Dou por mim, aqui sentada,
Neste velho banco de madeira.
Tanto tempo... sem escrever nada,
Na inspiração... acentou poeira.
Sinto vulnerabilidade e hesitação,
Acho que perdi minha essência.
Pego a caneta... Trémula da mão,
Tentando sair desta decadência.
A montanha do Pico parece uma silhueta.
O sol praticamente já se escondeu.
Como se o dia estivesse numa ampulheta,
Dando lugar à noite, que ainda não nasceu.
O horizonte está pintado em tons pastel.
Não se consegue distinguir o mar...
do céu.
Que bela pintura tão bem articulada,
Com sons da natureza misturada,
Pura beleza!
O ar arrefeceu, sinto na pele a geada.
O cheiro do musgo na pedra,
Pelo largo riacho... rasgada,
O som da água em cada queda,
Como sapateado numa calçada.
A cascata chama por mim,
É mais forte, do que a minha vontade,
Preciso de ir ao seu encontro, o fim,
Onde no mar encontra liberdade.
Estou a fixar o papel,
Não tenho mais nada a acrescentar,
Olho novamente os tons pastel,
Pouso a caneta... e vou à cascata me banhar!
Quem sabe amanhã volte a escrever,
Noutras circunstâncias, noutro lugar...
Soube bem me soltar... desprender,
E voltar a divagar!
Vânia Brasil