Pardalito Vadio
Pardalito vadio, pula aqui, pula ali,
tresmalhado, esvoaça num louco
percurso, que só ele conhece.
Bicando, tem o seu sustento
no que se lhe depara - assustado, voa
e refugia-se à beira de um telhado.
Emite breves e ritmados pios
como quem agradece favores,
que sem direito, a sorte lhe negara.
Pardalito emplumado de tons matizados
de castanho, de olhar vivo, vigia,
num eterno movimento circundante,
perigos que se avizinham e foge frenético.
Pardalito bonito, toma a minha alma sem tamanho,
que o teu voar não impede, e depõe-a agonizante
aos pés da minha amada, num último grito patético.
Voa pardalito, voa, procura a minha amada e diz-lhe:
- Dos despojos mortais encontrados, algo meu lhe trazes,
ínfima espécie do meu ser, quase nada, pedaço perdido,
insublime, sem lugar em nenhum céu.
Por este favor, outro favor lhe pedirás:
um naco de pão para mitigar a tua fome,
e para tua sede uma gota de água.
Se disso ela for incapaz, alimenta-te
do seu doce coração e bebe, dos seus olhos,
uma dorida lágrima de mágoa.
Poeta sem Alma
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