Pardalito Vadio
Pardalito vadio, pula-pula, tresmalhado,
esvoaça num percurso que só ele o conhece.
Bicando, obtém o seu sustento no que lhe depara
assustado, voa na beira d’ um telhado.
Emite breves piados, como quem agradece
favores, que sem direito, a sorte lhe negara.
Pardalito de plumas em matizado castanho,
Vigia, de constante esvoaçar circundante,
perigos que s’ avizinham e foge frenético.
Pardalito, segura esta minha alma sem tamanho,
que o teu voar não impede, e a depõe agonizante
aos pés de meu amor, num último grito patético.
Voa bom pardalito, procura e diz à minha amada:
Dos meus despojos mortais que encontraste, algo meu
lhe trazes, ínfima parcela do meu ser, quase nada,
pedaços meus que há muito não têm lugar em nenhum céu.
Por este favor, outro pedirás: um naco de pão
para matar tua fome; a sede uma gota de água.
Se disso for incapaz, sacia-te do coração
e bebe, dos seus olhos, dorida lágrima de mágoa.
pentadecassilábico (15 sílabas poéticas)