Tropeço nos ensaios que a vida me oferece,
Como ator que esquece as falas no meio da cena.
Mas não é a queda que decide o meu destino,
É a busca silenciosa dentro de mim
Pela alavanca que me levanta outra vez.
Há dias em que o chão parece definitivo,
E o erro ecoa como aplauso invertido.
Caminho entre tentativas mal acabadas,
Figurino rasgado de sonhos provisórios,
Aprendendo a cair sem abandonar o palco.
Porque viver é ensaiar sem roteiro final,
É repetir gestos até que façam sentido.
Cada tropeço afrouxa um parafuso do medo,
Cada falha revela uma porta escondida
Onde a esperança repousa em silêncio.
Procuro então a pequena alavanca invisível,
A força mínima que muda todo o peso.
Um pensamento, um afeto, uma memória,
Qualquer centelha capaz de mover o mundo
Quando tudo em mim parece imóvel.
E quando a encontro, às vezes tão simples,
Levanto como quem redescobre o próprio corpo.
Os tropeços ficam espalhados pelo caminho
Como marcas de um aprendizado secreto:
Cair também faz parte de aprender a subir.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense