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Escrever ao som de... 2019

 
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O nosso ebook já vai quase nas 200 páginas, cheias de muita imaginação e de ótima poesia. Nesta semana, contámos com as colaborações de Alemtagus, Luxena, fracafigura007, Liliana Jardim, Alpha, AlexandreCosta, Benjamin Pó e Aline Lima. Que venham muitas mais, para que se realize o nosso objetivo de dar expressão os nossos poetas para além das fronteiras do seu perfil pessoal no Luso-Poemas.

É altura de recordarmos o ano de 2019.

A primeira canção é "AmarElo", do rapper brasileiro Emicida. No vídeo oficial, logo no início, surge um áudio real de alguém que esteve próximo do suicídio, mas que sobreviveu, seguido de um sample da música "Sujeito de Sorte", do veterano Belchior. Para juntar a todas estas vozes, Emicida ainda convidou Pabllo Vittar e Majur, duas personalidades muito conhecidas do universo LGBTQIAPN+ brasileiro. Acrescentamos outro pormenor curioso: o vídeo foi registado no Complexo Morro do Alemão.

A segunda canção pertence ao repertório de André Henriques, de quem já falámos na semana passada, a propósito da canção "Eu por Engomar", cuja letra foi escrita por ele. Conhecido como vocalista dos Linda Martini, uma das bandas mais influentes do rock alternativo português, apresentou "E de repente" como single do seu primeiro álbum a solo e, nas palavras da nota informativa da editora discográfica, "é um filme sem refrão, uma canção sem trailer, uma história de amor improvável".

Emicida – "AmarElo"


André Henriques – "E de repente"


O som está lançado. O poema, agora, é seu.

Nota: Caso não se identifique com nenhuma das canções sugeridas, pode inspirar-se numa outra, desde que seja do ano a que se refere o post.


 
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Luso-Poemas
 
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Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 12/05/2026 07:46  Atualizado: 12/05/2026 07:46
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 4258
 Re: Escrever ao som de... 2019
A água turva escorria-lhe lenta
Pela pele lisa a galgar suspiros
Nesses ais rasgados dum olhar
O beijo doce de sabor a menta
Era o último dos velhos zéfiros
Que deixavam os lábios salivar

O dia deitava a noite nas mãos
Que morriam à sede no jardim
Coberto com mulheres em flor
Dos gritos sussurrados irmãos
Saíram longas sílabas sem fim
Escritas de um branco sem cor

Teus pés nus calçados de terra
Dançavam soltos tanta loucura
Sedenta dos vícios de nós dois
Tem-me no sentir qu'me aferra
Nesta fome de que te faço jura
Em eterno adeus de até depois

Enviado por Tópico
MarySSantos
Publicado: 13/05/2026 18:36  Atualizado: 13/05/2026 18:37
Colaborador
Usuário desde: 06/06/2012
Localidade:
Mensagens: 6059
 Re: Escrever ao som de... 2019
Refletindo o amarELO

existe um pequeno silêncio
depois que a chuva passa.

é como se as poças que ela deixou
exigissem um tempo para revelar a
tranquilidade triste do que reflete.


MarySSantos

Enviado por Tópico
Luxena
Publicado: 13/05/2026 21:34  Atualizado: 13/05/2026 21:34
Da casa!
Usuário desde: 07/03/2025
Localidade: Brasília
Mensagens: 245
 Re: Escrever ao som de... 2019
2019 foi um ano muito memorável na minha vida. Não tenho tantas memórias, mas foi o último ano que passei na minha cidade natal, Fortaleza, com meus primos, minhas avós, meus tios, minha família. Aqui está:

Esoterismo

bate-estaca
repete, repete, repete
a mesma coisa
eu acho que tô de ressaca

por cinco mil dias
eu acreditei
que realmente estava vivo
quais dedos eu chupei?

vejo o oculto aparecendo
eu vou já
ah, acordei, sei o que é
vou embarcar nessa maré

finalmente sem texturas conflitantes
valho mais que diamante
brilhando com aquela delícia
cheia de malícia

delirante é o seu suco
o néctar da vida
alimento de todo maluco
deixando-se levar pela correnteza

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 14/05/2026 09:29  Atualizado: 14/05/2026 18:48
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 956
 Re: Escrever ao som de... 2019
.
presumível inocente

o poeta ataca as teclas
por gatilho a inspiração
desapertada na gravata

o olho de gafanhoto
do corretor sublinha o erro
com fio de cobre ou cobranto

o dedo fica suspenso
de olhos coloridos na maçã
e o verso termina

enforcado numa vírgula
a ficha arrancada no chão
desenhando o álibi

no corredor o poeta suspeita
das próprias costas curvadas
dentro e fora do silêncio

a luz do ecrã continua
a escurecer o quarto
verde contra negro

(inspirado na canção "E de Repente", de André Henriques)

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 14/05/2026 16:02  Atualizado: 14/05/2026 16:44
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1633
Online!
 Re: Escrever ao som de... 2019
.
"E de repente" - André Henriques


A boa, o pau e o pilão

o estranho sem nome
talvez não fosse o mau
era pistola toda só fome
de flores
e coração dentro do coldre
fugido, a um amor podre
ido por um punhado de do(la)res

wah wah wah

de frente surgiu a boa
a morrer de linda
pilão ao meio
pronta a esfregar pau de cabinda
levantou-lhe um sobrolho desafiador
olhou picante
pi(s)cadela fulminante
de quem sabia de aguentar investidas
de carregador cheio
e empoleirou-se
prometida a um duelo enroscado de longo alcance

wah wah wah

ele tocava ocarina sem dó
e ela em sintonia
tocava a flauta de madeira em si
perfeita harmonia
a afastar as pernas
a música era já em sol-fá-midas
receita dourada de cura
para doenças de não cavalgar há muito tempo
até ao pôr do sol

wah wah wah

precavida de quem sabe morrer bem
ela sabia-lhe perfeitamente o nome
Clint, o Paudeste
evidência que aumentava a tensão

ui ui ui

num ápice esfomeado
mais rápido que a própria sombra
ele foi-se a ela
de arma em riste
nem lhe deu tempo de sacar
ela apenas percebeu que ensacou
as balas
deixou-se ir
nos disparos sem dó de arma bem oleada

ai ai ai
ai ai ai

só depois ele percebeu que morreram juntos
quando prostrado sobre ela
atento a algum respiro
sentiu o desfalecimento...

wah wah wah

um índio malandro de asas
em conluio com ela
tinha disparado uma flecha canhão
e acertou-lhe
em cheio
bem no meio
do coração


14-05-2026

Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 15/05/2026 02:10  Atualizado: 15/05/2026 02:10
Administrador
Usuário desde: 02/04/2012
Localidade: Brasília- Brasil
Mensagens: 1193
 Re: Escrever ao som de... 2019
.
Farofa e Apocalipse

minha vontade de morrer
perdeu espaço
pra um áudio de vinte e sete minutos

tia gargalhando
panela de pressão ao fundo
alguém perguntando do miojo
bebê cometendo crimes acústicos

ela dizia:
“não vem inventar tristeza grande
num mundo que faz farofa”

eu ri com ódio
depois ri direito

a cidade inteira mastiga luz
e cospe em postes cansados
gambiarra emocional:
flertando no açougue
chorando no pix
dançando com hérnia
sobrancelha feita
antes do colapso

apocalipse
e unha em gel
ombro a ombro

não é esperança
esperança é palavra de palestra

tesão absurdo
de continuar existindo
só pra contrariar
projeto arquitetônico do desastre

ontem
comprei camisa amarela
violentíssima

da cor
de quem decidiu
não facilitar
pro fim

Enviado por Tópico
agniceu
Publicado: 15/05/2026 05:26  Atualizado: 15/05/2026 05:26
Colaborador
Usuário desde: 08/07/2010
Localidade:
Mensagens: 808
 Re: Escrever ao som de... 2019 de André Henriques – "E de repente"
Os poetas que não rimam às letras


Nadamos
atmosfericamente
contentes,
no meio da multidão.

Bracejando
em vão…
de escadas,
de praias descalças,
nos ensaios de acenos,
nos abraços em contramão.

Somos assombros
à procura dos ombros
mais quentes,
de gente vestida
com casacos de pele.

Gritamos afeto
com a máscara
nas antigas
e nas futuras epidemias
(que venha o amor, o antiviral com mais sucesso).

Ainda assim,
mordemos a língua
antes da comida
e, mesmo depois,
lambemos as feridas
após os golpes
das palavras ríspidas,
até
ao pendurar
dos lábios
no armário.

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 15/05/2026 15:41  Atualizado: 15/05/2026 15:41
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1633
Online!
 Re: Escrever ao som de... 2019
.
"AmarElo" - Emicida


Círculo dourado

não se ama o elo
o elo é de se amar
e o amarelo
é um círculo dourado
que vive o tempo do amor

tomara que o ouro não derretesse
e que à data inicial
não houvesse contraste

não desçam à forja
sejam dentro as fornalhas
e os elos
serão eternos


15-05-2026

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 15/05/2026 17:38  Atualizado: 15/05/2026 17:38
Membro de honra
Usuário desde: 14/04/2015
Localidade:
Mensagens: 2337
 Re: Escrever ao som de... 2019
De repente

Não houve aviso
nem portas a bater
nem o último pássaro a riscar o céu.

Ficou um vazio estranho
daqueles que fazem a casa parecer maior
e até os relógios
andavam cansados.

As ruas ficaram quietas
as janelas fechadas
e o vento perdeu-se algures
como se já não soubesse voltar.

A luz da tarde entrou devagar
e por um momento
a casa pareceu à espera de alguém.

Há ausências que não passam.
Instalam-se.

Mudam de lugar as coisas dentro de nós
deixam cadeiras fora do lugar
portas entreabertas
e a impressão estranha
de que alguém acabou de sair!

Enviado por Tópico
DCM_78
Publicado: 17/05/2026 11:13  Atualizado: 17/05/2026 11:13
Super Participativo
Usuário desde: 05/01/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 126
 Re: Escrever ao som de... 2019 André Henriques "E de repente"
Amor

Amar é desejar que sejas feliz
Amar é apreciar cada particularidade tua, boa ou má
Amar é perceber que és do mundo e não minha

Amar é abraçar a diferença e despir-me de preconceitos
Amar é ter medo de te perder
Amar é ter um bocadinho de ciúmes

Amar é olhar-te nos olhos e não precisar de palavras
Amar é derreter o gelo e sentir o calor
Amar é saber o porquê de ter nascido

Amar é subir uma montanha e atingir o cume
Amar é levar-te sempre nos meus pensamentos
Amar é dizer-te que és tudo para mim

Amem intensamente e sobretudo, amem-se a vós próprios.

Enviado por Tópico
DCM_78
Publicado: 18/05/2026 16:50  Atualizado: 18/05/2026 16:50
Super Participativo
Usuário desde: 05/01/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 126
 Re: Escrever ao som de... 2019 Emicida "AmarElo"
Melancolia

Neste jeito de alma danificada
Deambulo pela minha própria tristeza
Insatisfeito e ávido pela beleza de momentos

Quero contemplar o pôr de sol à beira mar
Quero sentir o sabor a café
Quero apreciar as curvas femininas

Quero andar à chuva e molhar-me
Quero ter inspiração
Quero ouvir um violoncelo

Quero sentir o cheiro a cavalo
Quero ouvir o lobo a uivar
Quero olhar nos olhos

Quero trincar o gengibre
Quero cheirar a lúcia-lima
Quero ler a poesia da Florbela

Tirem-me tudo, mas nunca a minha melancolia.

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