3h20 da manhã. Uma urgência em hora de ponta. Sem maca, dormir (?) no cadeirão. A Dor acorda cedo, com medicação, tensões e a simpatia de um grupo azul cansado. De repente e ao longo do dia, parecera que os idosos tinham combinado cair — de escadas, em casa, de andaimes, cair simplesmente. E jovens. Ao longo do dia, juntaram-se em 13 macas e 3 cadeirões, 16 frutos de azares.
A simpatia azul mudara de rosto; não a dedicação, o humor para com os dois casos de 90 anos que teimavam que pedissem ao pai, à mãe, que os viessem buscar. E a paciência do céu, sempre azul, dando cumprimento ao discurso desconexo, prestando atenção, dando atenção quando mais nada havia a fazer, a não ser impedir que caíssem da maca.
Uma delas instalou-se perpendicularmente, agora que já tivera direito também a uma. Um jovem, sem pernas, contorcia-se com dores de estômago ou do que fosse que ainda não tinha sido diagnosticado. O seu olhar desesperado suava, entre os gritos do Alzheimer e os gemidos das três pernas engessadas. O tempo doía-lhe mais do que o mal desconhecido de cada vez que chamavam alguém para o Bloco.
Quando a chamaram — e porque era a única que conseguia deslocar-se sem dores, num dedo condenado, morto, que seria deitado num recipiente qualquer depois da intervenção final —, chamaram-na e os olhares de ambos cruzaram-se. Viu o desespero, uma quase revolta admirada... "Ela está bem, não se queixa, movimenta-se, eu já estou aqui há quase 3 horas de sofrimento. Devia ser eu a ir."
Pensei nas 15 horas de permanência ali, sem comer ou beber, carregando um dedo morto que me iria deixar em breve. Sorrindo... "Vai correr tudo bem", no olhar. Que de nada serviria, mas foi-me necessário.