nasce da dor com que se escreve, quase como uma ferida por fechar ou que insiste em sangrar. A escuridão da ignorância desses que se prostram n'As ruas caminham sozinhas, sem destino também dói, mata, martiriza. A luta é permanente, tem de ser permanente... E quem sabe seja por isso que sobrevivemos.


Enviado por Tópico
gillesdeferre
Publicado: 21/05/2026 12:53  Atualizado: 21/05/2026 12:53
Colaborador
Usuário desde: 14/06/2024
Localidade:
Mensagens: 574
 Re: Digestão (quase) impossível
Boa tarde
Excelente poema. Um mundo que se tenta viver procurando para lá do seu limiar.
Como refere na última estrofe.

Tudo de bom
gillesdeferre


Enviado por Tópico
DCM_1978
Publicado: 22/05/2026 17:25  Atualizado: 22/05/2026 17:25
Super Participativo
Usuário desde: 05/01/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 158
 Re: Digestão (quase) impossível
Grande trabalho Odair, abraço poético

Links patrocinados