Havia uma menina
que morava muito longe.
Não longe das cidades,
nem dos caminhos,
mas longe de si.
Os olhos carregavam o brilho
de quem já nasceu sonhando,
mas o coração caminhava descalço
por corredores de silêncio.
Enquanto outras crianças
colecionavam risos,
ela colecionava ausências.
Aprendeu cedo
que algumas pessoas partem
antes mesmo de dizer adeus.
À noite,
conversava com a lua
como quem pede colo.
Abraçava o travesseiro
imaginando que um dia
o mundo aprenderia
a abraçá-la de volta.
Era uma criança perdida,
não porque não soubesse o caminho,
mas porque ninguém lhe ensinou
que também existia
uma estrada de volta para dentro.
Cresceu.
O tempo mudou sua voz,
seus passos,
seus medos.
Mas, de vez em quando,
aquela pequena menina
ainda bate à porta do peito,
sentando-se em silêncio
num canto da alma,
esperando que alguém
a encontre sem que ela precise gritar.
E talvez o maior milagre da vida
não seja deixar de ser
essa criança distante.
Talvez seja estender a própria mão
até ela,
olhá-la com ternura
e dizer:
“Eu demorei…
mas finalmente voltei para te buscar.”