Sobre a morte
A morte não chega como um grito,
chega como um silêncio que aprende a ficar.
Não bate à porta com urgência—
apenas muda a forma da luz
num quarto que continua a existir
sem quem o habitava.
É a ausência que não faz ruído,
mas reorganiza tudo à sua volta:
nomes ficam mais leves,
objetos perdem o seu destino,
e o tempo passa a lembrar
em vez de seguir em frente.
Não há mapa para esse lugar
onde alguém deixa de caber no mundo,
só um espaço que insiste
em parecer presença.
E ainda assim,
entre a dor e o espanto,
fica algo que não se perde:
o que foi amor
recusa desaparecer completamente.
Talvez seja isso a morte—
não um fim imediato,
mas uma forma lenta
de o invisível continuar a tocar-nos.
© | Palavras guardadas, todos os direitos reservados, Paula Oliveira,Portugal