Lisboa, 29 de maio de 2026
Querida Amália,
Aconchego-me na minha cadeira de veludo e chego-me à frente, arrastando as pernas da cadeira no chão de azulejo. Pouso os braços em cima da secretária e seguro na minha caneta, a caneta que conhece os segredos mais obscuros da minha alma. Olho pela janela, o tempo lá fora está nublado. A minha vista não alcança a Ponte 25 de Abril, nem o Cristo Rei em Almada.
Não sei que raio de impulso tive ontem, comprei um maço de cigarros e um pequeno isqueiro. Ambos estavam pousados na minha secretária, juntamente com a minha máquina de escrever, o meu bloco de notas com rabiscos sem nexo, um molho de folhas A4 em branco e um candeeiro.
Num momento de raiva, abri o maço de cigarros, tirei um e foquei os meus olhos naquele pequeno demónio. Aquele momento assustou-me, sou sincero. Mas quando acordei para a realidade, como um clique, mandei o demónio para dentro do balde do lixo por baixo da minha secretária, fazendo companhia a folhas amarrotadas. Peguei igualmente no maço e dei-lhe o mesmo destino.
Concentrei-me na minha caneta e nas folhas A4 que se encontravam à minha direita, delicadamente tirei uma folha do monte e comecei a escrever esta carta que nunca te escrevi.
Os meus olhos voltam a fixar a vida que corre no exterior daquela casa. Ouço as buzinas dos automóveis apressados para chegar ao trabalho ou a um funeral que começara há minutos. Tal como o burburinho das pessoas no café a discutir os jogos de futebol do fim de semana, em que o Sport Lisboa e Benfica ganhou ao seu rival da Segunda Circular, o Sporting Clube de Portugal.
Um pombo acabara de pousar no parapeito da janela e traz no seu bico um pequeno galho.
A vida lá fora parece muito mais interessante e agitada, mas eu sempre preferi uma vida mais solitária, melancólica e sem pressas. Tu, melhor do que ninguém, sabes isso e, devido a isso, abandonaste esta casa há mais de um ano. Nunca soube qual dos dois não teve a capacidade de compreender o outro. Mas fui compreensivo comigo mesmo e deixei-te partir, viver a vida que eu nunca te iria proporcionar. Abri mão de um grande amor para que pudesses ser livre. Hoje desejo que tenhas encontrado a tua liberdade. No entanto, eu, hoje, sinto-me desamparado.
Aquele beijo.
do teu Dante Belmonte.